Em Michigan, disputa ao Senado expõe racha democrata sobre Israel
Confesso que nunca esperei ver uma eleição americana em que a escolha de candidatos em mais do que alguns distritos será entre um socialista democrático e um monarquista republicano -mas, se você viver o bastante, verá de tudo. Leia mais (08/13/2026 - 06h00)

Editorialista de política internacional do New York Times desde 1995, foi ganhador do prêmio Pulitzer em três oportunidades
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Confesso que nunca esperei ver uma eleição americana em que a escolha de candidatos em mais do que alguns distritos será entre um socialista democrático e um monarquista republicano —mas, se você viver o bastante, verá de tudo.
Ao ouvir esses socialistas democráticos e republicanos do tipo "Trump rei, certo ou errado", não paro de pensar em uma das minhas falas favoritas do cinema .
Ela é do filme de 1997 "Melhor É Impossível", no qual Jack Nicholson , no papel de um escritor misantropo, abre a porta e encontra uma vizinha pedindo que ele leve um cachorro para passear e dando um conselho animado sobre abrir as cortinas para contemplar "a bela obra de Deus".

Nicholson diz a ela: "Onde ensinam vocês a falar assim?". E acrescenta: "Vá vender loucura em outro lugar. Aqui já estamos com o estoque cheio".
Como eu gostaria de poder dizer isso a esses dois extremos: já estamos com o estoque de loucura na política americana lotado. Vão vendê-la em outro lugar.
Mas, como este é o único país que tenho, como as eleições de meio de mandato serão decididas por uma margem mínima e como estou convencido de que mais dois anos de Donald Trump totalmente sem amarras —controlando a Câmara, o Senado e, tacitamente, a Suprema Corte— poderiam provocar o fim dos Estados Unidos como os conhecemos, preciso pensar em como tirar o melhor proveito de algumas opções nada ideais.

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O caso que mais merece atenção está em Michigan, por isso aqui vai um conselho gratuito para Abdul El-Sayed, o candidato democrata ao Senado pelo estado . Por que ele? Porque sua vitória ou derrota pode determinar se Trump continuará governando como monarca, sem nenhuma fiscalização do Congresso.
Senhor, se quer conquistar os eleitores judeus e centristas de Michigan, aumentar suas chances de vitória, manter-se fiel às suas raízes pró-palestinas e árabe-americanas e dar o troco no American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), a organização pró-Israel cujo supercomitê de ação política gastou US$ 32 milhões (R$ 165,7 milhões) para tentar derrotá-lo nas primárias, o senhor terá de avançar por esse estreito caminho político com muito cuidado. Há uma maneira.

El-Sayed afirma que os judeus de Michigan não deveriam se preocupar com ele —insistindo que seu compromisso "com a segurança dos judeus é o mesmo compromisso" que ele tem com a segurança de suas "próprias filhas".
Isso é louvável, mas muitos eleitores judeus americanos não estão apenas em busca de maior proteção policial por parte de seus representantes eleitos. Eles querem o reconhecimento do direito dos judeus à autodeterminação, como qualquer outro povo.
Sim, muitos judeus americanos, sobretudo os jovens, agora concordam —assim como eu— com o ex-chefe do Mossad, Tamir Pardo , que, em 2023, condenou o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu por levar "partidos racistas horríveis" aos mais altos cargos do gabinete do país, descrevendo-os como "muito piores" do que a Ku Klux Klan.

Mas não confundam isso com a crença no direito de Israel de existir como Estado judeu: isso ainda é algo muito caro à maioria dos judeus americanos — tanto quanto a ideia de um Estado palestino pulsa no coração da maioria dos árabes e muçulmanos. Israel faz parte da identidade deles, e El-Sayed não convencerá os judeus americanos simplesmente dizendo que protegerá suas sinagogas.
Ele precisa enfatizar sua posição ainda mais louvável e construtiva —que acabei de ouvi-lo expor a Kaitlan Collins, da CNN — de que acredita "em direitos iguais à paz, à dignidade e à autodeterminação para israelenses judeus e palestinos".
Essa é uma perspectiva muito boa e difere da defendida pelo prefeito socialista democrático de Nova York , Zohran Mamdani , que defende que os judeus não têm direito à autodeterminação em um Estado próprio —um Estado judeu em sua pátria bíblica.

Como observou Jay Michaelson, colunista colaborador do The Forward: "A declaração de El-Sayed já oferece um contraste útil com a de Mamdani.
Ele não está dando uma sentença sobre a legitimidade de Israel ou da Palestina ; ao contrário, insiste na visão pragmática, que compartilho, de que ‘como deve ser a paz definitiva’ precisa ser decidido tanto por palestinos quanto por israelenses —posição rejeitada tanto pelo grupo da esquerda que diz que sionismo é colonialismo quanto pelos supremacistas judeus da direita".
Mas, quando El-Sayed faz campanha ao lado do streamer de extrema esquerda Hasan Piker , que afirmou que "o Hamas é mil vezes melhor" do que Israel, não surpreende que eleitores judeus se perguntem qual é sua verdadeira posição sobre o direito deles a um Estado próprio, como qualquer outro povo.

Sejamos muito claros: o Hamas é uma organização terrível, antes de tudo para os palestinos. É vergonhoso o salvo-conduto que alguns progressistas pró-palestinos lhe concedem —criticando Israel, mas nunca o Hamas, como se este não tivesse vontade própria nem responsabilidade por seus atos.
Eu sei um pouco sobre a capacidade de ação do Hamas. Em fevereiro de 2002, nesta coluna, o então príncipe herdeiro saudita Abdullah bin Abdul Aziz pediu, pela primeira vez, que a Liga Árabe oferecesse paz e normalização das relações com Israel em troca da retirada total israelense dos territórios palestinos para as fronteiras de 1967.
Esse apelo levou a Liga Árabe a realizar, no mês seguinte, em 27 e 28 de março, em Beirute , uma conferência de paz justamente com esse objetivo. Dela saiu o que ficou conhecido como Iniciativa de Paz Árabe. Vocês sabem qual foi a resposta do Hamas àquela primeira iniciativa de paz pan-árabe, que estabelecia as bases para uma solução de dois Estados?
Na noite de abertura daquela cúpula árabe, um homem-bomba do Hamas entrou em um sêder de Pessach em um hotel israelense em Netanya e detonou os explosivos, matando 30 pessoas e ferindo mais de 140. Esse é o Hamas —duas décadas antes da guerra na Faixa de Gaza .
Normalmente eu nem entraria nesses pormenores, mas é angustiante demais observar como a esquerda socialista democrática afastou tantos jovens democratas da posição histórica dos Estados Unidos para o Oriente Médio : dois Estados para dois povos —autodeterminação para judeus e palestinos.
Qualquer outra posição representa uma derrota geopolítica para os Estados Unidos e uma derrota para palestinos, israelenses, árabe-americanos, judeus americanos, muçulmanos americanos e todos os demais americanos.
El-Sayed deveria simplesmente continuar enfatizando o que disse à CNN —que acredita "em direitos iguais à paz, à dignidade e à autodeterminação para israelenses judeus e palestinos"— e que apoiaria qualquer acordo de paz aceito mutuamente por eles.
Depois, deveria voltar a falar sobre o Meio-Oeste e deixar o Oriente Médio de lado.
Defender qualquer outra posição exclusivista —segundo a qual apenas palestinos ou judeus têm direito a uma pátria nacional entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão— é uma receita para uma guerra eterna, porque cerca de 7 milhões de palestinos e 7 milhões de judeus vivem hoje nessa área, e nenhum dos grupos irá embora.
Quem defender qualquer uma dessas posições é inimigo da paz e afastará os eleitores centristas, que decidirão esta eleição.
Dito isso, entendo que El-Sayed esteja ressentido com os US$ 32 milhões gastos pela AIPAC para derrotá-lo nas primárias de Michigan e que, sem dúvida, ela gastará mais para tentar vencê-lo na disputa pelo Senado. Mas ele não pode deixar que isso o domine e custe aos democratas uma cadeira no Senado, deixando o país com mais dois anos de monarquia trumpista.
Não é só El-Sayed, porém, que precisa traçar linhas vermelhas claras. Os judeus americanos deixaram a AIPAC conduzi-los até a beira do precipício.
Como sabem os leitores desta coluna, sou crítico da AIPAC há muito tempo. (O verdadeiro lobby pró-Israel e pró-Estados Unidos é o J Street.) Embriagada com o próprio poder, a AIPAC perdeu o rumo anos atrás, quando teve de escolher como seria pró-Israel —se colocaria em primeiro lugar os interesses e valores dos Estados Unidos ou os interesses e valores de Netanyahu. A AIPAC escolheu ser pró-Netanyahu.
Repito: isso não é complicado. El-Sayed pode ser pró-Estados Unidos, pró-Michigan, pró-Palestina, pró-muçulmanos, pró-Israel e pró-povo judeu e, ao mesmo tempo, expor a AIPAC como a organização de fachada de Netanyahu na qual se transformou: basta continuar defendendo dois Estados para dois povos. Depois, é só falar sobre Michigan.
Acreditem, seu adversário republicano não vai gostar disso. E, se isso desagradar à extrema esquerda de seu próprio partido, será um bônus para ele e para todos nós.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/thomas-l-friedman/2026/08/em-michigan-disputa-ao-senado-expoe-racha-democrata-sobre-israel.shtml.

O candidato ao Senado dos EUA, Abdul El-Sayed, discursa durante um comício do Partido Democrata, em Michigan - Rebecca Cook - 7.ago.26/Reuters · Rebecca Cook - 7.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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