Eleitor chega dividido, mas apático
O brasileiro vai às urnas neste domingo (4) ao fim da campanha mais apática de que tenho lembrança (acompanho pleitos desde 1982). O interesse pelas eleições costumava crescer depois da Copa do Mundo e ganhar tração a partir de meados de agosto, quando a campanha começa oficialmente. Neste ano, isso não aconteceu. Leia mais (10/03/2026 - 22h00)

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colnome Cientista político, é pesquisador da FGV CPDOC e autor de, entre outros, ‘O País Dividido: Duas Décadas de Eleições Presidenciais no Brasil (2002-2022)” (2026, Zahar) e ‘O Brasil Dobrou à Direita: uma Radiografia da Eleição de Bolsonaro em 20
O brasileiro vai às urnas neste domingo (4) ao fim da campanha mais apática de que tenho lembrança (acompanho pleitos desde 1982). O interesse pelas eleições costumava crescer depois da Copa do Mundo e ganhar tração a partir de meados de agosto, quando a campanha começa oficialmente. Neste ano, isso não aconteceu.
Sempre gostei de acompanhar as campanhas de rua, e logo percebi que havia algo diferente: poucos carros com adesivos, comícios e carreatas muito mais vazios do que em eleições anteriores, menos conversas sobre política. Candidatos me relataram a frieza com que foram recebidos. Pesquisadores que conduzem grupos focais descrevem o enfado das pessoas com a política .

Do colorido de outras campanhas, restaram nas ruas das grandes cidades apenas os agitadores de bandeiras contratados. Os números confirmam a impressão : há duas semanas, segundo a Quaest, 2 em cada 3 eleitores diziam ter pouco ou nenhum interesse na eleição . Dirão que a campanha migrou para as redes. Mas o barulho digital é obra de uma minoria engajada; a maioria está alheia. E o desânimo não se restringe à disputa presidencial: atinge governadores, senadores e, sobretudo, deputados.
Ainda busco boas explicações para o que se passou neste 2026, mas, dada a centralidade da disputa presidencial , é por ela que convém começar. No início do ano, esperava-se que mais partidos lançassem candidatos. Mas, entre as grandes legendas, apenas PT , PL e PSD apresentaram nomes próprios. PSDB, MDB, PSB, PDT e PSOL, que já disputaram a Presidência em outros pleitos, preferiram ficar de fora. O resultado foi a oferta mais pobre de candidatos presidenciais desde a redemocratização.
A ausência não é acaso; é cálculo. O dinheiro e a sobrevivência dos partidos dependem do voto para a Câmara dos Deputados. Neste ano, a cláusula de desempenho exige 2,5% dos votos válidos para deputado federal, ou 13 deputados eleitos em nove estados. Quem não atingir a meta perde o fundo partidário e o tempo de TV até 2030.

Para a maioria das legendas, lançar um presidenciável é gastar com um candidato sem chance, tirando recursos de quem garante o futuro do partido. O dinheiro, quase R$ 5 bilhões de fundo público , vai em larga escala para as candidaturas a deputado, pulverizado em milhares de campanhas.
Desse modo, a disputa presidencial acabou convergindo para mais um confronto entre o petismo e o bolsonarismo . Depois de quatro turnos entre as duas forças, a repetição de propostas e de críticas de lado a lado era inevitável. A disputa também perdeu o elemento de novidade: Lula (PT) é um personagem que o eleitor conhece há mais de quatro décadas, e Flávio Bolsonaro (PL) entrou no embate como substituto do pai, expondo-se o mínimo possível.
Muitos analistas apostaram que escândalos e incidentes de campanha mudariam o rumo da eleição. Nem a crise do STF , que dominou o noticiário por dias, alterou a disputa. Num eleitorado dividido, quem acompanha política filtra as notícias pela lente do seu lado; quem não acompanha sequer as recebe.

Os efeitos desse desânimo serão conhecidos neste domingo (4) à noite. Em 2022, a abstenção no primeiro turno chegou a 20,9%, pouco acima da registrada nas eleições anteriores. Em contraste, a soma de brancos e nulos foi a menor de todas as disputas presidenciais (4,4%). Provavelmente veremos um aumento da abstenção e dos votos brancos e nulos, sem sinal de que isso favoreça algum candidato.
A literatura internacional sobre polarização prevê o oposto do que vimos em 2026. Quando identidades políticas, religiosas e territoriais se alinham, como mostrou a cientista política americana Lilliana Mason , os eleitores ficam mais hostis ao outro lado, mais orgulhosos do seu e mais dispostos a participar politicamente.
O país continua dividido, com os mesmos contornos sociais das duas disputas anteriores. Mas numa temperatura mais baixa —e com muito mais gente em silêncio.

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/eleitor-chega-dividido-mas-apatico.shtml.

Montagem com os candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) - Douglas Magno/AFP e Gledston Tavares/AFP · Douglas Magno/AFP e Gledston Tavares/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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