Eleição pode oficializar o gangsterismo e a impunidade como razão de Estado
Fazia tempo que eu não me refugiava do desespero nas páginas dos ensaios de Montaigne . Busquei o livro depois da implosão pública do STF por seus próprios membros, coroando anos de indiferença a toda sorte de alertas, na famigerada reunião de 15 de setembro , e calhou de o abrir justamente no capítulo sobre o útil e o honesto. Leia mais (10/02/2026 - 10h00)

Romancista, autor de 'Nove Noites' e 'Os Substitutos'
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Fazia tempo que eu não me refugiava do desespero nas páginas dos ensaios de Montaigne . Busquei o livro depois da implosão pública do STF por seus próprios membros, coroando anos de indiferença a toda sorte de alertas, na famigerada reunião de 15 de setembro , e calhou de o abrir justamente no capítulo sobre o útil e o honesto.
Montaigne traça uma linha firme entre o pragmatismo da razão de Estado e a integridade da consciência individual. Na contradição entre o que é útil para o Estado (ou, atualizando, oportuno para si e para os seus, quando a serviço do Estado) e o que é honesto segundo a consciência moral, ele não titubeia. Os fins não justificam os meios. Um tipo como André Mendonça poderia até querer reconhecer aí algum acolhimento, justificativa ou aprovação para a condução de seus atos, mas só se por aí também interrompesse a leitura.
Logo em seguida, Montaigne se pergunta se recorrer a Deus em questões de justiça entre os homens não será vã invocação da bondade divina ou simples confissão da própria iniquidade: "Quando ele [o homem], de braços cruzados, apelar à ajuda de Deus, não deverá esperar também que a bondade divina recuse o favor de sua mão extraordinária a outra que já é pura e justa?".

Montaigne viveu em meio à violência e ao caos das guerras de religião e escreveu seus ensaios com o pé no freio da prudência em relação ao Estado absolutista nascente, num contexto que, embora historicamente diverso, faz pensar na atual investida mafiosa da "pós-verdade" contra as instituições do Estado democrático —em nome de uma cleptocracia, como já ficou claro para quase todo o mundo.
Ele cita o exemplo dos reis do Egito que faziam seus juízes jurar que não se desviariam de sua consciência nem mesmo por ordens que eles próprios pudessem se dar. A graça do paradoxo é a condenação embutida na incumbência: "Quem lhes confia tal tarefa está, na verdade, acusando-os e impondo-lhes um fardo e uma punição —pois na mesma medida que os negócios públicos melhoram com seus serviços, pioram os seus próprios negócios; quanto melhor desempenham a tarefa, pior é a consequência para si mesmos".
O humanismo de Montaigne o leva a acreditar no homem apesar das contradições. Afinal, como temos sido forçados a entender, de nada podem as instituições se o homem não está à sua altura. E como os homens não são iguais, tampouco se podem equiparar opostos, por mais que nenhum seja perfeito. É daí que vem a defesa da honestidade, e o alerta de que a confissão da virtude também cabe na boca daquele que a odeia —e que, se não quer acolhê-la em si, "ao menos dela se reveste como adorno".
É onde estamos, diante de uma eleição que, sob a régua do cinismo mais descarado, pode oficializar o gangsterismo e a impunidade como razão de Estado, com o pior criminoso adornado com a fantasia rasgada do combate à corrupção , que sempre é útil a muita gente.
Assim como há homens, também há crimes e crimes. E no âmbito político do Estado democrático de Direito, nenhum é mais grave do que a tentativa de sua abolição, o que por certo denota utilidades e interesses escusos e privados. Há homens que podem e querem compreender isso, outros não, entre cegos e interessados. É o que faz a diferença entre o voto honesto e o útil.
Pelo menos desde Machado de Assis , sabemos que a civilização no Brasil não passa de um verniz enganoso. Enquanto uma parte desvalida da população vota eventualmente no crime, não propriamente por ignorância mas por não ter nada a perder (nem a ganhar com o verniz), a minoria autodenominada liberal que com ele se adorna faz o mesmo, só que por negócio, para se ver livre dos limites que lhe impõem as leis, a regulação e os impostos, três fundamentos da civilização.
São duas visões ou representações diferentes do crime e do suicídio, mas cuja combinação faz a tempestade perfeita para o começo de uma farsa e o fim de um país.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2026/10/eleicao-pode-oficializar-o-gangsterismo-e-a-impunidade-como-razao-de-estado.shtml.

Ato de Flávio Bolsonaro na avenida Paulista em 7 de setembro — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

