Brasil

    E é assim que o mundo acaba

    Uma pergunta à inteligência artificial leva a um furdunço apocalíptico

    UOL
    8 de agosto de 2026 às 16:00
    E é assim que o mundo acaba
    A ilustração de Adams Carvalho, publicada na Folha de São Paulo no dia 09 de agosto de 2026, mostra o desenho de três crianças sentadas lado a lado olhando para um canudinho que uma delas está segurando. Ao fundo há uma enorme nuvem de expl — Foto: UOL

    Escritor e roteirista, autor de "Por quem as panelas batem"

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Adams Carvalho/Folhapress · Adams Carvalho/Folhapress
    Adams Carvalho/Folhapress · Adams Carvalho/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Segunda-feira, 2 de abril de 2029, 15h37. Durante o recreio, na Escola Municipal Epaminondas D’Alembert, em Piracambaia do Oeste, o aluno Bruno Augusto, do 4º B (tarde), diz pro colega William Boucinhas, do 3º A (tarde), que seu primo Baiacu (9º D, manhã) consegue assoprar um feijão a 70 metros usando como zarabatana um canudinho de plástico. William Boucinhas duvida. Bruno Augusto insiste.

    Depois da aula, no ponto de ônibus, William Boucinhas pega o celular e pergunta à IA se é possível atirar um feijão a 70 metros assoprando-o através de um canudinho. Em poucos segundos, a IA passa um pente-fino em todo o conhecimento acumulado ao longo dos últimos 6.000 anos.

    Procura menções a feijões projetados por canudinhos na " Odisseia" de Homero e nas falas do Homer Simpson, na epopeia de Gilgamesh e na bula do Epocler, nos Pergaminhos do Mar Morto e no "Bamboleo" do Gipsy Kings, nos arquivos do Congresso americano e nas estatísticas sobre a pesca do côngrio chileno –só pra mencionar uma ínfima parte dos dados armazenados em 60 séculos. Não encontra patavinas.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    A IA, sabe-se, é como o capitão Nascimento: "missão dada é missão cumprida", nem que tenha que meter saco plástico na cabeça da humanidade e ameaçá-la com cabo de vassoura. Na ausência de dados armazenados na rede mundial de computadores, resolve promover um experimento. Faz uma varredura em todos os objetos ou construções tubulares, em diferentes escalas, com as mesmas proporções de um canudinho.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    Localiza, numa estrada vicinal próxima ao vilarejo de Buszkowiczki, fronteira da Polônia com a Ucrânia , um túnel com exatamente a mesma relação entre comprimento e diâmetro. Descobre, então, um caminhão-pipa autônomo na Cracóvia, cuja carroceria, cheia de gasolina, tem a mesma circunferência do túnel. A IA hackeia os comandos do caminhão, encaminha-o até a boca do túnel em Buszkowiczki e, de marcha a ré, o entala numa ponta, feito rolha em espingardinha de parque de diversões.

    O túnel em Buszkowiczki é o canudo. O caminhão-pipa cheio de gasolina é o feijão. Falta o sopro. A IA constata que o A320 da Airbus tem também o mesmo diâmetro do túnel e da carroceria do caminhão. Hackeia os comandos do voo AA 9786, que ia de Berlim para Minsk, desvia-o em direção a Buszkowiczki, define a velocidade exata com a qual ele deve chocar-se na boca do túnel para produzir uma pressão sobre o caminhão equivalente ao sopro de um ser humano (jovem e saudável) num canudinho, sobre um feijão.

    O avião se espatifa na boca do túnel, provocando um deslocamento de ar forte o suficiente para lançar o caminhão por cima da fronteira com a Ucrânia, aterrissando na cidade de Lviv , bem onde tropas russas estão acampadas, durante um cessar-fogo.

    Enquanto a IA faz suas regras de três, transformando caminhão-pipa em feijão, quilômetros em metros etc., Putin acredita ter sofrido um ataque da Polônia e retalia bombardeando Varsóvia. A Otan contra-ataca, bombardeando Moscou . A partir daí é um furdunço apocalíptico, mísseis com ogivas nucleares rabiscam o céu como uma chuva de meteoros numa noite de Lua nova.

    Nesta terceira guerra mundial, detonamos gigatons suficientes para cancelar a existência da humanidade e de boa parte da vida na superfície do planeta. Nem William Boucinhas estará a salvo em Piracambaia do Oeste: retorna ao pó segundos antes de ler a resposta em seu celular: "Sim, é possível um ser humano assoprar um feijão a 70 metros através de um canudinho. De acordo com nossas estimativas, a distância máxima seria de 71 metros e 18 centímetros. Posso ajudar em mais alguma coisa?".

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2026/08/e-e-assim-que-o-mundo-acaba.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Adams Carvalho/Folhapress · Adams Carvalho/Folhapress — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)