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    Ele terminou comigo por mensagem de IA. Quais são os erros ao buscar as palavras certas?

    Terminar uma relação por mensagem, ainda que escrita e reescrita com todo o cuidado por quem quer colocar o ponto final, já me parece um grande descuido de nossos tempos. Tempos que se servem de argumentos como "queria deixar tudo claro" ou "escrever me ajuda a organizar os pensamentos" como desculpas para desorganizar as emoções alheias sem ter que lidar com os sentimentos ambíguos e obscuros que aparecem em todo fim. Leia mais (08/12/2026 - 12h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 15:00
    Ele terminou comigo por mensagem de IA. Quais são os erros ao buscar as palavras certas?
    A imagem mostra uma pessoa sentada, cobrindo o rosto com as mãos, expressando tristeza. Ao lado, um robô com um design futurista está estendendo uma mão em direção à pessoa, segurando uma caixa de lenços. O fundo é de uma cor amarela suave, — Foto: Folha de S.Paulo

    Escrita por Carol Tilkian, psicanalista, pesquisadora de relacionamentos e palestrante. Fundadora do podcast e do canal Amores Possíveis e professora da Casa do Saber

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    Catarina Pignato · Catarina Pignato
    Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Terminar uma relação por mensagem, ainda que escrita e reescrita com todo o cuidado por quem quer colocar o ponto final, já me parece um grande descuido de nossos tempos. Tempos que se servem de argumentos como "queria deixar tudo claro" ou "escrever me ajuda a organizar os pensamentos" como desculpas para desorganizar as emoções alheias sem ter que lidar com os sentimentos ambíguos e obscuros que aparecem em todo fim.

    As lágrimas, a decepção, os pedidos de explicação de porquês do que não tem porquês; as acusações que colocam lá embaixo quem termina, intercaladas com súplicas por novas chances que afundam a autoestima de quem quer tentar só mais uma vez… Tudo isso está contido nas histórias de amor. Das mais breves aos casamentos mais longevos. Chama-se ambiguidade. Humanidade.

    Terminar por mensagem é tentar esterilizar um corte que, justamente por ser corte, tem mais chances de cicatrizar se houver espaço para a dor escorrer, para a ferida ficar exposta. Não se poupa o incômodo para preservar o que foi bom: é preciso deixar a sujeira à mostra para que aquilo tudo, enfim, sare.

    Nem todo término de relacionamento amoroso precisa significar o fim do vínculo
    Nem todo término de relacionamento amoroso precisa significar o fim do vínculo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas a evitação pode ganhar contornos ainda mais perversos quando, para driblar qualquer mal-estar e mal-entendido, terceirizamos à inteligência artificial a escolha das palavras mais gentis e bem-acabadas.

    Muita gente já pede à IA ajuda para redigir um e-mail mais claro e assertivo. Há quem jure que foi o "Claudinho" (e a máquina ganhando apelido humano é o próprio sintoma de tempos que humanizam máquinas e desumanizam humanos) o responsável pela promoção e pela construção da persona impecável no LinkedIn .

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas será que entramos numa era de "vale prompt para tudo"? Será que queremos levar a lógica da otimização, da performance e do erro zero, a obsessão por minimizar ruídos, para os assuntos do coração, onde o ruído é justamente o que há de mais vivo?

    Vamos ao "chá revelação" do descuido das mensagens cuidadosas. Ao exposed do grande erro de buscar as palavras certas: "Não é você, sou eu —e a minha IA pode te explicar isso melhor." tem tudo para virar o clichê 2026 de quem quer ser legal no fim.

    Usar uma ferramenta para se explicar melhor só piora as coisas. A mensagem escrita por IA é a assepsia levada ao limite: máquinas que prometem cauterizar tudo depressa para poupar a dor de quem fica quando, na verdade, poupam quem vai embora da responsabilização; alguém que não se dá nem ao trabalho de escrever as próprias palavras erradas.

    Ao pedir que a IA escreva melhor por nós , terceirizamos também o afeto e a autoria da despedida. Esse bom-mocismo cheio de frases de efeito geradas me parece pior que o ghosting: quem faz ghosting ao menos assume a própria covardia, e não se esconde de que lhe faltou cuidado e empatia.

    Por que não, você não quer fazer certo. Quer fazer sem atrito, sem conflito, sem chance de ser o vilão, sem receber perguntas que te deixem sem resposta ou reações que fujam da sua gramática afetiva.

    A mensagem impecável é uma tentativa de poupar o próprio ego: diz menos sobre o cuidado com quem se está terminando do que sobre um lugar narcísico, que não se implica e não arrisca se manchar nem na hora de acabar a relação.

    Eu sei que é incômodo dizer "não sei o que aconteceu", "algo mudou", "fiz mil planos e não quero mais os realizar com você". Ninguém gosta de sentar na frente do outro e dizer que mudou de ideia, de se sentir culpado por projetar uma dolce vita a dois e sentir o gosto amargo do fim no outro.

    Mas se relacionar é incômodo na mesma medida que é delicioso. Isso se tivermos coragem para passar por conflitos e mal-entendidos sem tentar resolvê-los depressa ou eliminá-los como quem elimina um bug do sistema.

    O caos no amor não é um bug no sistema. É o sistema. E fazer as pazes com ele não nos convida apenas a terminar as relações de formas menos covardes que o silêncio do ghosting ou a polidez pretensamente carinhosa da IA. Convida também a viver o durante outro jeito: mais abertos à ambivalência, ao risco, ao sentir tirando o protagonismo do entender, ao encanto dos enquantos.

    Afinal, quem busca na IA a melhor forma de terminar é quem pede a ela as melhores perguntas para o primeiro encontro. Achar que existe uma maneira certa de se vincular ao outro é o que vem nos levando ao erro, à insegurança e à solidão.

    Não existe um lugar melhor, um jeito melhor de falar, uma forma melhor de se apresentar. Não existe sentimento certo ou errado. Existe a forma possível: os erros de comunicação, as contradições, os conflitos que se atravessam com respeito e afeto —e não os que se eliminam com novos sistemas de processamento de dados.

    Deixemos a IA para a otimização do trabalho. E que assim nos sobre tempo, energia e coragem para viver os vínculos em todas as suas imperfeições. Fazer as pazes com as palavras que faltam, com o nó no estômago e com o climão desde o primeiro encontro nos prepara para lidar com eles também nos fins.

    Que tenhamos coragem de ver que todo grand finale é uma grande farsa. Assim como o amor é mais vivo quando é só o possível, o fim é mais bonito quando vem com palavras atrapalhadas, feias, mas do coração.

    E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/amor-cronico/2026/08/ele-terminou-comigo-por-mensagem-de-ia-quais-sao-os-erros-ao-buscar-as-palavras-certas.shtml.

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    Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo

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