Brasil

    Eleitor sabota o próprio voto

    A grama do vizinho sempre é mais verde, pensei com meus botões ao ler, meses atrás, um texto do New York Times em que um especialista defendia que os EUA adotassem, para a Câmara, um sistema de votação proporcional , da família do utilizado no Brasil. Leia mais (10/02/2026 - 14h01)

    Folha de S.Paulo
    2 de outubro de 2026 às 17:01
    Eleitor sabota o próprio voto
    Mão de pessoa negra pressionando o botão verde 'CONFIRMA' em urna eletrônica. Teclado numérico com botões pretos numerados de 0 a 9, botão branco 'BRANCO' e botão laranja 'CORRIGE', todos com marcações em braile. — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…"

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    Urna eletrônica é apresentada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro - Fernando Frazão - 28.set.26/Agência Brasil
    Urna eletrônica é apresentada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro - Fernando Frazão - 28.set.26/Agência Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A grama do vizinho sempre é mais verde, pensei com meus botões ao ler, meses atrás, um texto do New York Times em que um especialista defendia que os EUA adotassem, para a Câmara, um sistema de votação proporcional , da família do utilizado no Brasil.

    Os americanos têm motivo para queixas. O sistema distrital que ali vige sub-representa o voto minoritário, estimula a polarização e ainda é vulnerável ao "gerrymandering" , a manipulação dos distritos para favorecer um partido. A ironia é que, se sondarmos as críticas recorrentes ao sistema brasileiro, encontraremos muita gente detonando o proporcional e defendendo o distrital. Efeitos colaterais do proporcional à brasileira incluem a eleição de deputados monotemáticos, o surgimento de lobbies invencíveis, como a bancada BBB (boi, bala e Bíblia) e a fragmentação partidária .

    Não sou o maior fã do proporcional de âmbito estadual e com lista aberta, que é o que usamos, mas me sinto na obrigação de apontar sua virtude. É o sistema que confere maior poder de decisão ao eleitor, que determina não só o número de cadeiras de cada partido mas também a ordem dos postulantes. Ao menos em teoria, mais democrático que isso não fica.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O pulo do gato é que essa arquitetura exige tanto esforço cognitivo do eleitor que ele próprio sabota o modelo. O cidadão paulista, por exemplo, tem de escolher este ano um nome entre 1.131 candidatos a deputado federal e 1.390 a estadual. É verdade que hoje existem ferramentas tecnológicas, como o Match Eleitoral desta Folha , que simplificam a tarefa. Mas ainda é uma missão que, para ser bem executada, cobraria muito trabalho.

    O eleitor resolve isso recorrendo a heurísticas duvidosas. Escolhe o candidato na última hora, muitas vezes apenas por ouvir dizer e sem nem olhar suas posições e currículo. O resultado a gente vê nas câmaras e assembleias. A verdade é que todos os sistemas eleitorais têm problemas, que são matematicamente incontornáveis. Só o que nos é dado fazer é escolher com quais problemas queremos ficar.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2026/10/eleitor-sabota-o-proprio-voto.shtml.

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    Urna eletrônica é apresentada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro - Fernando Frazão - 28.set.26/Agência Brasil — Foto: Folha de S.Paulo

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