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    Em minha despedida do New York Times, já não sei quem são os mocinhos e os vilões

    Quando entrei para o jornal The New York Times como colunista, há 17 anos, o presidente Barack Obama ainda desfrutava do entusiasmo e da popularidade de seu primeiro mandato. Tanto nos círculos políticos quanto nos culturais, havia uma confiança desmedida de que sua combinação de liberalismo social e ambição tecnocrática havia varrido a era conservadora da política americana. Leia mais (08/12/2026 - 06h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 09:00
    Em minha despedida do New York Times, já não sei quem são os mocinhos e os vilões
    Homem de camisa listrada branca olha fixamente para outra pessoa em restaurante, com copos de água sobre a mesa. Ambiente interno com outras pessoas ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Colunista do New York Times, é autor de 'To Change the Church: Pope Francis and the Future of Catholicism' e ex-editor na revista The Atlantic

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    O colunista do The New York Times, Ross Douthat, durante uma conversa no lounge do Metropolitan Museum of Art, em Nova York - Vincent Tullo - 15.mai.18/The New York Times · Vincent Tullo - 15.mai.18/The New York Times
    O colunista do The New York Times, Ross Douthat, durante uma conversa no lounge do Metropolitan Museum of Art, em Nova York - Vincent Tullo - 15.mai.18/The New York Times · Vincent Tullo - 15.mai.18/The New York Times — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando entrei para o jornal The New York Times como colunista, há 17 anos, o presidente Barack Obama ainda desfrutava do entusiasmo e da popularidade de seu primeiro mandato. Tanto nos círculos políticos quanto nos culturais, havia uma confiança desmedida de que sua combinação de liberalismo social e ambição tecnocrática havia varrido a era conservadora da política americana.

    O trabalho de um colunista abarca uma infinidade de coisas, mas é útil ter um antagonista principal, uma visão de mundo específica que, em sua opinião, precisa ser questionada e criticada.

    Para mim, durante muitos anos, essa visão de mundo foi o consenso das elites do início da era Obama —uma perspectiva majoritariamente de centro-esquerda, também compartilhada por magnatas do Vale do Silício , políticos centristas ao estilo de Michael Bloomberg e parcelas da classe de consultores republicanos.

    Líderes mundiais se cumprimentam se reúnem para uma foto oficial do G7, na França - Haiyun Jiang - 16.jun.26/The New York Times · Haiyun Jiang - 16.jun.26/The New York Times
    Líderes mundiais se cumprimentam se reúnem para uma foto oficial do G7, na França - Haiyun Jiang - 16.jun.26/The New York Times · Haiyun Jiang - 16.jun.26/The New York Times — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Era uma perspectiva moralmente permissiva e deliberadamente cosmopolita, que combinava multilateralismo e belicismo na política externa e se mostrava otimista quanto à possibilidade de uma elite meritocrática conduzir um mundo em processo de globalização rumo à prosperidade e à harmonia.

    Em parte, eu me opunha a essa visão de mundo por razões de conteúdo. Eu era religioso nas partes onde ela era amplamente secular, era contrário ao aborto onde ela defendia o direito de escolha, e tinha dúvidas sobre sua abordagem de questões tão diversas quanto a imigração em massa, a legalização da maconha e o Oriente Médio .

    Em parte, eu me opunha a essa visão de mundo por razões políticas. Muitos republicanos estavam convencidos de que o Partido Republicano precisava se adaptar ao consenso para sobreviver, transformando-se, na prática, em um segundo partido culturalmente liberal, mas com ares de defensor do livre mercado —e eu tinha certeza de que isso estava errado.

    Veja quem são os novos bilionários do boom da IA
    Veja quem são os novos bilionários do boom da IA — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    E, por fim, eu criticava o consenso das elites porque ele precisava desesperadamente de críticos vindos da própria elite e, na ausência deles, era constantemente tentado a ir longe demais. Mesmo quando partia de uma posição razoável, não sabia a hora de parar, e havia coisas demais sobre a natureza humana que ele parecia desconhecer.

    Ao longo da última década na política ocidental, esse consenso das elites naufragou por algumas das razões que eu previa.

    Pessoas caminham em frente ao Centro de Transmissão da CBS, em Manhattan - Spencer Platt - 23.dez.25/Getty Images via AFP · Spencer Platt - 23.dez.25/Getty Images via AFP
    Pessoas caminham em frente ao Centro de Transmissão da CBS, em Manhattan - Spencer Platt - 23.dez.25/Getty Images via AFP · Spencer Platt - 23.dez.25/Getty Images via AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não conseguiu antever as desvantagens de políticas conduzidas por especialistas, não estava preparado para os efeitos mais sombrios das mudanças tecnológicas, levou o liberalismo social tão longe que deixou pessoas vulneráveis à deriva ou entregues aos próprios vícios e cometeu erros graves na política externa porque não esperava que o mundo não ocidental resistisse com tanta força a seus planos.

    Mas, ao observar essa crise se desenrolar, percebo que perdi a noção de qual visão de mundo contemporânea mais precisa ser criticada ou combatida, de quem são os mocinhos e os vilões.

    Cada grande facção parece potencialmente perigosa, tentada pelo lado sombrio à sua maneira singular, marcada por tantas disputas e pressões contraditórias que já não tenho certeza de que lado realmente estão os anjos.

    Grupo de líderes mundiais em traje formal posando e conversando em plataforma azul ao ar livre, com árvores ao fundo e céu claro.
    Grupo de líderes mundiais em traje formal posando e conversando em plataforma azul ao ar livre, com árvores ao fundo e céu claro. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Comecemos pelo populismo, que chegou ao poder em razão dos fracassos do consenso das elites. Para muitos conservadores que compartilhavam minha crítica ao establishment da era Obama, a rebelião populista foi o veículo de suas esperanças.

    Mas, no segundo mandato do presidente Donald Trump , o populismo exibiu a maioria dos vícios que seus críticos previam. Foi corrupto, intimidador e desestabilizador. Recompensou incompetentes e aliados favorecidos. E tropeçou para dentro de uma guerra no Oriente Médio com ainda menos preparo do que seus antecessores do establishment.

    Para muitos leitores liberais, esses pecados fazem do populismo o perigo máximo, a emergência singular. Mas, à medida que o trumpismo se debate e fracassa, ele não consolida o tipo de poder autoritário previsto por seus adversários mais alarmados.

    Fachada do CBS Broadcast Center com letreiro metálico e logo da emissora. Rua movimentada com carros e pedestre com mochila azul caminhando na calçada sob cobertura metálica.
    Fachada do CBS Broadcast Center com letreiro metálico e logo da emissora. Rua movimentada com carros e pedestre com mochila azul caminhando na calçada sob cobertura metálica. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Neste momento, o Trump 2.0 não tem grande popularidade , capacidade legislativa nem legado de políticas públicas que um sucessor democrata não possa reverter com facilidade. O próprio presidente ainda pode ser uma figura perigosa, e talvez haja forças mais sombrias à espera de sua vez —mas não creio que isso justifique transformar o antipopulismo na medida de todas as coisas.

    Especialmente quando se consideram as alternativas. Primeiro, há o que resta do establishment de centro-esquerda, alguns de cujos vícios parecem menos graves à luz do trumpismo —tecnocratas presunçosos talvez sejam preferíveis a brutamontes que agem em benefício próprio—, mas que continua sendo responsável pelos erros que levaram à ascensão do populismo e permanece à deriva diante das novas condições políticas.

    Depois de 2020, tentamos recolocar esse establishment no comando, mas a era de Joe Biden nos trouxe apenas uma versão mais à esquerda da arrogância meritocrática: substituiu especialistas por grupos de interesse, levou o liberalismo social e a imigração ilegal ao limite e, no fim, desmoronou por completo.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Algo semelhante poderia ser dito sobre a experiência de Keir Starmer no Reino Unido . Não há indícios de que a velha elite tenha um plano adequado à governança contemporânea, nem razão para esperar que ela não volte a percorrer o mesmo ciclo de erros e reações contrárias.

    Mas, se você não quer aderir à reação populista, a única alternativa a sustentar o establishment liberal é colocar o Ocidente nas mãos do identitarismo progressista 2.0, do pensamento de Hasan Piker e da energia dos Socialistas Democráticos da América —progressismo social com características socialistas.

    Não quero descrever esse movimento como categoricamente pior do que seus adversários do establishment, pois, às vezes, a esquerda compreende coisas que escapam ao centro.

    Mas vivi os anos do auge do identitarismo progressista, e foi uma experiência macartista. Convivi com a governança dos estados democratas incentivada pelo progressismo doutrinário, e ela produziu colapso cívico e educacional. E eu preferiria não dar à extrema esquerda o poder de regulamentar, processar e reescrever o orçamento federal.

    Por fim, todas essas forças políticas —os populistas impopulares, o establishment em desordem, a esquerda em ascensão— exibem seus vícios à sombra da revolução da inteligência artificial , que está criando novas zonas de poder nas quais me é quase impossível distinguir amigos de inimigos.

    Anthropic ou OpenAI ? O Pentágono ou os laboratórios de ponta? Os estranhos aceleracionistas ou os ainda mais estranhos profetas do apocalipse?

    Os falcões em relação à China ou os céticos quanto aos data centers? As pessoas que consideram a IA uma tecnologia normal —e que, portanto, podem subestimar seus perigos— ou aquelas que acham estar criando um deus-máquina —e que, por isso, podem acabar subjugadas a ele?

    Repetidas vezes, a escolha de qual lado apoiar e qual temer depende de fatores desconhecidos sobre até onde e com que rapidez a tecnologia avançará.

    E de fatores desconhecidos sobre como determinada visão de mundo poderá interagir com essas mudanças e com as tentações que elas criam, e outros fatores sobre como as facções políticas existentes se alinharão a favor e contra diferentes perspectivas sobre a IA.

    Isso faz deste um momento muito importante para o tipo de jornalismo que faz muitas perguntas antes de se lançar a afirmações categóricas.

    Nos últimos dois anos, tive a sorte de o The New York Times me permitir seguir esse tipo de investigação como apresentador de podcast. E, neste mês, aceitei um cargo no programa "60 Minutes", da CBS News, no qual fazer perguntas será parte central do meu trabalho profissional.

    Isso significa que esta é minha última coluna para o New York Times, ao menos nesta fase. Houve um tempo em que eu imaginaria um ensaio de despedida com uma defesa eloquente do conservadorismo religioso, uma última incursão pelo território em que eu mais provavelmente discordaria de meus leitores. Mas não creio que isso combine muito com o momento.

    Em vez disso, expressarei —junto com minha imensurável gratidão ao próprio New York Times, a meus colegas e editores— a esperança de ter contribuído para lançar alguma luz. Espero que meus textos tenham acrescentado algo à sua compreensão da complexidade dos Estados Unidos , do futuro incerto do mundo e da estranheza de nosso tempo.

    Espero oferecer esse tipo de contribuição no "60 Minutes". Espero que o New York Times possa continuar iluminando o mundo como somente um grande jornal consegue. E, onde quer que eu esteja trabalhando e o que quer que você esteja lendo, todos avançaremos juntos rumo ao futuro —confiando, como tantos americanos antes de nós, que há um anjo em algum ponto da tempestade indicando o caminho.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ross-douthat/2026/08/em-minha-despedida-do-new-york-times-ja-nao-sei-quem-sao-os-mocinhos-e-os-viloes.shtml.

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