Em estado precário, cemitério da Consolação aguarda restauração
Concessionária alega que custo das obras está muito acima dos R$ 3,2 milhões previstos no edital

As camadas de história encobertas em construções, ruínas e paisagens, por Vicente Vilardaga
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Já virou lugar-comum dizer que o cemitério da Consolação , inaugurado em 1858 e o mais antigo de São Paulo em funcionamento, é um museu ao ar livre. Seus túmulos são decorados com esculturas de artistas consagrados, como Victor Brecheret, Galileo Emendabili e Luigi Brizzolara . Só no ano passado, o lugar recebeu mais de 4.000 pessoas em suas visitas guiadas, todas interessadas nos ilustres personagens ali enterrados e nas suas inúmeras obras de arte.
Apesar de todos os seus atrativos, a necrópole tem um problema sério. Ela precisa ser restaurada com urgência. Seus muros estão em mau estado de conservação, assim como seus pórticos, a capela, o vestiário, o prédio da administração e o arruamento. Ainda não há um memorial dos mortos políticos nem foram implantados novos depósitos, vestiários e copa, como estava previsto no edital de concessão. Desde 2023, o cemitério é administrado pela concessionária Consolare , a quem cabe fazer todas essas melhorias.
A restauração não avança por dois motivos. O primeiro é burocrático. Por se tratar de um bem tombado pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), qualquer obra depende de uma avaliação rigorosa —que se estende há três anos— e de autorização da SP Regula , órgão que cuida das concessões na cidade.

O segundo motivo é financeiro. Segundo o diretor-executivo da Consolare, Leandro Bazzoni, quando o edital de concessão foi assinado se estimava o custo da restauração em R$ 3,2 milhões, mas hoje se sabe que esse valor foi subestimado e para deixar o cemitério do jeito que se espera serão necessários R$ 16 milhões, segundo cálculo da própria concessionária.
"Restaurar o cemitério da Consolação é algo muito complexo", diz Bazzoni. "Os custos são cinco vezes maiores do que os previstos e o nosso objetivo é juntar todos os órgãos envolvidos nesse processo e executar o orçamento pelo menos em parte." Ele espera iniciar as primeiras obras em 2027.
A SP Regula informou em nota que o restauro da necrópole exige procedimentos específicos justamente por se tratar de um bem tombado e que as medidas estão sendo tomadas. "Todas as etapas previstas para as intervenções estão sendo cumpridas e, portanto, o processo está em andamento", afirma. "No ano passado, o Condephaat expediu autorização para o restauro e em agosto deste ano, o Conpresp deu parecer favorável ao plano geral de intervenções e restauro, que está em análise pelo DPH (Departamento do Patrimônio Histórico) ."

O cemitério da Consolação tem 6.500 túmulos e outro grande problema é que cerca de 20% deles estão abandonados, de acordo com a concessionária Consolare. Um rápido passeio pela área revela essa condição precária. As famílias proprietárias não mostram interesse em preservá-los e eles ficam cobertos de mato ou em ruínas. Tampouco há um esforço para se comunicar com a concessionária a fim de encaminhar alguma solução.
Enquanto permanece esse impasse, a Consolare não pode cobrar a tarifa anual de manutenção dos donos das sepulturas . Para isso, segundo as regras da concessão, é preciso cumprir três etapas: recadastrar todos os túmulos (só 25% passaram pelo processo), digitalizar os livros com os registros de sepultamento no cemitério e realizar as obras de restauração.
Por enquanto, segundo Bazzoni, a receita do cemitério se restringe aos repasses do serviço funerário, aos enterros, cerca de 30 por mês, às exumações, às execuções de lápides e à venda de túmulos. Neste momento, há apenas sete deles em condições de comercialização e outros 63 estão passando por melhorias. Como se vê, ainda deve demorar para o cemitério da Consolação ter o tratamento que merece.

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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/andancas-na-metropole/2026/09/em-estado-precario-cemiterio-da-consolacao-aguarda-restauracao.shtml.

Contrato de concessão do cemitério da Consolação prevê restauro dos pórticos, hoje deteriorados - Vicente Vilardaga · Vicente Vilardaga — Foto: UOL
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