El Niño alimenta raro trio de furacões no Pacífico
Um trio de furacões avança pelo Oceano Pacífico nesta quinta-feira (3), num evento raro atribuído por cientistas às águas aquecidas por um El Niño historicamente forte . Leia mais (09/03/2026 - 15h11)

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Um trio de furacões avança pelo Oceano Pacífico nesta quinta-feira (3), num evento raro atribuído por cientistas às águas aquecidas por um El Niño historicamente forte .

A tempestade tropical Marie ganhou força e se transformou em furacão no fim da quarta-feira, na costa da Baixa Califórnia, no México. Ela alinhou-se atrás dos poderosos furacões Karina e Lowell, que seguiam rumo ao oeste pelo Pacífico, afastando-se do continente americano.
"O aquecimento provocado pelo El Niño cria as condições para essas tempestades, que são alimentadas em grande parte por águas quentes. Quando o Pacífico tropical está mais quente do que o normal, observamos um aumento no número de tempestades intensas ", explicou Julia Cole, cientista do clima da Universidade de Michigan, à agência de notícias AFP.
Águas quentes fornecem energia para tempestades, e os efeitos do El Niño sobre a atmosfera reduzem o cisalhamento vertical dos ventos sobre o Pacífico —quando o vento muda de intensidade ou direção à medida que ganha ou perde altitude. Isso cria condições favoráveis para a intensificação dos furacões.

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"O sistema climático aqueceu significativamente nos últimos 20 anos", disse Benjamin Kirtman, cientista atmosférico da Universidade de Miami, à AFP.
Segundo ele, a temperatura da superfície do mar, que já está mais quente que a média, beira níveis recordes. "Não há outra forma de dizer: as condições [para formação de tempestades] estão extremamente favoráveis neste momento", afirmou.

Uma situação semelhante ocorreu em 2015, outro ano de El Niño intenso, quando os furacões Kilo, Ignacio, Jimena e a depressão tropical 14E —estágio inicial de um ciclone tropical— atravessaram o Pacífico simultaneamente.
O Karina foi classificado na categoria 4 da escala Saffir-Simpson. Já o Lowell evoluiu na quarta-feira para a categoria 5, a mais forte e destrutiva, quando estava a centenas de quilômetros ao sul do Havaí.
Enquanto o Karina deve enfraquecer nos próximos dias, o Lowell "deve permanecer um grande furacão" enquanto avança para oeste, segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC, na sigla em inglês).
"As ondulações provocadas por Lowell provavelmente causarão condições de maré e correntes de retorno com risco de morte em partes das ilhas do Havaí nos próximos dias", afirmou o NHC, acrescentando que suas previsões de trajetória e intensidade de longo prazo eram "mais incertas do que o habitual".
O Havaí ainda se recupera dos impactos do furacão Lala, que passou próximo à parte sul da Ilha Grande no mês passado, trazendo ventos destrutivos e graves enchentes repentinas.
A leste de Lowell e Karina estava Marie, que se encontrava a cerca de 600 quilômetros a sudoeste da ponta sul da Baixa Califórnia e deveria ganhar mais força até sexta (4), segundo a agência americana.
O El Niño deste ano tem 69% de chance de se tornar o mais forte já registrado, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) , e já provoca eventos climáticos extremos em várias partes do mundo, embora o pico não seja esperado antes do período entre outubro e dezembro.
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A previsão de um El Niño "muito forte" também foi confirmada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) nesta quinta-feira . Segundo a agência climática das Nações Unidas, é praticamente certo que o fenômeno persistirá até fevereiro. Isso porque o calor acumulado nos oceanos é liberado mais lentamente para a atmosfera, elevando as temperaturas globais no ano seguinte.
O ano mais quente já registrado foi 2024, após o último El Niño.
"Esse El Niño excepcional tem potencial para causar um golpe severo em comunidades e economias de todo o mundo", disse a chefe da OMM, Celeste Saulo. "Já estamos observando interrupções e devastação causadas por secas e enchentes, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifique."
O El Niño é a fase de aquecimento de um ciclo natural no Pacífico tropical que ocorre entre a cada dois a sete anos. O fenômeno geralmente dura entre nove e 12 meses. Ele se instala quando os ventos alísios, que sopram de leste para oeste, enfraquecem, permitindo que a água quente que normalmente se acumula na porção oeste do Pacífico retorne para leste e suba à superfície.
Isso provoca mudanças globais nos padrões de vento, pressão atmosférica e precipitação, gerando condições mais quentes e secas em algumas áreas e mais frias e úmidas em outras. Esses efeitos são potencializados pelas mudanças climáticas, e incluem secas em partes da Amazônia, da Indonésia e da Austrália, interrupções nas monções da Índia e alterações nos regimes de chuva em toda a faixa tropical.
As condições climáticas alternam entre El Niño e seu oposto, La Niña, com períodos neutros entre ambos.
Embora o El Niño não seja causado pelas mudanças climáticas , cientistas esperam que ele intensifique ainda mais o aquecimento de um planeta já afetado pela queima de combustíveis fósseis, além de aumentar a frequência de eventos climáticos extremos.
"A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta está navegando em águas desconhecidas, e essas águas estão esquentando. As temperaturas da superfície do mar estão aumentando, as temperaturas continuam subindo e o mundo está entrando na zona de perigo dos eventos climáticos extremos", alertou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. "A corrida agora é entre o aumento dos riscos e nosso compromisso de agir pelo clima e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida."
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/09/el-nino-alimenta-raro-trio-de-furacoes-no-pacifico.shtml.

Imagem de satélite mostra três furacões no Pacífico: Lowell (esq.), Karina e Marie (dir.), este último em frente à costa do México - NESDIS/NOAA · NESDIS/NOAA — Foto: Folha de S.Paulo
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