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    Em discurso na ONU, Nepal cobrou do mundo a fatura de uma crise que ele não criou

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    Folha de S.Paulo
    26 de setembro de 2026 às 11:00
    Em discurso na ONU, Nepal cobrou do mundo a fatura de uma crise que ele não criou
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Penapolense, graduado em Jornalismo pela Unesp, editor adjunto de Mundo e autor da newsletter Planeta em Transe.

    Inundação e deslizamento matam centenas entre Nepal e China
    Inundação e deslizamento matam centenas entre Nepal e China — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    "Eu gostaria de poder estar aqui hoje simplesmente para falar sobre desenvolvimento, democracia, paz e as esperanças de uma nação jovem. Em vez disso, preciso falar sobre morte e destruição em proporções épicas. Sobre famílias esperando por entes queridos que nunca voltarão para casa. Sobre comunidades vasculhando lama, pedras e água em busca de pessoas cujos corpos talvez nunca sejam recuperados. Sobre pontes, estradas, escolas, casas e meios de subsistência levados pela água em questão de minutos."

    Moradores observam casas parcialmente submersas em lama após inundação em Trishuli, no distrito de Nuwakot - Prakash Mathema /AFP · Prakash Mathema /AFP
    Moradores observam casas parcialmente submersas em lama após inundação em Trishuli, no distrito de Nuwakot - Prakash Mathema /AFP · Prakash Mathema /AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Começou assim um dos discursos mais impactantes da Assembleia Geral da ONU . Era a antepenúltima fala de um dia em que representantes e lideranças de 36 países-membros ocuparam a tribuna das Nações Unidas.

    No caso do jovem premiê do Nepal , o discurso foi, em suas palavras, um "alerta para a humanidade".

    "E eu pergunto hoje: nós realmente ouvimos esse alerta?", questionou Balendra Shah, 36.

    Área urbana coberta por lama e detritos após enchente. Edifícios parcialmente submersos e danificados. Pessoas observam a cena da margem, com motocicleta estacionada próxima. Montanhas e céu nublado ao fundo.
    Área urbana coberta por lama e detritos após enchente. Edifícios parcialmente submersos e danificados. Pessoas observam a cena da margem, com motocicleta estacionada próxima. Montanhas e céu nublado ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Neste sábado (26), o desastre que matou cerca de 1.400 pessoas completa um mês. O "tsunami do Himalaia", como Shah o chamou, deixou ainda mais de 6.000 pessoas desaparecidas . Como expliquei em outra edição da Planeta em Transe , as mudanças climáticas tiveram seu papel na tragédia.

    "Um clima mais quente está desestabilizando a frágil ecologia do Himalaia", disse o premiê nepalês. "A devastação resultante provocou destruição dos dois lados da fronteira entre Nepal e China. A enchente seguiu rio abaixo em direção à Índia . Isso nos diz algo fundamental: a mudança climática não reconhece fronteiras. Geleiras e enchentes não viajam com um visto carimbado no passaporte."

    Shah assumiu a liderança do Nepal em março. Na política, foi prefeito de Katmandu, a capital do país, e antes ficou conhecido como rapper. Sua ascensão foi o resultado de uma ruptura geracional que, como visto em outros países , partiu de protestos organizados pela geração Z e estremeceu estruturas que os manifestantes consideravam arcaicas.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Apenas cinco meses depois de se tornar primeiro-ministro, Shah se viu à frente do país enfrentando uma das maiores tragédias de sua história. Além das perdas humanas e do trauma das cenas aterrorizantes daquele 26 de agosto , o Nepal agora tem pela frente uma tarefa bilionária de reconstrução .

    Na ONU, o premiê agradeceu pela ajuda internacional já recebida e indicou que vai precisar de mais assistência. Mas também apresentou outra fatura, muito mais cara, ainda que menos tangível.

    "Precisamos entender por que esse desastre importa para além do Nepal. O Nepal contribui com menos de 0,1% das emissões globais de gases de efeito estufa. Nós não criamos esta crise. Ainda assim, estamos pagando um preço colossal por ela", disse.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É o dilema de dezenas de pequenos países que, embora longe de serem protagonistas na contribuição para os fatores que provocam a crise do clima, estão vulneráveis aos efeitos dela. Suas demandas são recorrentes em eventos multilaterais, como a própria Assembleia Geral da ONU e as conferências climáticas da entidade, como a COP30 , ocorrida no ano passado em Belém (PA).

    Ainda nesta sexta-feira (25), por exemplo, o premiê de Tuvalu repetiu o apelo para que o mundo não se esqueça de como as mudanças climáticas podem tirar o pequeno país do mapa devido à elevação do nível do mar.

    Em sua fala, o primeiro-ministro do Nepal pediu que a Assembleia guardasse seis palavras.

    Alívio. 2. Reabilitação. 3. Reconstrução.

    E também: 4. Responsabilidade. 5. Reparação. 6. Resiliência.

    "As três primeiras são aquilo de que precisamos depois de um desastre", disse Shah. "As três últimas são aquilo de que precisamos para garantir que o desastre não se torne uma condição permanente."

    A Assembleia Geral da ONU é o palco para muitas demandas. Às vezes, para discursos com matizes eleitorais, como vimos com Lula e Donald Trump . Também para ataques e acusações, como vimos com o primeiro-ministro de Israel e o presidente do Irã .

    Um evento extremo também pode ser o gatilho para crises políticas, e administrar um país em um cenário delicado como esse é ainda mais desafiador. Mas o que chama a atenção no discurso de Balendra Shah é a sua tentativa de mostrar que a pauta do clima é universal.

    "Não estamos aqui para culpar nenhum país ou continente. Não estamos aqui para transformar a mudança climática em mais um campo de batalha geopolítico. Estamos aqui para pedir a todos que reafirmem seu compromisso com a responsabilidade compartilhada e a solidariedade", afirmou o nepalês.

    Quando diz que "aqueles que historicamente contribuíram mais para o problema e aqueles que têm maior capacidade de responder precisam fazer mais", Shah não está reinventando a roda. A comunidade internacional já reconheceu —ao menos em tese— que esta é, sim, uma responsabilidade que concerne a todos.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/em-discurso-na-onu-nepal-cobrou-do-mundo-a-fatura-de-uma-crise-que-ele-nao-criou.shtml.

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