Em momentos de crise, a soberba é má conselheira
Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive a mais grave crise de sua história. E não foram poucas. Leia mais (09/04/2026 - 18h12)

Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes, 2023)
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Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive a mais grave crise de sua história. E não foram poucas.
A autoridade do tribunal sempre foi contestada por setores autoritários da vida brasileira, que desrespeitaram suas decisões, violaram suas prerrogativas, aposentaram ministros e, mais recentemente, vandalizaram sua sede. O que torna a crise atual mais grave que as anteriores é que às ameaças externas se somam os ataques internos, que colocam em risco a sobrevivência não apenas da instituição mas da própria Constituição.
Não será fácil superar a presente crise pela qual passa o Supremo, se é que ela será um dia superada. O termo crise, em sua origem, designa não apenas o risco de perecimento de um organismo ou instituição mas um momento crucial, em que decisões precisam ser tomadas com vistas à correção de rumos e reestabelecimento da normalidade. A soberba apenas nos aproximará do precipício.

Embora o corredor pareça estar cada vez mais estreito, os que têm compromisso com a democracia e com a liberdade das futuras gerações estão compelidos a construir alternativas que favoreçam a revitalização de nossa democracia constitucional.
Dois movimentos parecem indispensáveis neste momento. O primeiro deles é a apuração dos fatos que aprofundaram a crise nos últimos dias. Ao intimar colegas e demais autoridades envolvidas no imbróglio para se explicarem, assim como acenar com o fim do inquérito das fake news, o presidente do Supremo, Edson Fachin , deu um passo essencial em direção à responsabilização daqueles que eventualmente tenham violado a lei. A última palavra será, no entanto, do colegiado. Afinal, a ele cabe acertar ou errar em último lugar.
Um segundo movimento necessário para superar a crise é apresentar e implementar reformas no âmbito da jurisdição constitucional que contribuam para ampliar a imparcialidade, a integridade e a consistência do tribunal, como têm sugerido inúmeros setores da sociedade brasileira. A adoção de um código de ética é a primeira delas.

A realidade é que o Supremo se tornou uma instituição muito poderosa. Nas suas mãos foram concentradas as funções de corte constitucional, tribunal de últimos recursos e tribunal penal de primeira instância para altas autoridades. Isso precisa mudar. É necessário separar essas funções. Sobretudo, é preciso afastar do Supremo a competência para processar e julgar penal um número inaceitável de autoridades —isso tem sido o principal responsável por contaminar politicamente a jurisdição constitucional brasileira.
Outra medida fundamental seria fortalecer o colegiado em detrimento dos membros do tribunal. Decisões monocráticas deveriam ser absolutamente excepcionais e de vida curta. O faroeste caboclo que a nação testemunha bestificada é fruto dessa fragmentação perniciosa.
Por fim, não podemos esquecer que o desenho institucional, por si, não dá conta dos desafios de uma instituição com tamanhas responsabilidades. Afinal, todas as instituições são habitadas por pessoas e seu desempenho depende do comportamento dos ocupantes. O processo de condução de ministros precisa ser qualificado, para garantir ilibada reputação, notável saber e, se possível, maior diversidade. Os mandatos não deveriam ultrapassar 12 ou 16 anos.
Como acentuava Rui Barbosa, "a autoridade da Justiça é moral e sustenta-se pela moralidade de suas decisões".
Recuperar a autoridade do Supremo não será tarefa fácil, mas, neste momento, é a mais importante tarefa de quem defende o Estado de Direito.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/oscarvilhenavieira/2026/09/em-momentos-de-crise-a-soberba-e-ma-conselheira.shtml.

Deputados com projetos de lei que miram o Supremo — Foto: Folha de S.Paulo
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