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    É para roubar para o nosso time?

    O simpático monitor que vai apitar o jogo de futebol das crianças na festa de aniversário pergunta ao pai do aniversariante se é para roubar para o time do filho dele. "Não, de modo algum", responde o pai com comovente perplexidade. Leia mais (09/08/2026 - 18h07)

    Folha de S.Paulo
    8 de setembro de 2026 às 21:07
    É para roubar para o nosso time?
    Foto: Folha de S.Paulo

    Doutor em economia por Yale, foi professor da London School of Economics (2004-2010) e é professor titular da FGV EESP

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    Manifestantes vão às ruas pelo Brasil contra Congresso e PL da Dosimetria
    Manifestantes vão às ruas pelo Brasil contra Congresso e PL da Dosimetria — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O simpático monitor que vai apitar o jogo de futebol das crianças na festa de aniversário pergunta ao pai do aniversariante se é para roubar para o time do filho dele. "Não, de modo algum", responde o pai com comovente perplexidade.

    Os pais dos amigos do aniversariante riem e explicam ao atônito pai que o mundo é assim, a desonestidade é a regra.

    A ocasião não é propícia para perguntar se é assim no hospital em que um trabalha ou na igreja que o outro frequenta, então o assunto morre. Mas não, o mundo não é assim.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A evidência científica corrobora o que a maior parte de nós tem a sorte de presenciar no dia a dia. Carteiras com dinheiro jogadas nas ruas são, na maioria das vezes, devolvidas ao dono, e a taxa de retorno aumenta quando há mais dinheiro na carteira (*). De fato, uma análise sistemática de 90 estudos experimentais concluiu que as pessoas mentem menos do que os pesquisadores suporiam (**).

    Há, porém, diversas qualificações a esse ponto. A primeira, mais óbvia, é que, ainda assim, há bastante mentira e desonestidade no mundo.

    Pessoas com mais propensão a mentir e roubar vão tentar escolher profissões e caminhos onde isso é mais rentável. Assim, a política vai atrair esses tipos —assim como vai atrair os idealistas que querem melhorar o mundo. A alta concentração de pessoas com propensão a desonestidade na política nos ajuda a entender como pode um mundo com muita gente honesta ter tanta desonestidade estampada nos jornais.

    Além disso, nosso comportamento é moldado pelos exemplos que recebemos e experiências que vivemos. Em geral, queremos ser pessoas honestas, decentes, mas o que isso significa exatamente varia de acordo com o ambiente em que vivemos.

    Se um ministro do STF recebe milhões de um bandido e o avisa sobre o momento de fugir do país, soa ridículo incomodar-se com o Waze informando sobre uma patrulha rodoviária a 500 metros. Assim, o incômodo dá lugar a uma voz resignada que pede à criança no banco de trás para colocar o cinto de segurança.

    A literatura acadêmica corrobora a importância dos exemplos. Diversos estudos mostram que saber que outras pessoas se comportam bem estimula bom comportamento. Infelizmente, exemplos de desonestidade também tendem a ser contagiosos.

    Um estudo feito no México mostra que, quando o prefeito é publicamente declarado culpado em casos de corrupção , estudantes do ensino médio colam mais nas provas. Exemplos de políticos desonestos parecem estimular desonestidade na escola (***).

    É razoável, porém, esperar que punição a atos ilícitos nos transmita a mensagem de que o crime não compensa e, assim, estimule comportamentos honestos. Isso torna ainda mais importante que os envolvidos com a corrupção de Vorcaro —juízes, congressistas ou presidenciáveis— sejam exemplarmente punidos.

    E é importante a gente se lembrar de que, de maneira geral, o mundo não é assim, a desonestidade não é a regra.

    *Trabalho de Cohn, Marechal, Tannenbaum e Zund, publicado na Science em 2009.

    **Trabalho de Abeler, Nosenzo e Raymond, publicado na Econometrica em 2019.

    ***Trabalho de Nicolás Ajzenman, publicado no American Economic Journal: Applied Economics em 2021.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-guimaraes/2026/09/e-para-roubar-para-o-nosso-time.shtml.

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