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    El Niño já começou, e a tragédia não é inevitável

    O fenômeno climático El Niño já está em curso no oceano Pacífico. Este ano, porém, pode ser o de uma de suas passagens mais intensas pela América Latina . Leia mais (08/22/2026 - 17h22)

    Folha de S.Paulo
    22 de agosto de 2026 às 20:22
    El Niño já começou, e a tragédia não é inevitável
    Fogo intenso consome vegetação em área de serra durante a noite, com grandes nuvens de fumaça alaranjada e chamas visíveis ao longo do terreno irregular. — Foto: Folha de S.Paulo

    Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires

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    Incêndio em aterro sanitário na Indonésia - DITO - 6.ago.26/AFP · DITO - 6.ago.26/AFP
    Incêndio em aterro sanitário na Indonésia - DITO - 6.ago.26/AFP · DITO - 6.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O fenômeno climático El Niño já está em curso no oceano Pacífico. Este ano, porém, pode ser o de uma de suas passagens mais intensas pela América Latina .

    Não se trata de uma ameaça distante para a qual os governos latino-americanos ainda disponham de meses para se preparar do zero. O relógio já está correndo. Seus efeitos podem atingir muito mais do que lavouras, rios e cidades: chegarão ao preço dos alimentos , ao emprego, ao abastecimento de água e energia e à saúde de milhões de pessoas . O fenômeno é climático, mas a dimensão do desastre será também política.

    O El Niño resulta do aquecimento anormal das águas do Pacífico e altera chuvas e temperaturas de maneiras distintas pelo continente. Desta vez, há mais de 90% de probabilidade de que atinja uma intensidade muito forte, principalmente na primavera e no verão de 2026/27. Isso pode significar seca em partes da América Central, Caribe e norte da América do Sul e excesso de chuva em partes da costa do Pacífico e do Cone Sul.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas são os efeitos menos espetaculares que podem entrar mais profundamente na vida cotidiana. A Organização Pan-Americana da Saúde alerta para aumento dos riscos de doenças transmitidas por mosquitos , pela água e por alimentos, enfermidades provocadas pelo calor, problemas respiratórios associados a incêndios, insegurança alimentar e interrupções dos serviços de saúde. Os mais vulneráveis serão os atingidos pela pobreza e pelo acesso precário aos serviços essenciais.

    Há dois anos, numa reportagem em Buenos Aires , acompanhei uma explosão de dengue numa cidade onde a doença até pouco tempo antes era raríssima. Nos bairros pobres, temperaturas recorde encontravam alta densidade populacional, água acumulada, trabalho informal e hospitais sobrecarregados. O clima atingia a todos; a capacidade de proteção, não.

    O Brasil não estará à margem. No Norte e em boa parte do Nordeste, as previsões apontam menos chuva e mais calor ; no Sul, chuva acima da média. Calor e seca aumentam também o risco de incêndios. E o último El Niño ainda está na memória dos brasileiros por causa das chuvas extremas no Rio Grande do Sul em 2023 e 2024, que ocorreram durante a passagem do fenômeno.

    Alguns governos já entenderam a urgência. "O clima não espera os tempos da burocracia", disse Keiko Fujimori ao assumir a Presidência do Peru . Na Colômbia , onde os cafeicultores já estimam queda de 8% na produção neste ano e veem no El Niño ameaça maior à safra que o recente terremoto, Abelardo de la Espriella colocou o fenômeno entre as preocupações de seu governo.

    Na Venezuela , Delcy Rodríguez já pediu economia de água e eletricidade diante do risco de seca, mas o El Niño encontrará uma infraestrutura elétrica deteriorada por anos de subinvestimento.

    Já não há tempo para corrigir décadas de abandono. Há tempo para reduzir danos. Preparar hospitais, limpar canais, proteger sistemas de água e energia e identificar as populações mais vulneráveis são decisões que podem ser tomadas agora.

    Quando chegarem as enchentes, as secas, os incêndios e os apagões, haverá declarações de emergência e promessas de reconstrução. Desta vez, porém, nenhum presidente latino-americano poderá dizer que não foi avisado.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sylvia-colombo/2026/08/el-nino-ja-comecou-e-a-tragedia-nao-e-inevitavel.shtml.

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    Incêndio em aterro sanitário na Indonésia - DITO - 6.ago.26/AFP · DITO - 6.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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