Ed Sheeran obedece prosaicamente às ordens do dono de um imóvel
Eu pensei que a parte boa de ser cantor, um desses cantores que enchem estádios, era não responder perante ninguém. Ser uma diva idiota, esmurrar fotógrafos, vandalizar quartos de hotel e entregar-se a pequenos caprichos, como requisitar uma taça cheia de M&M's verdes para o camarim . São ricos, têm a adulação do público -logo, fazem o que querem. Leia mais (09/19/2026 - 13h00)

Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É autor de “Boca do Inferno”
Texto cômico, geralmente sobre um tema atual
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Eu pensei que a parte boa de ser cantor, um desses cantores que enchem estádios, era não responder perante ninguém. Ser uma diva idiota, esmurrar fotógrafos, vandalizar quartos de hotel e entregar-se a pequenos caprichos, como requisitar uma taça cheia de M&M’s verdes para o camarim . São ricos, têm a adulação do público —logo, fazem o que querem.
Por um lado, é estúpido; por outro, é ótimo. Sobretudo, entretém. Por isso, quando os donos dos estádios em que Ed Sheeran ia tocar disseram que não iam permitir um concerto com o rapper Macklemore no lineup , pensei que Sheeran iria dizer: "Então até a próxima. Se o meu amigo não canta, ninguém canta. Vamos procurar outros recintos."

Mas não. O artista milionário que arrasta multidões, afinal, obedece muito prosaicamente às ordens do dono de um imóvel . Aceitou os ditames do locador, como qualquer triste locatário.
Curiosamente, Macklemore foi proibido de se apresentar por ter pedido, e cito, "liberdade para a Palestina". Eu não dou demasiado valor às opiniões políticas de cantores —assim como não faço questão de ouvir Montesquieu cantando—, mas já tinha percebido que a palavra liberdade estava ficando obscena.
Sempre que alguém defendia a liberdade de outros dizerem uma coisa desagradável, ou até errada, era acusado de concordar com eles. Quem avisava que a liberdade de dizer uma coisa que toda a gente gosta de ouvir não era liberdade, era malvisto.

Mas agora, finalmente, creio que estamos todos de acordo: afinal, para haver cancelamento, não é preciso ser preso ou decapitado. Basta, como fizeram a Macklemore, ser proibido de tocar. E estamos de acordo que não são válidos os argumentos cínicos que vigoravam até aqui.
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"Como assim, a liberdade de expressão dele ficou posta em causa? Ele pode dar hoje mesmo um concerto em outro lugar… Como assim, cancelamento? Quando a pessoa é cancelada, deixa de poder falar, e eu ouvi da boca dele que tinha sido cancelado… Como assim, censura? Só o Estado pode censurar."
É dia de festa. Finalmente, percebemos todos o que é cancelamento e censura. Macklemore foi alvo de um ato de censura, sim. E quem tenta proibir o discurso que não lhe agrada fica definido. Democrata não é.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ricardo-araujo-pereira/2026/09/ed-sheeran-obedece-prosaicamente-as-ordens-do-dono-de-um-imovel.shtml.

Ilustração de Luiza Pannunzio para coluna de Ricardo Araújo Pereira de 20 de setembro de 2026 - Luiza Pannunzio/Folhapress · Luiza Pannunzio/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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