Em depoimento, tenente-coronel fala em armação da perícia para incriminá-lo
CNN Brasil obteve acesso à integra do interrogatório de Geraldo Leite Rosa Neto, ocorrido na última segunda-feira (5) no Fórum Criminal da Barra Funda (SP)

A CNN Brasil obteve acesso à íntegra do interrogatório de mais de oito horas do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana . No relato, ele alega ter sido vítima de armação das peritas que atuaram no caso para incriminá-lo.
O depoimento foi prestado na última segunda-feira (5), no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Na audiência, estiveram presentes representantes do Ministério Público, o advogado da família de Gisele e a defesa do oficial.
Neto acusou a equipe da perícia de ter manipulado a cena do crime durante a reconstituição dos fatos para prejudicar a visbilidade da vítima em sua versão, já que afirma ter encontrado a esposa caída na sala .

“No dia da reconstituição, as peritas deslocaram o sofá 50 cm para cá, para que ele tampasse a minha visão do chão da sala.” Assista ao trecho:
Na época do ocorrido, um policial relatou ter visto uma árvore de natal em cima da cama. Neto teria questionado a presença do item em cima da cama e afirmado que alguém teria mexido em seu quarto.
No depoimento, o tenente-coronel afirmou que a árvore de Natal foi remontada e posicionada no cômodo pelas peritas para obstruir seu campo de visão.

“As peritas foram… remontaram a árvore, demoraram ali quase 10 minutos para remontar a árvore só para me acusar”, declarou o militar.
Entre as críticas feitas à perícia, o réu relatou que, antes da reconstituição, uma das peritas teria dito que estava convicta da culpa dele.
“Antes de começar a perícia, a perita falou assim para mim: ‘O senhor pode falar o que for, pode fazer o que for… Eu já tenho minha convicção que o senhor é culpado. Eu sei que o senhor matou ela”, afirmou Geraldo.

A arma usada no crime, segundo Geraldo, estava em cima de um guarda-roupas de 1,90m de altura, contrariando a altura de 2,10m apontada no laudo.
Ele afirma que a medida teria sido alterada para criar uma falsa narrativa de que Gisele não alcançaria a arma sobre o guarda-roupas.
Neto apontou outras supostas irregularidades na preservação das provas. Ele conta que, ao lado desse mesmo armário, ficava uma bolsa preta, que a vítima poderia ter usado como degrau para alcaçar o topo , e que foi removida do quarto antes da perícia.

Ele relata que deixou a bermuda que vestia na manhã do ocorrido em cima da pia do banheiro, já que estava suja de sangue, e que não teria guardado a peça no armário , onde foi encontrada.
Segundo o réu, o fluxo desordenado de pessoas no apartamento comprometeu a veracidade dos fatos.
Durante o interrogatório , ele foi questionado pela promotora de Justiça sobre as provas do processo, incluindo as mensagens extraídas do celular dele e da vítima.

Em uma das mensagens, Gisele manifestou a vontade de se separar do marido, e Geraldo respondeu que ela jamais seria solteira.
O tenente-coronel, no entanto, afirma que tentava se separar de Gisele há meses devido ao comportamento supostamente agressivo dela, e que as mensagem divulgadas eram “blefes”.
Para sustentar a alegação de agressividade por parte da esposa, ele conta que a soldado teria criado uma conta falsa nas redes sociais , para discutir com mulheres que se interessassem pelo companheiro.

Neto afirmou que não confia na Polícia Civil , duvidando da veracidade das conversas anexadas ao inquérito policial.
O oficial foi preso preventivamente no dia 18 de março, um mês após a morte de Gisele Alves. Ele segue sob custódia no Presídio Militar Romão Gomes, localizado na zona Norte de São Paulo.
Durante o interrogatório, Neto relata sua rotina na prisão e diz que “todo dia parece um pesadelo”. Segundo o oficial, ele está há 202 dias preso injustamente por um crime que não cometeu.

“Eu não matei a minha esposa […] E eu estou aqui, preso, sem ter feito isso”, diz.
Durante o depoimento, o tenente-coronel reforça, diversas vezes, que não matou a esposa e que a soldado tirou a própria vida . No dia dos fatos, ele afirma que havia comunicado a decisão de separação, que, conforme depoimento, Gisele era controversa.
A soldado Gisele foi encontrada morta em seu apartamento no Brás, na região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Inicialmente tratada como suicídio, a ocorrência evoluiu para um inquérito de feminicídio qualificado e fraude processual.

Um laudo recente, obtido pela CNN Brasil , concluiu que a soldado não cometeu suicídio , descrevendo a impossibilidade de Gisele ter atirado contra a própria cabeça.
De acordo com o MP, após o crime o oficial teria tentado simular um suicídio ao posicionar a arma na mão da vítima e alterar a cena para induzir a investigação a erro.
As investigações identificaram vestígios de sangue nas roupas do acusado e indícios de que ele teria tomado banho após o crime para eliminar provas.
Para o Ministério Público, o homicídio foi praticado por motivo torpe , relacionado ao sentimento de posse e à recusa do acusado em aceitar o fim do relacionamento. A denúncia também afirma que Gisele foi surpreendida, sem possibilidade de defesa, circunstância que qualifica o crime.
Caso Gisele: defesa de tenente-coronel pede revogação de prisão preventiva | LIVE CNN
Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/em-depoimento-tenente-coronel-fala-em-armacao-da-pericia-para-incrimina-lo/.

Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto em depoimento à Justiça • Reprodução/CNN Brasil · • Reprodução/CNN Brasil — Foto: CNN Brasil
Compartilhe
Espalhe essa notícia

