Eleitor não é idiota, ainda que o algoritmo diga que sim
O início da campanha eleitoral coloca gostos musicais e coreografias virais à prova nas redes sociais . Já que o algoritmo define vidas, não é raro encontrar a música que embala o candidato de direita também nas páginas de nomes da esquerda. Mesmo sendo políticos "diferentes", por que essa música passa toda hora? Leia mais (08/23/2026 - 22h00)

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Jornalista, apresentadora e analista de política
O início da campanha eleitoral coloca gostos musicais e coreografias virais à prova nas redes sociais . Já que o algoritmo define vidas, não é raro encontrar a música que embala o candidato de direita também nas páginas de nomes da esquerda. Mesmo sendo políticos "diferentes", por que essa música passa toda hora?
Não é por falta de opção, ou fim das divergências entre as visões de mundo deles, mas por escolha mesmo daquilo que tem mais alcance .

Tirando as músicas autorais que contam a vida do candidato, e chegaram agora na disputa pelo engajamento, o que já está no hype das redes faz o eleitor de 2026 achar que vários candidatos são iguais —ou que, no mínimo, gostam das mesmas músicas.
O refrão do "a mulher" ou "o homem disparou", que em outras eleições parecia ser a única música da internet , ganhou um rival à altura que insiste em dizer "acordei, hoje é sexta-feira, assim não tem nada que me pare". Levando em consideração que o primeiro turno é sempre no primeiro domingo de outubro, serão seis sextas-feiras até lá, isso sem contar as que teriam até um eventual segundo turno. Abrir o feed nesses dias será da música que todo mundo sabe qual é.
O eleitor não é idiota. Mas o algoritmo transforma em fenômeno o conteúdo da idiotização. Entre ser didático e falar rebuscado existe um limbo de dancinhas repetidas, frases sem sentido, interações de uma porta, brincadeiras que pouco conversam com governar um país, um estado ou fazer parte do Poder que cria as leis. Executivo e Legislativo podem, plenamente, estar mais perto da sociedade sem cooperar com um conteúdo que não ajuda a pensar.

Alguns políticos flagrados pela operação do Banco Master já perderam a conexão com o mundo dos fatos e têm reforçado postagens em que destacam detalhes de suas rotinas, com músicas e brincadeiras em takes bem iluminados. Eles aproveitaram as investigações para sair de cena mais cedo, ainda no primeiro semestre, e apostar tudo na campanha das redes. Talvez um mundo paralelo com passaporte direto para as eleições, onde decisões do Supremo Tribunal Federal e atuações da Polícia Federal não atrapalhem.
Mais importante virou acordar e ver qual a "trend" do dia, "aquilo" que o eleitor certamente vai ver e rir. Todos da campanha confiam que também ajude a esquecer da denúncia. Mais emoção, menos razão: é o voto que buscam.
Há que se observar o pensamento do eleitor que passará os próximos meses rolando o feed em busca de seu candidato para curtir e/ou do adversário para criticar. É praticamente unânime entre especialistas em redes que a internet premia o que é excessivamente simples, estereotipado e repetitivo.

Um espaço entre a verdade e a mentira, onde as regras de equilíbrio eleitoral hoje postas não chegam, já que não estamos falando exatamente de fake news , no modo clássico. Mas de uma estratégia que distrai o eleitor da realidade e o leva para um baile. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/eleitor-nao-e-idiota-ainda-que-o-algoritmo-diga-que-sim.shtml.

Montagem com os candidatos à Presidência (da esq. p/ dir.): Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

