Eleitores escolheram o ódio, e a política se torna uma arena de gladiadores
As democracias andaram, rodaram, e parecem caminhar para dar razão ao filósofo antiliberal alemão Carl Schmitt . A polarização é um exemplo muito forte do que ele definiu como o centro da vida política, a saber, a identificação dos amigos e inimigos no espaço social e político. Só quando atingimos o nível de odiar o outro a ponto de considerá-lo uma ameaça existencial é que chegamos ao coração do que significa a política. Leia mais (10/04/2026 - 23h41)

Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP
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As democracias andaram, rodaram, e parecem caminhar para dar razão ao filósofo antiliberal alemão Carl Schmitt . A polarização é um exemplo muito forte do que ele definiu como o centro da vida política, a saber, a identificação dos amigos e inimigos no espaço social e político. Só quando atingimos o nível de odiar o outro a ponto de considerá-lo uma ameaça existencial é que chegamos ao coração do que significa a política.
Um diagnóstico, sem dúvida, terrível. Entretanto, nem por isso descartável como chave analítica do mundo em que vivemos. Essas eleições de 2026 parecem dar, cada vez mais, razão a Schmitt.
A política seria mesmo feita de ódio? E essa hipótese, se comprovada em alguma medida, seria a verdadeira ameaça a democracia liberal tal como conhecemos? Diferente da Europa da primeira metade do século 20, com suas ditaduras à esquerda e à direita , agora esse ódio circularia pela livre escolha dos cidadãos. "Eu escolho odiar " ou "nós contra eles, até a morte, sem negociação com nenhum adversário".

Schmitt é um pensador maldito. Foi do partido nazista e antissemita, apesar de ser acusado por outros nazistas de adesão por oportunismo. A classe acadêmica, jornalística e artística, apesar de respeitosas exceções, costuma ser covarde e oportunista, o que nega o mito de "resistentes". Portanto, Schmitt e Heidegger podem ter sido oportunistas mesmo. De qualquer modo, a maldição, com razão, permanece.
Muita gente já sabe que, talvez, a única forma de escapar da polarização é ampliar o repertório em filosofia, história e ciência política, além, é claro, de abandonar o vocabulário viciado das redes. Toda ideologia é burra. A política é o território da violência, segundo o filósofo Francis Fukuyama . Eleições e redes sociais são irmãs gêmeas, não há mais como negar esse fato. E as redes são a mídia do ódio em política.
Independe de quão longe formos na análise dessas eleições e do processo que vem se acirrando, principalmente desde as eleições de 2018, que sagrou Bolsonaro presidente, o fato é que a política no Brasil —e não só nele— se torna, a cada dia, uma arena de gladiadores. Para eles, a ideia de diálogo, de busca de consenso e constitucionalidade perde força diante do ódio como afeto essencial da política, tal qual pensava Schmitt. Um sintoma claro disso é a politização do Supremo Tribunal Federal que é marcado, também, pelo ódio como afeto essencial nas relações institucionais.

Do ponto de vista da democracia liberal e de seus teóricos, o ódio como afeto essencial da política é o fracasso absoluto da busca por um contrato social que reduza o convívio violento. O ódio na política de hoje é a guerra, por outros meios.
Esse primeiro turno das eleições parece apontar para uma humilhação em larga escala da esquerda . Mesmo que Flávio Bolsonaro e Lula terminem quase empatados, pelo que as pesquisas apontavam, Lula estaria a frente numericamente. O cenário que se delineia é um no qual Lula chega aos números previstos, enquanto Flávio vai além dos números previstos para ele.
Apesar desse quase empate, simbolicamente, Flávio sai "vitorioso" desse primeiro turno, apesar de todo o pacote de bondades do Lula —que destruiu de vez o equilíbrio fiscal e as contas do governo— e dos escândalos do " Dark Horse " ou das fake news de uma ridícula guerra espiritual. Nunca vi petista rezando para santa. A esquerda está em pânico.

Os candidatos nanicos, pelo menos os que passaram de 2% dos votos, são do espectro da direita, mesmo que tenham xingado Flávio na propaganda eleitoral desse primeiro turno. A pergunta é: de onde Lula tirará mais votos? Claro que do primeiro turno para o segundo, muita coisa pode acontecer. Mas a agonia da esquerda não para aí. Lula não tem herdeiros, muito por culpa do seu estilo populista, egocentrado e centralizador. Lula transformou o PT num quintal de irrelevantes.
Quando olhamos para o restante do resultado das eleições, por exemplo, o pleito para governadores e senadores, a direita devastou a esquerda em razoável medida. O crescimento da bancada de direita no Senado poderá tentar emparedar o humilhado STF de fato. Trata-se de um passo importante no projeto da direita para os próximos quatro anos, mesmo que Lula ganhe no segundo turno por uma margem quase nula. A esquerda foi derrotada nesse primeiro turno. Hora de rezar?
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2026/10/eleitores-escolheram-o-odio-e-a-politica-se-torna-uma-arena-de-gladiadores.shtml.

O candidato a presidente Flávio Bolsonaro em coletiva de imprensa após resultado do primeiro turno - Gabriela Bilo/Folhapress · Gabriela Bilo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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