É hora de proibir propaganda de bets, essa praga bilionária
Texto para impedir publicidade de sites de apostas passa por comissão do Senado

Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha
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Em encontro de personalidades, entidades e artistas com o presidente Lula nesta semana, a empresária Paula Lavigne foi uma das porta-vozes da reação às bets. Como se sabe, ela lidera a campanha Block no Tigrinho, contrária à proliferação dos jogos online, que assola o país de maneira nefasta.
Tigrinho é o apelido de um tipo de caça-níquel digital que se tornou popular, funciona no celular, está disponível 24 horas por dia e é uma das faces mais agressivas da transformação do jogo em passatempo cotidiano.
Lula disse que, se dependesse apenas dele, acabaria com as bets , "um mal da sociedade". Não seria ruim se isso acontecesse, mas parece mais equilibrado e realista tentar, num primeiro passo, proibir a propaganda das apostas, como já foi feito com o cigarro.

A ideia, enfim, começou a andar no Congresso . Na quarta (2), a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou projeto que proíbe anúncios de bets em televisão, rádio, jornais, revistas, streaming, redes sociais e outros meios. Veda também patrocínios a clubes, competições, transmissões esportivas, shows, artistas e influenciadores. O texto segue agora para o plenário.
Resta saber se irá, mesmo com as previsíveis alterações, prosperar. Não será fácil.
O fato é que, infelizmente, as bets movimentam muito dinheiro em muitas áreas para que se possa avaliar a iniciativa sem uma dose de ceticismo. Clubes esportivos dependem de patrocínios. Emissoras, plataformas e outros veículos recebem publicidade. Influenciadores são remunerados para promovê-las.

O estrago, enquanto isso, vai transparecendo em estudos e números. Uma enquete do Procon-SP mostrou que 39,7% dos apostadores ouvidos se endividaram depois que começaram a jogar. Mais da metade disse ter comprometido parcela significativa da renda, recorrendo a dinheiro aplicado ou empréstimos para continuar apostando.
O Banco Central já havia disparado o alarme em 2024: cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às casas de apostas via Pix em apenas um mês. No primeiro trimestre, ainda segundo o BC, brasileiros apostaram R$ 30 bi por mês .
Não falemos nos problemas de saúde. O transtorno do jogo é reconhecido como uma forma de dependência associada a ansiedade, depressão, isolamento, dificuldades familiares e profissionais. O Ministério da Saúde já lançou uma campanha de prevenção aos danos das apostas online. Não basta.
É de se perguntar, diante dos fatos, por que empresas cujo negócio cria problemas sociais relevantes podem continuar anunciando seus produtos com tanta liberdade e cinismo.
O Brasil não proibiu o cigarro, mas vetou a propaganda. Retirou o glamour e acabou com sua associação publicitária ao esporte, à juventude, ao sucesso.
Não se trata de decidir como pessoas adultas devem gastar seu dinheiro. Trata-se de impedir que uma atividade capaz de produzir dependência e danos seja promovida incessantemente como diversão inofensiva e possibilidade de ganho.
Durante décadas achamos normal um piloto de Fórmula 1 cruzar a linha de chegada num carro transformado em maço de cigarro. Talvez daqui a alguns anos nos espante lembrar que jogadores de futebol entravam em campo carregando no peito a propaganda de cassinos online.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcosaugustogoncalves/2026/09/e-hora-de-proibir-propaganda-de-bets-essa-praga-bilionaria.shtml.

Fiscais da Prefeitura do Rio de Janeiro agem contra publicidade de site de apostas em julho - Divulgação/Prefeitura do Rio · Divulgação/Prefeitura do Rio — Foto: UOL
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