Brasil

    Eleitores escolheram o ódio, e a política se torna uma arena de gladiadores

    As democracias andaram, rodaram, e parecem caminhar para dar razão ao filósofo antiliberal alemão Carl Schmitt . A polarização é um exemplo muito forte do que ele definiu como o centro da vida política, a saber, a identificação dos amigos e inimigos no espaço social e político. Só quando atingimos o nível de odiar o outro a ponto de considerá-lo uma ameaça existencial é que chegamos ao coração do que significa a política. Leia mais (10/04/2026 - 23h41)

    Folha de S.Paulo
    5 de outubro de 2026 às 02:41
    Eleitores escolheram o ódio, e a política se torna uma arena de gladiadores
    Foto: Folha de S.Paulo

    Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP

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    O candidato a presidente Flávio Bolsonaro em coletiva de imprensa após resultado do primeiro turno - Gabriela Bilo/Folhapress · Gabriela Bilo/Folhapress
    O candidato a presidente Flávio Bolsonaro em coletiva de imprensa após resultado do primeiro turno - Gabriela Bilo/Folhapress · Gabriela Bilo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As democracias andaram, rodaram, e parecem caminhar para dar razão ao filósofo antiliberal alemão Carl Schmitt . A polarização é um exemplo muito forte do que ele definiu como o centro da vida política, a saber, a identificação dos amigos e inimigos no espaço social e político. Só quando atingimos o nível de odiar o outro a ponto de considerá-lo uma ameaça existencial é que chegamos ao coração do que significa a política.

    Um diagnóstico, sem dúvida, terrível. Entretanto, nem por isso descartável como chave analítica do mundo em que vivemos. Essas eleições de 2026 parecem dar, cada vez mais, razão a Schmitt.

    A política seria mesmo feita de ódio? E essa hipótese, se comprovada em alguma medida, seria a verdadeira ameaça a democracia liberal tal como conhecemos? Diferente da Europa da primeira metade do século 20, com suas ditaduras à esquerda e à direita , agora esse ódio circularia pela livre escolha dos cidadãos. "Eu escolho odiar " ou "nós contra eles, até a morte, sem negociação com nenhum adversário".

    Ministros do STF votam em diferentes regiões do país com discursos em prol da soberania popular
    Ministros do STF votam em diferentes regiões do país com discursos em prol da soberania popular — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Schmitt é um pensador maldito. Foi do partido nazista e antissemita, apesar de ser acusado por outros nazistas de adesão por oportunismo. A classe acadêmica, jornalística e artística, apesar de respeitosas exceções, costuma ser covarde e oportunista, o que nega o mito de "resistentes". Portanto, Schmitt e Heidegger podem ter sido oportunistas mesmo. De qualquer modo, a maldição, com razão, permanece.

    Muita gente já sabe que, talvez, a única forma de escapar da polarização é ampliar o repertório em filosofia, história e ciência política, além, é claro, de abandonar o vocabulário viciado das redes. Toda ideologia é burra. A política é o território da violência, segundo o filósofo Francis Fukuyama . Eleições e redes sociais são irmãs gêmeas, não há mais como negar esse fato. E as redes são a mídia do ódio em política.

    Independe de quão longe formos na análise dessas eleições e do processo que vem se acirrando, principalmente desde as eleições de 2018, que sagrou Bolsonaro presidente, o fato é que a política no Brasil —e não só nele— se torna, a cada dia, uma arena de gladiadores. Para eles, a ideia de diálogo, de busca de consenso e constitucionalidade perde força diante do ódio como afeto essencial da política, tal qual pensava Schmitt. Um sintoma claro disso é a politização do Supremo Tribunal Federal que é marcado, também, pelo ódio como afeto essencial nas relações institucionais.

    Brasil vai às urnas neste domingo (4)
    Brasil vai às urnas neste domingo (4) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Do ponto de vista da democracia liberal e de seus teóricos, o ódio como afeto essencial da política é o fracasso absoluto da busca por um contrato social que reduza o convívio violento. O ódio na política de hoje é a guerra, por outros meios.

    Esse primeiro turno das eleições parece apontar para uma humilhação em larga escala da esquerda . Mesmo que Flávio Bolsonaro e Lula terminem quase empatados, pelo que as pesquisas apontavam, Lula estaria a frente numericamente. O cenário que se delineia é um no qual Lula chega aos números previstos, enquanto Flávio vai além dos números previstos para ele.

    Apesar desse quase empate, simbolicamente, Flávio sai "vitorioso" desse primeiro turno, apesar de todo o pacote de bondades do Lula —que destruiu de vez o equilíbrio fiscal e as contas do governo— e dos escândalos do " Dark Horse " ou das fake news de uma ridícula guerra espiritual. Nunca vi petista rezando para santa. A esquerda está em pânico.

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    Os candidatos nanicos, pelo menos os que passaram de 2% dos votos, são do espectro da direita, mesmo que tenham xingado Flávio na propaganda eleitoral desse primeiro turno. A pergunta é: de onde Lula tirará mais votos? Claro que do primeiro turno para o segundo, muita coisa pode acontecer. Mas a agonia da esquerda não para aí. Lula não tem herdeiros, muito por culpa do seu estilo populista, egocentrado e centralizador. Lula transformou o PT num quintal de irrelevantes.

    Quando olhamos para o restante do resultado das eleições, por exemplo, o pleito para governadores e senadores, a direita devastou a esquerda em razoável medida. O crescimento da bancada de direita no Senado poderá tentar emparedar o humilhado STF de fato. Trata-se de um passo importante no projeto da direita para os próximos quatro anos, mesmo que Lula ganhe no segundo turno por uma margem quase nula. A esquerda foi derrotada nesse primeiro turno. Hora de rezar?

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2026/10/eleitores-escolheram-o-odio-e-a-politica-se-torna-uma-arena-de-gladiadores.shtml.

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    O candidato a presidente Flávio Bolsonaro em coletiva de imprensa após resultado do primeiro turno - Gabriela Bilo/Folhapress · Gabriela Bilo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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