Brasil

    El Niño aquece o Pacífico e esvazia redes dos pescadores latino-americanos

    Os pescadores do Pacífico oriental estão sofrendo o impacto do aquecimento do oceano pelo El Niño , que provoca a migração de espécies para águas profundas e deixa povoados em crise. Leia mais (10/03/2026 - 05h00)

    Folha de S.Paulo
    3 de outubro de 2026 às 08:00
    El Niño aquece o Pacífico e esvazia redes dos pescadores latino-americanos
    Pessoa de bermuda vermelha está em pé na areia, manuseando uma rede de pesca ao lado de um barco e um balde branco. Peixes estão espalhados na areia próxima à rede. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Os pescadores do Pacífico oriental estão sofrendo o impacto do aquecimento do oceano pelo El Niño , que provoca a migração de espécies para águas profundas e deixa povoados em crise.

    Pescador na comunidade de San Pedro, em Santa Elena, Equador; trabalhadores sofrem com impactos do El Niño sobre a pesca - Gerardo Menoscal - 18.set.26/AFP · Gerardo Menoscal - 18.set.26/AFP
    Pescador na comunidade de San Pedro, em Santa Elena, Equador; trabalhadores sofrem com impactos do El Niño sobre a pesca - Gerardo Menoscal - 18.set.26/AFP · Gerardo Menoscal - 18.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Do litoral do Equador e do Peru ao do Panamá e da Guatemala, os pescadores artesanais veem, impotentes, anchovetas, atuns e pargos se afastarem em busca de águas frias . Nesta região, a temperatura do mar aumentou até 6°C.

    "A água está quente", relata à Juan Ollague, 56, no povoado equatoriano de Santa Rosa, no sudoeste do país. Ali, centenas de barcos se apinham em um porto parcialmente paralisado.

    Após uma noite de trabalho, ele capturou apenas seis bonitos ( Auxis thazard ), um tipo de atum pequeno. "Passamos a noite em claro", lamenta o pescador. Poucas horas depois, sob um sol intenso, Ollague zarpa novamente para tentar garantir seu sustento no mar .

    Pescador descarrega peixes em uma mesa de triagem nas proximidades do Mercado de Frutos do Mar, na Cidade do Panamá - Martin Bernetti - 23.set.26/AFP · Martin Bernetti - 23.set.26/AFP
    Pescador descarrega peixes em uma mesa de triagem nas proximidades do Mercado de Frutos do Mar, na Cidade do Panamá - Martin Bernetti - 23.set.26/AFP · Martin Bernetti - 23.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Antes a pesca era boa, agora está péssima", queixa-se seu colega, Darwin Zambrano, 53. Em seu barco, ele desenrola uma rede onde não voltaram a cair espécimes grandes da família do atum, como albacoras e bonitos.

    O calor no planeta alcançou níveis nunca antes registrados em agosto. A temperatura média dos oceanos, excluídas as regiões polares, chegou a 21,07°C, igualando o recorde de março de 2024 , segundo o observatório europeu Copernicus.

    Por trás das temperaturas elevadas estão as mudanças climáticas e o atual fenômeno El Niño, que amplifica seus efeitos.

    Pesquisadores investigam corais da Flórida em busca de espécies que resistam ao calor
    Pesquisadores investigam corais da Flórida em busca de espécies que resistam ao calor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas

    A temperatura média nas águas do Equador subiu cerca de 3°C na superfície e até 6°C a 40 metros de profundidade. Isso reduziu a "produtividade marinha" e a captura de algumas espécies, explica o oceanógrafo Jonathan Cedeño.

    Em uma praia de Veracruz, perto da Cidade do Panamá, Rigoberto González, 59, conta que a cada vez precisa se afastar mais da costa e estender a jornada de trabalho para encontrar seu sustento. Gasta mais em comida, gelo para conservar o pescado e combustível para o pequeno barco na qual captura pargos, serras e barracudas.

    Dois homens manuseiam peixes em uma mesa verde próxima à água de um porto. Um deles segura uma cesta laranja com peixes, enquanto o outro observa. Ao fundo, barcos ancorados e construções com telhados vermelhos sob céu claro.
    Dois homens manuseiam peixes em uma mesa verde próxima à água de um porto. Um deles segura uma cesta laranja com peixes, enquanto o outro observa. Ao fundo, barcos ancorados e construções com telhados vermelhos sob céu claro. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Saímos com US$ 100 (R$ 522, na cotação atual) de gasolina e conseguimos US$ 150 (R$ 783) pela venda, que dividimos entre quatro trabalhadores", diz González.

    No atracadouro do cais capital panamenha, alguns preferem não sair para o mar.

    "Não podemos continuar perdendo", afirma Jesús Morales, líder do sindicato de pescadores artesanais do país, onde a diminuição das chuvas com o El Niño forçou a redução do tráfego pelo canal interoceânico .

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mais ao norte, em Iztapa, na Guatemala, Eliseo Ovando, 50, conta que agora precisa de três dias para pescar o que antes pegava em apenas um. Reclama, ainda, que só as grandes empresas recebem ajuda estatal. "O peixe grande come o menor", diz.

    No Peru, o afastamento das anchovetas para águas mais frescas obriga os pescadores a migrar para outros ofícios, como a construção civil. O país é o principal produtor deste peixe, matéria-prima para ração para animais de criação e adubo.

    No Panamá, o problema se reflete em um mercado contíguo ao atracadouro que abastece os supermercados da cidade. O vendedor Carlos Nieto, 46, relata que tem havido menos mariscos e, às vezes, os produtos chegam estragados pelo calor .

    Mudanças climáticas poderão levar à predominância de espécies generalistas e não lenhosas nas comunidades de plantas da Caatinga
    Mudanças climáticas poderão levar à predominância de espécies generalistas e não lenhosas nas comunidades de plantas da Caatinga — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ele tem gastado cerca de US$ 600 (R$ 3,1 mil) por mês em gelo, muito mais que o habitual. "Isso é praticamente um salário", diz.

    Por enquanto, não há altas significativas nos preços dos frutos do mar no país. No Equador, porém, o preço do dourado e da bicuda dobrou pela escassez, segundo a indústria.

    Francisco Orlando, 37, que ganha a vida cortando filés de pescado em Santa Rosa, torce para os pescadores voltarem com os barcos cheios. "Se trouxerem a pesca, nós trabalhamos. Se não trouxerem, não trabalhamos", resume, enquanto afia suas facas para separar as espinhas da carne.

    A falta de dinheiro provocou o fechamento temporário de restaurantes em frente ao porto.

    "Todos nós estamos passando por dificuldades porque as pessoas não têm como consumir, não têm renda", diz Janeth Toasa, 54, olhando para as gaivotas que sobrevoam os barcos vazios, em busca de comida.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/10/el-nino-aquece-o-pacifico-e-esvazia-redes-dos-pescadores-latino-americanos.shtml.

    Imagem 1
    1 / 6

    Pescador na comunidade de San Pedro, em Santa Elena, Equador; trabalhadores sofrem com impactos do El Niño sobre a pesca - Gerardo Menoscal - 18.set.26/AFP · Gerardo Menoscal - 18.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)