Ele terminou comigo por mensagem de IA. Quais são os erros ao buscar as palavras certas?
Terminar uma relação por mensagem, ainda que escrita e reescrita com todo o cuidado por quem quer colocar o ponto final, já me parece um grande descuido de nossos tempos. Tempos que se servem de argumentos como "queria deixar tudo claro" ou "escrever me ajuda a organizar os pensamentos" como desculpas para desorganizar as emoções alheias sem ter que lidar com os sentimentos ambíguos e obscuros que aparecem em todo fim. Leia mais (08/12/2026 - 12h00)

Escrita por Carol Tilkian, psicanalista, pesquisadora de relacionamentos e palestrante. Fundadora do podcast e do canal Amores Possíveis e professora da Casa do Saber
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Terminar uma relação por mensagem, ainda que escrita e reescrita com todo o cuidado por quem quer colocar o ponto final, já me parece um grande descuido de nossos tempos. Tempos que se servem de argumentos como "queria deixar tudo claro" ou "escrever me ajuda a organizar os pensamentos" como desculpas para desorganizar as emoções alheias sem ter que lidar com os sentimentos ambíguos e obscuros que aparecem em todo fim.
As lágrimas, a decepção, os pedidos de explicação de porquês do que não tem porquês; as acusações que colocam lá embaixo quem termina, intercaladas com súplicas por novas chances que afundam a autoestima de quem quer tentar só mais uma vez… Tudo isso está contido nas histórias de amor. Das mais breves aos casamentos mais longevos. Chama-se ambiguidade. Humanidade.
Terminar por mensagem é tentar esterilizar um corte que, justamente por ser corte, tem mais chances de cicatrizar se houver espaço para a dor escorrer, para a ferida ficar exposta. Não se poupa o incômodo para preservar o que foi bom: é preciso deixar a sujeira à mostra para que aquilo tudo, enfim, sare.

Mas a evitação pode ganhar contornos ainda mais perversos quando, para driblar qualquer mal-estar e mal-entendido, terceirizamos à inteligência artificial a escolha das palavras mais gentis e bem-acabadas.
Muita gente já pede à IA ajuda para redigir um e-mail mais claro e assertivo. Há quem jure que foi o "Claudinho" (e a máquina ganhando apelido humano é o próprio sintoma de tempos que humanizam máquinas e desumanizam humanos) o responsável pela promoção e pela construção da persona impecável no LinkedIn .
Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres

Mas será que entramos numa era de "vale prompt para tudo"? Será que queremos levar a lógica da otimização, da performance e do erro zero, a obsessão por minimizar ruídos, para os assuntos do coração, onde o ruído é justamente o que há de mais vivo?
Vamos ao "chá revelação" do descuido das mensagens cuidadosas. Ao exposed do grande erro de buscar as palavras certas: "Não é você, sou eu —e a minha IA pode te explicar isso melhor." tem tudo para virar o clichê 2026 de quem quer ser legal no fim.
Usar uma ferramenta para se explicar melhor só piora as coisas. A mensagem escrita por IA é a assepsia levada ao limite: máquinas que prometem cauterizar tudo depressa para poupar a dor de quem fica quando, na verdade, poupam quem vai embora da responsabilização; alguém que não se dá nem ao trabalho de escrever as próprias palavras erradas.
Ao pedir que a IA escreva melhor por nós , terceirizamos também o afeto e a autoria da despedida. Esse bom-mocismo cheio de frases de efeito geradas me parece pior que o ghosting: quem faz ghosting ao menos assume a própria covardia, e não se esconde de que lhe faltou cuidado e empatia.
Por que não, você não quer fazer certo. Quer fazer sem atrito, sem conflito, sem chance de ser o vilão, sem receber perguntas que te deixem sem resposta ou reações que fujam da sua gramática afetiva.
A mensagem impecável é uma tentativa de poupar o próprio ego: diz menos sobre o cuidado com quem se está terminando do que sobre um lugar narcísico, que não se implica e não arrisca se manchar nem na hora de acabar a relação.
Eu sei que é incômodo dizer "não sei o que aconteceu", "algo mudou", "fiz mil planos e não quero mais os realizar com você". Ninguém gosta de sentar na frente do outro e dizer que mudou de ideia, de se sentir culpado por projetar uma dolce vita a dois e sentir o gosto amargo do fim no outro.
Mas se relacionar é incômodo na mesma medida que é delicioso. Isso se tivermos coragem para passar por conflitos e mal-entendidos sem tentar resolvê-los depressa ou eliminá-los como quem elimina um bug do sistema.
O caos no amor não é um bug no sistema. É o sistema. E fazer as pazes com ele não nos convida apenas a terminar as relações de formas menos covardes que o silêncio do ghosting ou a polidez pretensamente carinhosa da IA. Convida também a viver o durante outro jeito: mais abertos à ambivalência, ao risco, ao sentir tirando o protagonismo do entender, ao encanto dos enquantos.
Afinal, quem busca na IA a melhor forma de terminar é quem pede a ela as melhores perguntas para o primeiro encontro. Achar que existe uma maneira certa de se vincular ao outro é o que vem nos levando ao erro, à insegurança e à solidão.
Não existe um lugar melhor, um jeito melhor de falar, uma forma melhor de se apresentar. Não existe sentimento certo ou errado. Existe a forma possível: os erros de comunicação, as contradições, os conflitos que se atravessam com respeito e afeto —e não os que se eliminam com novos sistemas de processamento de dados.
Deixemos a IA para a otimização do trabalho. E que assim nos sobre tempo, energia e coragem para viver os vínculos em todas as suas imperfeições. Fazer as pazes com as palavras que faltam, com o nó no estômago e com o climão desde o primeiro encontro nos prepara para lidar com eles também nos fins.
Que tenhamos coragem de ver que todo grand finale é uma grande farsa. Assim como o amor é mais vivo quando é só o possível, o fim é mais bonito quando vem com palavras atrapalhadas, feias, mas do coração.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/amor-cronico/2026/08/ele-terminou-comigo-por-mensagem-de-ia-quais-sao-os-erros-ao-buscar-as-palavras-certas.shtml.

Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

