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    Elite precisa compreender o real custo da desigualdade no Brasil, defendem autores

    Em "Os Custos das Desigualdades: Uma Carta às Elites Econômicas", os economistas Michael França e Daniel Duque propõem um diálogo com o topo da pirâmide a partir de uma pergunta central: por que sociedades muito desiguais tendem a oferecer menos para todos? Leia mais (08/14/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    15 de agosto de 2026 às 02:00
    Elite precisa compreender o real custo da desigualdade no Brasil, defendem autores
    Vista aérea mostra condomínio de prédios altos com piscina e áreas verdes à esquerda, contrastando com comunidade densa de casas pequenas e ruas estreitas à direita. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Em "Os Custos das Desigualdades: Uma Carta às Elites Econômicas", os economistas Michael França e Daniel Duque propõem um diálogo com o topo da pirâmide a partir de uma pergunta central: por que sociedades muito desiguais tendem a oferecer menos para todos?

    A favela de Paraisópolis e o bairro do Morumbi - Eduardo Anizelli - 20.dez.20/Folhapress · Eduardo Anizelli - 20.dez.20/Folhapress
    A favela de Paraisópolis e o bairro do Morumbi - Eduardo Anizelli - 20.dez.20/Folhapress · Eduardo Anizelli - 20.dez.20/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O argumento é que países profundamente desiguais crescem menos, desperdiçam talentos, convivem com mais instabilidade e pagam, ao longo do tempo, um custo que nem sempre é percebido de imediato .

    Segundo os autores, essa conta aparece de formas concretas no Brasil: um mercado consumidor mais restrito, famílias e empresas obrigadas a gastar cada vez mais com segurança , produtividade estagnada e crises políticas recorrentes, que corroem a previsibilidade necessária para planejamento de longo prazo.

    Para França, que é coordenador no Insper e colunista da Folha , há uma abertura para dialogar com a elite a respeito da desigualdade, ainda que de forma fragmentada.

    Desigualdade sobe em 2025, mas é a 2ª menor da série no Brasil
    Desigualdade sobe em 2025, mas é a 2ª menor da série no Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Há setores da elite econômica brasileira que já perceberam que a desigualdade extrema não afeta apenas quem está na base. Ela reduz produtividade, limita a formação de capital humano, aumenta a violência, enfraquece a confiança entre as pessoas e torna o próprio ambiente de negócios menos favorável".

    "A proposta não é estabelecer uma relação de antagonismo com as elites econômicas, nem culpabilizar individualmente quem ocupa determinada posição social. Queremos provocar a seguinte reflexão: que tipo de país interessa inclusive às pessoas que estão no topo?", questiona França, que é ganhador por duas vezes do Prêmio Jabuti Acadêmico.

    "O privilégio que a elite tem é óbvio, mas ele é um benefício relativo. Ela de fato está melhor do que a maioria da população brasileira, mas será que está melhor do que poderia, se a gente tivesse uma sociedade menos desigual?", disse Duque, doutor em economia pela Norwegian School of Economics, na Noruega.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    O livro questiona também a ideia de mérito quando os pontos de partida são desiguais . Para os autores, comparar trajetórias sem considerar a origem social de cada pessoa acaba funcionando como uma maneira elegante de justificar privilégios herdados.

    Dessa forma, a armadilha da meritocracia não afetaria apenas os indivíduos que começam em desvantagem, mas a sociedade como um todo, que perde talentos ainda no nascedouro.

    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável
    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma sociedade que se pretende meritocrática, argumentam, deveria se concentrar menos em recompensar quem já nasceu em vantagem e mais em nivelar as condições de largada.

    "Eu não diria que o discurso da meritocracia tenha perdido força. Ele continua muito presente porque oferece uma explicação intuitiva para o sucesso: a ideia de que quem se esforça mais chega mais longe", diz França.

    "Esforço é algo muito relevante, só que ele opera sobre pontos de partida profundamente diferentes. Uma criança que nasce em uma família com patrimônio começa a corrida muitos metros à frente de outra que precisa enfrentar uma insegurança econômica".

    Outro eixo da obra é econômico: à medida que a renda se concentra no topo, o consumo se volta a bens de luxo e produtos importados, restringindo o mercado interno .

    Já a distribuição mais ampla da renda fortalece o consumo recorrente, estimula empresas locais e amplia o tamanho efetivo da economia —o que, para os autores, torna a redução das desigualdades também uma estratégia de crescimento, não apenas uma pauta de justiça social.

    França e Duque chamam atenção ainda para o efeito cumulativo entre gerações : vantagens obtidas por uma família se transformam em vantagens de partida para os filhos, que por sua vez ampliam o patrimônio a ser transmitido adiante.

    Esse mecanismo, segundo o livro, faz com que a origem familiar pese cada vez mais sobre o destino individual, transformando um debate normalmente encarado como moral em um problema também econômico —já que talentos desperdiçados significam produtividade perdida.

    Os autores apontam uma contradição para as próprias elites: os mesmos arranjos que as beneficiam também prejudicam o ambiente econômico do qual a riqueza delas depende, já que empresas precisam de mão de obra qualificada e investidores dependem de um tecido produtivo robusto, algo que se enfraquece quando o acesso a boas posições fica restrito a poucos.

    "É relativamente fácil defender educação de qualidade, redução da pobreza ou maior inclusão. A conversa fica mais difícil ao chegar em temas como sistema tributário, qualidade do gasto público, privilégios, mobilidade social e distribuição de oportunidades", diz França, que foi pesquisador visitante nas universidades de Columbia e Stanford (Estados Unidos) e na de Oxford (Inglaterra).

    Os pesquisadores também refletem sobre os limites da educação como solução isolada , citando o descompasso entre o tempo das políticas educacionais, que produzem resultado no longo prazo, e a urgência das famílias em situação de instabilidade financeira, que muitas vezes precisam abandonar os estudos por necessidade imediata.

    "Relativizar o papel da educação não é o mesmo que dizer que ela não é importante, principalmente para questões de desenvolvimento e produtividade. É claro que ter acesso a uma educação de qualidade importa, mas esse é um primeiro passo, insuficiente para acabar com a desigualdade de oportunidades", diz Duque.

    Mas, enquanto a desigualdade se coloca como uma questão tanto formadora quanto incômoda para a sociedade brasileira, o livro propõe cinco frentes de ação voltadas às lideranças econômicas.

    O topo da pirâmide prestaria um serviço ao país ao apoiar sistemas tributários mais equilibrados , investir na expansão de oportunidades educacionais, reduzir barreiras de acesso a posições de influência, sustentar instituições que garantam competição econômica e reconhecer os custos privados gerados pela desigualdade.

    Duque argumenta que o Brasil pode aprender com países menos desiguais, como os do norte da Europa, mesmo que se tratem de sociedades muito distintas.

    Ele reforça como a igualdade se reflete em menores índices de criminalidade, e diz que uma inspiração para a sociedade brasileira poderia vir do maior intercâmbio entre classes no espaço público que ocorre nesses países —compartilhando escolas, espaços de lazer e meios de transporte.

    "A sociedade brasileira pode ter muito a ganhar se ampliar essas conexões que são feitas naturalmente, no cotidiano, em sociedades mais igualitárias, em que mais pessoas de diferentes origens convivem. Seria melhor do que cada um continuar vivendo na sua bolha, como acontece nos países mais desiguais".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/elite-precisa-compreender-o-real-custo-da-desigualdade-no-brasil-defendem-autores.shtml.

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    A favela de Paraisópolis e o bairro do Morumbi - Eduardo Anizelli - 20.dez.20/Folhapress · Eduardo Anizelli - 20.dez.20/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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