Brasil

    Em Aparecida, devotos criticam uso de Nossa Senhora na disputa eleitoral

    Fiéis cobram projetos de governo voltados às necessidades da população

    UOL
    12 de outubro de 2026 às 17:00
    Em Aparecida, devotos criticam uso de Nossa Senhora na disputa eleitoral
    Foto: UOL

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    A inclusão de Nossa Senhora Aparecida na disputa eleitoral provocou críticas entre devotos ouvidos pela Folha no Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo , nesta segunda-feira (12). Na festa da padroeira , fiéis classificaram o uso da religião para conquistar votos como desrespeito e pediram que candidatos apresentem propostas para o país.

    Missa solene em Aparecida nesta segunda-feira (12) - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress
    Missa solene em Aparecida nesta segunda-feira (12) - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A devoção acompanha visitas de muitos ao santuário desde a infância, com viagens em família e promessas cumpridas de joelhos. As críticas foram dirigidas ao uso dessa fé em benefício de candidaturas e à hostilidade entre adversários políticos.

    O segurança José Navais, 55, relata frequentar Aparecida há 35 anos. Nascido na Bahia e morador de São José dos Campos, veio com a família, incluindo os netos. Disse sentir tristeza ao ver a religião envolvida na disputa eleitoral, especialmente quando líderes religiosos manifestam apoio a candidatos.

    "Nós precisamos de representante. Nós não precisamos de padre nem de pastor."

    Fiéis em preces no Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress
    Fiéis em preces no Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Para ele, candidatos devem apresentar projetos de governo e explicar o que pretendem fazer pela população. A visita ao santuário, afirma, tem outro propósito. "Porque é uma coisa sagrada. Nós estamos aqui na casa da mãe por um propósito e agradecimento."

    O segurança defende que a escolha política e a experiência religiosa de cada pessoa sejam respeitadas. "A religião tem que ser neutra", diz. "É a minha fé."

    A secretária Ingra Aparecida, 32, veio de Minas Gerais com os filhos, a mãe e o padrasto. Conta que participa de romarias há 30 anos e que, pelo sexto ano, cumpriu uma promessa atravessando de joelhos a Passarela da Fé.

    Dom Mário, arcebispo de Aparecida, em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (12) - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress
    Dom Mário, arcebispo de Aparecida, em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (12) - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Eu acho desrespeitoso", afirmou sobre a presença de Nossa Senhora no centro da disputa eleitoral. "Tem que respeitar a fé católica, uma fé muito bonita."

    Bruno Ramos, 37, de São José dos Campos, também começou a visitar Aparecida quando era criança, acompanhado dos pais. Continua vindo na vida adulta, embora não tenha conseguido participar no ano passado.

    Ele criticou o uso da religião por políticos em busca de benefício eleitoral. Disse que essa aproximação desvia o foco da fé e pode confundir os devotos.

    Grupo de pessoas acende velas em suporte diante de grandes janelas com padrão geométrico em igreja. Ambiente iluminado por luz natural e chamas das velas.
    Grupo de pessoas acende velas em suporte diante de grandes janelas com padrão geométrico em igreja. Ambiente iluminado por luz natural e chamas das velas. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Ramos preferiu não revelar sua escolha política. Para ele, a crítica independe do candidato apoiado. "Entendo que não era para ter se misturado as coisas."

    A aposentada Valdelice Gracelê Marcheto, 67, que visita o santuário todos os anos, às vezes duas ou três vezes, classificou a disputa como um "joguinho político". "Eles não estão fazendo porque são católicos", afirmou. "Eles querem fazer a política."

    Na avaliação de Marcheto, os candidatos fazem discursos diferentes, mas colocam a religião no meio da disputa. A aposentada também mencionou a presença de políticos na celebração e observou que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) costuma visitar o santuário. O político estava no santuário de Aparecida nesta segunda-feira, onde acompanhou a missa solene.

    Homem vestido com traje clerical preto e faixa rosa segura microfone e gesticula com a mão direita durante fala em ambiente interno.
    Homem vestido com traje clerical preto e faixa rosa segura microfone e gesticula com a mão direita durante fala em ambiente interno. — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Em entrevista à Folha, dom Mário Antônio afirma que foco da celebração deve ser Nossa Senhora

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    Outro devoto, Ailton Edson Lourenço, 55, de Itapecerica da Serra, criticou o ambiente de acusações entre adversários e disse não concordar com o envolvimento de Nossa Senhora nesse contexto.

    As manifestações dos entrevistados ocorreram no dia em que o arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva, condenou o ódio contra quem pensa diferente durante a missa solene.

    "O Evangelho, queridos irmãos e irmãs, não nos autoriza a odiar quem pensa diferente, nem a matar os inimigos."

    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Na coletiva após a celebração, questionado pela Folha sobre o uso da religião para alimentar hostilidades, o arcebispo afirmou que o cenário político brasileiro está carregado de disputas, acusações e indignação que prejudicam o diálogo.

    Pediu aos brasileiros que "furem bolhas" e ouçam opiniões diferentes, sem tratar quem diverge como inimigo ou traidor.

    "Pensamos diferente? Sim. Mas a diferença do nosso pensamento não deve nos distanciar e nem nos fazer inimigos."

    Em outra resposta, dom Mário afirmou que religião e política são necessárias e podem dialogar pelo bem comum. Defendeu respeito, harmonia e entendimento.

    O arcebispo também negou que o santuário tivesse proibido ou restringido a presença de candidatos. Lula ( PT ) e Flávio Bolsonaro ( PL ) não participaram da missa solene, que começou às 9h.

    Entre os presentes além de Alckmin, acompanhado da mulher, Lu Alckmin, estavam o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), a deputada federal Tabata Amaral (PSB), João Campos (PSB) e Gilberto Kassab (PSD).

    Para os devotos entrevistados, o motivo de estar em Aparecida continuava ligado às promessas, aos agradecimentos e à convivência em família. Ramos resumiu sua preocupação com a entrada da religião na disputa por votos: "Acho que perde um pouco da essência."

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/em-aparecida-devotos-criticam-uso-de-nossa-senhora-na-disputa-eleitoral.shtml.

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    Missa solene em Aparecida nesta segunda-feira (12) - Rubens Cavallari/Folhapress · Rubens Cavallari/Folhapress — Foto: UOL

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