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    El Niño ameaça produção das commodities mais negociadas

    Um El Niño em ascensão ameaça interromper a produção de algumas das commodities agrícolas mais negociadas do mundo, provocando fortes oscilações nos preços e elevando o risco de escassez de alimentos e de inflação generalizada. Leia mais (08/07/2026 - 18h44)

    Folha de S.Paulo
    7 de agosto de 2026 às 21:44
    El Niño ameaça produção das commodities mais negociadas
    Rachaduras em um campo de arroz em uma área afetada pela seca do El Niño na Indonésia - Willy Kurniawan/Reuters · Willy Kurniawan/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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    Um El Niño em ascensão ameaça interromper a produção de algumas das commodities agrícolas mais negociadas do mundo, provocando fortes oscilações nos preços e elevando o risco de escassez de alimentos e de inflação generalizada.

    Passagem de ciclone-bomba deixa rastro de destruição
    Passagem de ciclone-bomba deixa rastro de destruição — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O fenômeno climático, que provoca chuvas intensas e secas e costuma ocorrer a cada dois a sete anos, já afetou os preços do café e do cacau, à medida que investidores antecipam danos às safras do Brasil à África Ocidental e ao Sudeste Asiático.

    Os preços do café arábica subiram cerca de 30% desde o início de junho, para US$ 3,12 ( R$ 15,91) por libra. A alta incluiu o maior ganho em um único dia em 47 anos.

    O cacau teve uma movimentação igualmente acentuada . Os contratos futuros em Nova York subiram mais de 63%, de cerca de US$ 3.950 (R$ 20.145) por tonelada em meados de junho para uma máxima de oito meses, de US$ 6.455 (R$ 32.920), em 9 de julho, antes de recuarem para US$ 5.600 (R$ 28.560) na quinta-feira, ainda mais de 40% acima da mínima de junho.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Analistas do Rabobank apontaram uma correlação crescente entre os preços do café e do cacau, apesar de seus "fundamentos subjacentes muito diferentes", sugerindo que os investidores estão aplicando um "prêmio de risco do El Niño" às commodities agrícolas.

    O Banco Central Europeu calculou que eventos fortes de El Niño normalmente elevam em 9% os preços globais das commodities alimentares. Economistas do Jefferies alertaram na quinta-feira que "no contexto da pressão já existente sobre os preços das commodities devido à guerra entre EUA e Irã, esse efeito provavelmente será maior".

    A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) informou no mês passado que havia 97% de probabilidade de o El Niño atual persistir até a primavera de 2027 e 81% de chance de o fenômeno se tornar "muito forte" entre out ubro e dezembro deste ano, colocando-o entre os mais intensos registrados desde 1950.

    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável
    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A ameaça climática surge enquanto os agricultores já enfrentam uma crise de fertilizantes provocada pela interrupção dos fluxos de energia e commodities durante a guerra entre Irã e EUA. O El Niño "tem potencial para se espalhar pelo setor mais amplo de alimentos e agricultura e, em última instância, pela economia global", disseram Warren Patterson e Thijs Geijer, analistas do ING.

    A escassez de fertilizantes pode obrigar os agricultores a reduzir sua aplicação justamente quando as lavouras enfrentam secas, calor ou chuvas excessivas, deixando as plantas menos capazes de resistir a condições climáticas adversas.

    "Minha preocupação agora é com o trigo duro e o arroz", disse Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), acrescentando que uma combinação de El Niño e menor uso de fertilizantes na Austrália, importante produtora de trigo, e na Índia, maior produtora de arroz do mundo, ameaça prejudicar as produtividades. "É um efeito combinado que é perigoso."

    O El Niño pode levar pelo menos mais 49 milhões de pessoas à insegurança alimentar aguda até o fim de 2027, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU. "O El Niño é uma ameaça enorme à segurança alimentar de milhões de pessoas que já estão vulneráveis", disse Carl Skau, diretor-executivo interino do PMA.

    O primeiro choque físico de oferta provocado pelo El Niño já é visível no Peru, onde a pesca de anchoveta (peixe natural da costa peruana) foi suspensa em maio devido às águas excepcionalmente quentes no Pacífico —uma característica do El Niño—, o que torna os estoques mais vulneráveis. Os preços da farinha de peixe mais que dobraram em relação ao ano anterior, enquanto os preços do óleo de peixe mais que triplicaram desde julho de 2025.

    O cacau é particularmente vulnerável porque 88% da produção está concentrada na África Ocidental, no Equador e no Sudeste Asiático, regiões geralmente afetadas negativamente pelo El Niño, segundo o Rabobank.

    Episódios fortes anteriores coincidiram com perdas significativas. A produção global de cacau caiu 12% durante o El Niño muito forte de 1982-83, 9% em 1991-92 e 6% em 2015-16. Durante o evento de 2023-24, a produção caiu 13% e o preço médio sazonal do cacau subiu 122%.

    O mercado de cacau ainda não se recuperou totalmente de sucessivas quebras de safra, o que significa que uma redução relativamente pequena na produção poderia provocar uma reação ampliada nos preços. A baixa umidade do solo e o fraco desenvolvimento das vagens já ameaçam a próxima principal safra da Costa do Marfim, enquanto as fortes chuvas aumentaram a disseminação da doença podridão-parda em Gana.

    Os mercados de café também estão precificando a possibilidade de um choque climático prolongado. O Rabobank afirmou que os preços excepcionalmente altos dos contratos futuros de robusta indicam uma preocupação crescente com um evento que se estenda até 2027.

    Vietnã, Indonésia e Índia respondem pela maior parte da produção de café robusta e normalmente registram temperaturas mais altas e clima mais seco durante o El Niño. Um período prolongado de seca poderia esgotar os reservatórios usados para irrigar as plantações de café do Vietnã, prejudicando a floração da safra de 2027-28.

    "O risco é que os reservatórios fiquem completamente vazios durante a estação seca e, então, não haja água para sustentar a safra da próxima temporada", disse Carlos Mera, chefe de mercados de commodities agrícolas do Rabobank.

    Para a safra de café arábica do Brasil, o efeito mais consistente é o aumento das temperaturas. Um inverno mais quente reduz o risco de geadas, mas o calor excessivo acompanhado de chuvas irregulares pode estressar as árvores e reduzir a produtividade. Os operadores estarão atentos ao período de floração entre setembro e novembro, que determinará o potencial da próxima safra.

    A produção de açúcar na região Ásia-Pacífico tem caído de forma consistente durante episódios fortes de El Niño, segundo o ING.

    Nova Déli (Índia) já proibiu as exportações de açúcar até o fim de setembro. O Rabobank afirmou que o risco mais grave seria um choque de produção suficientemente grande para obrigar a Índia a importar açúcar. A Tailândia também deve colher uma área menor depois que a cana-de-açúcar se tornou menos rentável em relação a culturas alternativas.

    O Brasil poderia compensar parcialmente essas perdas com uma grande safra de cana. Mas chuvas excessivas relacionadas ao El Niño poderiam interromper a moagem e atrasar a safra seguinte. O Citi espera que os preços do açúcar bruto subam para 17 centavos de dólar por libra em três meses e 19 centavos em um ano.

    O óleo de palma também está exposto. Indonésia e Malásia produzem mais de 80% da oferta mundial e normalmente registram clima mais seco durante os eventos de El Niño. O Rabobank afirmou que os riscos para a produção podem surgir no fim deste ano e se intensificar no início de 2027, à medida que os efeitos retardados do estresse hídrico reduzirem a produtividade.

    O choque climático emergente é intensificado pelas mudanças climáticas. O El Niño é um fenômeno natural, mas agora ocorre em um cenário global mais quente, que aumenta a evaporação e o estresse térmico. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) concluiu que a variabilidade das chuvas associada ao El Niño e à La Niña provavelmente aumentará muito nas próximas décadas.

    Torero, da FAO, afirmou que as perdas nas safras poderiam levar governos a impor restrições às exportações, transmitindo a escassez regional para os mercados mundiais, como ocorreu na crise dos preços do arroz em 2023. Quando os países enfrentam "menores produtividades e menor produção", disse ele, "normalmente... impõem restrições às exportações, o que pode pressionar os preços".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/el-nino-ameaca-producao-das-commodities-mais-negociadas.shtml.

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