Eleição ainda depende da loteria das facadas, do poder de vazar podres
Luiz Inácio Lula da Silva reajustou o valor do Bolsa Família em 15%. É providência eleitoreira, dirá qualquer pessoa que não esteja em coma ideológico, mesmo que seja a favor da medida, pelo motivo que for. Para quem precisa de auxílio de R$ 600, uns R$ 100 extras importam. Dá para uns dois quilos de carne moída e umas quatro dúzias de ovos nos lugares mais pobrezinhos do Brasil.

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)
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Luiz Inácio Lula da Silva reajustou o valor do Bolsa Família em 15%. É providência eleitoreira , dirá qualquer pessoa que não esteja em coma ideológico, mesmo que seja a favor da medida, pelo motivo que for. Para quem precisa de auxílio de R$ 600, uns R$ 100 extras importam. Dá para uns dois quilos de carne moída e umas quatro dúzias de ovos nos lugares mais pobrezinhos do Brasil.
O resultado eleitoral, porém, é incerto. Vai dar tempo de fazer efeito? Um possível ganho marginal entre os beneficiados , na larga maioria já eleitora de Lula , pode vir a ser descontado por indignações de eleitores "nem-nem" (nem luliano, nem bolsonariano). Quem sabe não comova a pessoa necessitada, que viu a inflação comer seu auxílio durante Lula 3 quase inteiro.
O comentarismo dedicou-se logo a uma querela cômica, vamos chamar assim. Lula foi mais ou menos eleitoreiro do que Jair Bolsonaro, que reajustou o Auxílio Brasil em 50% a três meses e pouco do primeiro turno? Lula o fez a 17 dias, de resto dando apenas a correção tardia pela inflação. Vamos ponderar o tamanho do reajuste pela quantidade de dias para fazer um índice de oportunismo eleitoral?

Sim, minúcias vão importar nesta eleição, mas de outra espécie. A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta (17) mostra situação quase idêntica à do início de setembro . Então, não havia chegado ao grosso do eleitorado a radiação da bomba jurídico-eleitoreira detonada por André Mendonça, do STF (Daniel Vorcaro pedindo a Alexandre de Moraes ajuda para fugir da polícia).
Nas três pesquisas deste setembro, Lula teve 46% no segundo turno; Flávio Bolsonaro , 44%. Em março, a vantagem de Lula era quase a mesma, 46% a 43%, embora Flávio viesse em ascensão. A maior diferença a favor de Lula foi em julho (48% a 43%), aumento mínimo de distância, porém. Ao que parece, a vantagem de Lula se deveu ao conhecimento de que Flávio pedia dinheiro a Vorcaro e ainda mentia. O efeito do escândalo se dissipou rápido. Por quê? Campanha na TV? Medo de Lula?
Em suma, o que se quer dizer é que as vergonheiras que temos visto mexeram pouco nos números de segundo turno. Mas mexeram. A eleição, até onde se pode ver, depende da loteria manipulada da divulgação de sujeira, de facadas figuradas ou golpes que o valham. O que não se pode ver ou o que as campanhas ainda não viram é a questão que importa.
No mais, Flávio continua a se aproximar de Lula no primeiro turno, embora decisão na primeira rodada pareça ainda distante.
A avaliação de Lula despiorou . Saiu dos níveis mais baixos do ano, quando a diferença entre as notas "ótimo/bom" e "ruim/péssimo" chegou a 11 pontos negativos (em abril e na primeira pesquisa de setembro). Está em 8 pontos negativos (continua no vermelho desde dezembro de 2024). Avaliação ruim assim é a peste para candidatos à reeleição. No entanto, a campanha de Lula não sabe o que dizer ao eleitorado, em particular àquela parte mínima indecisa e que se dispõe a ouvir alguma coisa. O lulismo apela por ora a medidas oportunistas desesperadas, como reajustar o Bolsa Família. É derrotado na política digital, não apresentou visão de futuro ou esperança. Por soberba e ignorância achava que estaria com vantagem folgada a esta altura. Em suma, não entendeu nada da última década nem o que se passava durante Lula 3. Continua a insultar até quem o critica de boa-fé. Vai continuar assim?
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2026/09/eleicao-ainda-depende-da-loteria-das-facadas-do-poder-de-vazar-podres.shtml.

Lula e Flávio Bolsonaro, que lideram as pesquisas de intenção de voto para a Presidência - Bruno Santos e Evaristo Sa/AFP e Folhapress · Bruno Santos e Evaristo Sa/AFP e Folhapress — Foto: UOL
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