Do pacto global à minifloresta comunitária
No CEU (Centro Educacional Unificado) na unidade de Paraisópolis , na periferia de São Paulo, gestoras e gestores públicos de várias cidades brasileiras se reuniram nesta semana para plantar mudas de ipê, pitanga e embaúba. Plantar tem algo de ritual, e ali era também técnica: uma aula prática de como diminuir a temperatura nas cidades. Leia mais (08/13/2026 - 08h00)

Espaço de debate para temas emergentes da agenda socioambiental
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

No CEU (Centro Educacional Unificado) na unidade de Paraisópolis , na periferia de São Paulo, gestoras e gestores públicos de várias cidades brasileiras se reuniram nesta semana para plantar mudas de ipê, pitanga e embaúba. Plantar tem algo de ritual, e ali era também técnica: uma aula prática de como diminuir a temperatura nas cidades.
A visita fazia parte da São Paulo Climate Week e do Mutirão Global contra o Calor Extremo, o Beat the Heat , iniciativa do Pnuma (Programa da ONU para o Meio Ambiente) e da presidência da COP30 , que já reúne quase 300 cidades no mundo, mais de 130 delas no Brasil.
Havia ali secretários e técnicos de prefeituras de São Paulo, Acre , Pará , Minas Gerais e Rio de Janeiro , ao lado de pesquisadores, redes internacionais de cidades e de outras organizações sem fins lucrativos. A lógica é o aprendizado entre pares: aproximar quem precisa agir de quem já está agindo.

"O futuro será significativamente mais quente, e os impactos do calor extremo já estão sendo sentidos em todo o mundo. O desafio agora é transformar esse conhecimento em ação. Esse é o compromisso que orienta o Beat the Heat", afirmou Vitor Leal Pinheiro, gerente de políticas climáticas do Pnuma no Brasil.
O calor extremo é global nas causas e brutalmente local nos efeitos. Ele é negociado em conferências e pactos, mas é sentido numa rua sem árvore , num ponto de ônibus sem cobertura ou pátio escolar de concreto.
Compromissos internacionais só se cumprem quando alcançam esses lugares. E soluções comunitárias só crescem quando encontram conhecimento, verba e as redes que esses acordos mobilizam.

As miniflorestas urbanas são um bom terreno para esse encontro. Não substituem a arborização tradicional, complementam. Onde há espaço, um plantio bem adensado de árvores forma sombra em poucos anos. É o que permite levar floresta para dentro de escolas e outros espaços públicos, bairros sem árvores.
O efeito dessa estratégia começa a ser medido aqui em São Paulo. Em 2026, a pesquisadora Vivian Madi e a professora Denise Duarte, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da USP, mantiveram equipamentos dentro e fora de uma minifloresta em um centro educacional da capital.
O resultado: dentro da minifloresta, a Temperatura Fisiológica Equivalente, ou Pet, na sigla em inglês, foi, em média, 4,8°C menor. O índice combina temperatura do ar, umidade, vento e radiação para estimar o impacto das condições ambientais sobre o conforto térmico do corpo humano. É uma diferença enorme.
Se o enfrentamento do calor extremo exige um mutirão global, uma minifloresta nasce de um mutirão local. Antes do plantio, vêm a escolha da área, a preparação do solo e um processo de educação ambiental e construção coletiva com a comunidade.
O plantio é um mutirão de aprendizado, celebração e trabalho compartilhado que transforma esse percurso em floresta. Depois, vêm os primeiros anos de cuidado, até que ela se sustente sozinha.
Desde 2019, a Formigas-de-Embaúba implantou coletivamente mais de 50 miniflorestas em escolas, unidades de saúde e outros espaços públicos de São Paulo, e agora trabalha para disseminar essa experiência em outras regiões do país.
Uma minifloresta é difícil de imaginar por descrição. Quem entra numa delas sente a diferença de temperatura, vê como se planta e como se cuida, e sai sensibilizado de um jeito que nenhum relatório produz. É o passo em que a ideia deixa de ser abstrata para quem decide.
E agora precisamos dar o passo seguinte. As miniflorestas ainda aparecem pouco nos planos de arborização e de adaptação climática no Brasil, e incorporá-las de forma permanente seria o desdobramento natural do que se viu em Paraisópolis.
A medida mais concreta de um compromisso global talvez seja a mais simples: quanta sombra a cidade ganhou. É assim, bairro por bairro, que um pacto se cumpre.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/08/do-pacto-global-a-minifloresta-comunitaria.shtml.

Estudantes plantam sementes na minifloresta do CEU Parque Novo Mundo, em São Paulo - Divulgação/Formigas-de-Embaúba · Divulgação/Formigas-de-Embaúba — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

