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    'É, dormir'

    Apareceu no meu feed: "Ô Gil, que que cê mais gosta de fazer na vida?" " Dormir ." O entrevistador toma um susto. "Dormir?! É mesmo?! Mais do que cantar?!". Agora é o Gil que parece assustado com o entrevistador e responde, enfático: "É, dormir. A primeira coisa, a que eu mais gosto." "Por quê?" "Porque é bom, é uma sensação de entrega total à existência. É a existência sem a mediação excessiva do eu. Sem a exigência excessiva do ego. É a entrega, é o momento em que você tá na natureza sem precisar de você mesmo". Leia mais (08/15/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    15 de agosto de 2026 às 18:00
    'É, dormir'
    Relógio analógico vermelho com chamas amarelas e azuis saindo da parte superior, sobre superfície clara. Fundo escuro com várias silhuetas vermelhas de animais, incluindo cães e outros quadrúpedes. — Foto: Folha de S.Paulo

    Escritor e roteirista, autor de "Por quem as panelas batem"

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    Adams Carvalho/Folhapress · Adams Carvalho/Folhapress
    Adams Carvalho/Folhapress · Adams Carvalho/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Apareceu no meu feed: "Ô Gil, que que cê mais gosta de fazer na vida?" " Dormir ." O entrevistador toma um susto. "Dormir?! É mesmo?! Mais do que cantar?!". Agora é o Gil que parece assustado com o entrevistador e responde, enfático: "É, dormir. A primeira coisa, a que eu mais gosto." "Por quê?" "Porque é bom, é uma sensação de entrega total à existência. É a existência sem a mediação excessiva do eu. Sem a exigência excessiva do ego. É a entrega, é o momento em que você tá na natureza sem precisar de você mesmo".

    Brilhante. Sou do time do Gilberto Gil —senão na qualidade do que produzo acordado, ao menos no prazer que sinto dormindo. Algumas vezes me perguntaram qual era a melhor coisa de ser escritor. Imagino que esperassem uma resposta grandiloquente, tipo "a possibilidade de transformar minhas entranhas em palavras". Prefiro, no entanto, a possibilidade de deixar minhas entranhas descansarem. A resposta, pouco poética, é que a melhor coisa de ser escritor é ir pra cama a hora que eu quiser, acordar só quando passar o sono .

    Tenho o privilégio de vir ao mundo a maior parte dos dias sem despertador. Aí confiro o horário no celular e, num pequeno ato de desobediência civil, durmo de novo. Faço, aliás, esse complemento à frase do Gil: a melhor coisa do mundo não é dormir, é dormir de novo. Na adolescência , quando era submetido, como boa parte de nossa sofrida humanidade, à tortura de acordar de madrugada, deixava o despertador ligado nos fins de semana só pra acordar, lembrar que era sábado, domingo, virar pro lado e retornar aos braços generosos de Morfeu.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Durante anos, sofri com o preconceito da famigerada sociedade judaico-cristã, para quem "Deus ajuda quem cedo madruga", mas eis que os ventos mudaram. Dormir está na moda. Não pelas razões certas, "o momento em que você tá na natureza sem precisar de você mesmo", mas pela obsessão com a longevidade. Está provado que dormir menos horas do que o necessário é a causa de várias doenças, tendo inclusive uma possível relação com casos de demência, Alzheimer e Parkinson .

    Até uns anos atrás, focamos na dieta . A frase "você é o que você come" foi repetida à exaustão. Vitaminas, flavonoides, proteínas, suco de berinjela, maca peruana. Agora, aparentemente, você é o que você dorme — ou o que você não dorme. Tem até livros, podcasts e coaches ensinando a "otimizar" seu sono. Ouvi num programa, outro dia, a propaganda de um colchão térmico que muda de temperatura de acordo com a temperatura do seu corpo, madrugada adentro.

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    Eu não durmo pelas consequências benéficas, mas pelo simples benefício de estar dormindo. "O momento em que você tá na natureza sem precisar de você mesmo", "sem a mediação excessiva do eu". Brilhante. Não é isso o que chamam de mindfulness? Não é isso o que se busca na meditação? No budismo? A existência plena, sem uma mente tagarela que grita o tempo todo "amanhã tem reunião com o contador", "você esqueceu de dar feliz aniversário pra tia Corália", "Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?".

    Acho curioso —e já escrevi isso aqui uma vez— que no século retrasado os ludistas quebrassem máquinas contra a opressão capitalista, no século passado as feministas queimassem sutiãs, mas nunca tenha havido revoltosos destruindo alarmes em praça pública. "Alarme", aliás, vem de "às armas!". Que jeito horrível de começar o dia. Bem melhor abrir o olho, ainda bebinho de sono, abraçar o travesseiro e passar mais meia-hora entre nuvens, unicórnios e elefantes voadores.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2026/08/e-dormir.shtml.

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    Adams Carvalho/Folhapress · Adams Carvalho/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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