Brasil

    Documentário sobre polvos omite estudo pioneiro do Brasil

    Pesquisa da UFRN foi a primeira a registrar sono similar a REM nesses cefalópodes

    UOL
    27 de setembro de 2026 às 12:00
    Documentário sobre polvos omite estudo pioneiro do Brasil
    Homem dentro de mar usa respirador aquático e olha polvo ao seu lado — Foto: UOL

    Jornalista de ciência e ambiente, autor de “A Ciência Encantada de Jurema" (ed. Fósforo)

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Cena do filme 'Professor Polvo', de James Reed e Pippa Ehrlich - Netflix/Divulgação · Netflix/Divulgação
    Cena do filme 'Professor Polvo', de James Reed e Pippa Ehrlich - Netflix/Divulgação · Netflix/Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Só na sexta-feira (25), uma rede social mostrou dois posts sobre inteligência e sono em polvos. Sinal de que o algoritmo não dorme no ponto e já detectou um interesse. Mas não dá pista sobre o apagamento de estudo brasileiro que contribuiu para muita gente deixar de comer o simpático e esperto bicho.

    Sua popularidade ganhou impulso com obras como " Outras Mentes " (2016), do australiano Peter Godfrey-Smith. O livro tem a profundidade reflexiva que se pode esperar de um filósofo da ciência mergulhando no comportamento de cefalópodes (lulas e sépias incluídas).

    Depois viria " Professor Polvo " (2020), documentário ganhador do Oscar em que o cineasta Craig Foster entabula relação pessoal com um polvo na África do Sul. A Netflix explorou de novo o filão com " Criaturas Extraordinariamente Brilhantes " (2026), melodrama narrado por um polvo-gigante-do-pacífico, Marcellus, que rendeu um Emmy a Sally Field.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    No filme, o xará de oito braços tem consciência e... sonhos. Aquém da liberdade ficcional, por ora a ciência só pode afirmar com certeza que esses moluscos dormem alternando fases de sono quieto e ativo, tendo este certa semelhança com o sono REM de mamíferos.

    Essa forma de dormir foi constatada primeiro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em artigo publicado em 2021 no periódico iScience, Sylvia Medeiros e colegas, sob orientação de Tatiana Leite e Sidarta Ribeiro, filmaram Octopus insularis adultos dormindo e quantificaram os dois tipos de sono.

    Na fase tranquila, com duração mediana de 415 segundos, o polvo permanece pálido e relaxado. Na ativa (41 s), as cores da pele e sua textura mudam depressa, e os olhos se mexem. Há clara analogia com o movimento rápido dos olhos (REM, em inglês) que caracteriza nossos sonhos, porém insuficiente para afirmar que o polvo está também fabulando experiências vívidas com base em memórias.

    Em visita ao National Geographic Museum of Exploration em Washington, DC, Tatiana Leite teve uma surpresa desagradável: a apresentação "Os Polvos Sonham?" só mencionava a bióloga australiana Alexandra Schnell , exploradora da NatGeo, omitindo a pesquisa pioneira (detalhe: a própria Schnell comentara o estudo da UFRN uma semana após a publicação).

    O apagamento se repete no documentário " Secrets of the Octopus ", da NatGeo, constatou Leite (não é minha parenta). Em 25 de agosto ela escreveu para a National Geographic Society pedindo que se retificasse a atribuição.

    "Descobertas científicas provenientes da América Latina e de outras regiões fora dos grandes centros da ciência internacional já enfrentam desafios significativos para obter a visibilidade e o reconhecimento adequados", ponderou Leite.

    "Quando uma organização de mídia internacional de grande influência apresenta, posteriormente, a mesma descoberta sem identificar os cientistas que originalmente realizaram o trabalho, o registro histórico da contribuição científica acaba sendo distorcido."

    Um mês após a queixa, a pesquisadora ainda não recebeu resposta da sociedade. Como diz Marcellus no filme: "Humanos. Em sua maioria, vocês são monótonos e desajeitados. Mas, ocasionalmente, podem ser criaturas extraordinariamente brilhantes".

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloleite/2026/09/documentario-sobre-polvos-omite-estudo-pioneiro-do-brasil.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Cena do filme 'Professor Polvo', de James Reed e Pippa Ehrlich - Netflix/Divulgação · Netflix/Divulgação — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)