É hora de proibir propaganda de bets, essa praga bilionária
Em encontro de personalidades, entidades e artistas com o presidente Lula nesta semana, a empresária Paula Lavigne foi uma das porta-vozes da reação às bets. Como se sabe, ela lidera a campanha Block no Tigrinho, contrária à proliferação dos jogos online, que assola o país de maneira nefasta. Leia mais (09/03/2026 - 10h30)

Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha
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Em encontro de personalidades, entidades e artistas com o presidente Lula nesta semana, a empresária Paula Lavigne foi uma das porta-vozes da reação às bets. Como se sabe, ela lidera a campanha Block no Tigrinho, contrária à proliferação dos jogos online, que assola o país de maneira nefasta.
Tigrinho é o apelido de um tipo de caça-níquel digital que se tornou popular, funciona no celular, está disponível 24 horas por dia e é uma das faces mais agressivas da transformação do jogo em passatempo cotidiano.
Lula disse que, se dependesse apenas dele, acabaria com as bets , "um mal da sociedade". Não seria ruim se isso acontecesse, mas parece mais equilibrado e realista tentar, num primeiro passo, proibir a propaganda das apostas, como já foi feito com o cigarro.

A ideia, enfim, começou a andar no Congresso . Na quarta (2), a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou projeto que proíbe anúncios de bets em televisão, rádio, jornais, revistas, streaming, redes sociais e outros meios. Veda também patrocínios a clubes, competições, transmissões esportivas, shows, artistas e influenciadores. O texto segue agora para o plenário.
Resta saber se irá, mesmo com as previsíveis alterações, prosperar. Não será fácil.
O fato é que, infelizmente, as bets movimentam muito dinheiro em muitas áreas para que se possa avaliar a iniciativa sem uma dose de ceticismo. Clubes esportivos dependem de patrocínios. Emissoras, plataformas e outros veículos recebem publicidade. Influenciadores são remunerados para promovê-las.

O estrago, enquanto isso, vai transparecendo em estudos e números. Uma enquete do Procon-SP mostrou que 39,7% dos apostadores ouvidos se endividaram depois que começaram a jogar. Mais da metade disse ter comprometido parcela significativa da renda, recorrendo a dinheiro aplicado ou empréstimos para continuar apostando.
O Banco Central já havia disparado o alarme em 2024: cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às casas de apostas via Pix em apenas um mês. No primeiro trimestre, ainda segundo o BC, brasileiros apostaram R$ 30 bi por mês .
Não falemos nos problemas de saúde. O transtorno do jogo é reconhecido como uma forma de dependência associada a ansiedade, depressão, isolamento, dificuldades familiares e profissionais. O Ministério da Saúde já lançou uma campanha de prevenção aos danos das apostas online. Não basta.
É de se perguntar, diante dos fatos, por que empresas cujo negócio cria problemas sociais relevantes podem continuar anunciando seus produtos com tanta liberdade e cinismo.
O Brasil não proibiu o cigarro, mas vetou a propaganda. Retirou o glamour e acabou com sua associação publicitária ao esporte, à juventude, ao sucesso.
Não se trata de decidir como pessoas adultas devem gastar seu dinheiro. Trata-se de impedir que uma atividade capaz de produzir dependência e danos seja promovida incessantemente como diversão inofensiva e possibilidade de ganho.
Durante décadas achamos normal um piloto de Fórmula 1 cruzar a linha de chegada num carro transformado em maço de cigarro. Talvez daqui a alguns anos nos espante lembrar que jogadores de futebol entravam em campo carregando no peito a propaganda de cassinos online.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcosaugustogoncalves/2026/09/e-hora-de-proibir-propaganda-de-bets-essa-praga-bilionaria.shtml.

Fiscais da Prefeitura do Rio de Janeiro agem contra publicidade de site de apostas em julho - Divulgação/Prefeitura do Rio · Divulgação/Prefeitura do Rio — Foto: Folha de S.Paulo
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