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    Do campo à gôndola: por que o preço dos alimentos muda tanto

    Análise mostra que café e leite repassam mais rapidamente as oscilações do campo, enquanto carne e arroz têm mecanismos que amortecem a variação até chegar ao consumidor.

    CNN Brasil
    24 de setembro de 2026 às 07:30
    Do campo à gôndola: por que o preço dos alimentos muda tanto
    Foto: CNN Brasil

    O preço recebido pelo produtor rural e o valor pago pelo consumidor no supermercado não caminham necessariamente na mesma velocidade e, em alguns produtos, a diferença pode ser grande. Uma análise feita pela CNN mostra que café e leite tendem a transmitir mais rapidamente as oscilações da origem para a gôndola, enquanto a carne bovina tem um repasse mais lento e parcial. No arroz, a transmissão também ocorre, mas outros fatores ajudam a explicar por que o preço no supermercado pode resistir mesmo quando a cotação no campo recua.

    Os dados ao produtor foram medidos pelo Cepea (Centro de Estudos em Economia Aplicada), com os preços ao consumidor acompanhados pelo Dieese. Também foram apresentados a economistas.

    A diferença aparece com clareza no café . O preço do café arábica medido pelo Cepea saiu de R$ 991 por saca em janeiro de 2024 para R$ 2.628 em fevereiro de 2025, uma alta superior a 160% . Em São Paulo, o preço ao consumidor passou de R$ 25,73 para R$ 50,04 por quilo no mesmo período. A análise estima uma defasagem de dois a quatro meses e um repasse de 75% a 90% da variação do produtor para o consumidor.

    Análise mostra que a correlação entre os preços do campo e do consumidor difere por produto • Imagem gerada por IA · • Imagem gerada por IA
    Análise mostra que a correlação entre os preços do campo e do consumidor difere por produto • Imagem gerada por IA · • Imagem gerada por IA — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Em 2026, o movimento se inverteu. O preço do café arábica caiu de R$ 2.179 por saca em janeiro para R$ 1.477 em junho. No varejo paulista, a queda foi menor: de R$ 68,40 para R$ 61,02 por quilo.

    No leite, a relação é ainda mais direta. A correlação entre o preço recebido pelo produtor e o preço ao consumidor em São Paulo chega a cerca de 0,92, com uma defasagem estimada de zero a um mês . Em 2022, por exemplo, o preço líquido recebido pelo produtor passou de aproximadamente R$ 2,14 para R$ 3,57 por litro entre janeiro e julho, enquanto o preço ao consumidor subiu de cerca de R$ 4,82 para R$ 8,78.

    Na carne bovina , o repasse é mais lento e menos completo . A análise encontra correlação de 0,776 entre os preços e estima uma defasagem de aproximadamente três meses . O repasse da variação do boi para o consumidor fica na faixa de 35% a 55%.

    Feijão e mandioca: como itens tão brasileiros influenciaram na cesta básica
    Feijão e mandioca: como itens tão brasileiros influenciaram na cesta básica — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Isso ajuda a explicar por que uma queda na cotação do boi não necessariamente aparece imediatamente no açougue. Além do intervalo entre a formação do preço na origem e a chegada ao consumidor, a carne disputa espaço com outras proteínas, como frango , suíno e ovos . Se o preço da carne sobe muito, parte da demanda pode migrar para esses produtos, limitando o quanto da alta consegue ser transferido para o consumidor.

    Para Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro, não existe uma regra única para o repasse. Um dos fatores é a elasticidade-preço da demanda: produtos básicos tendem a sofrer menos redução de consumo quando ficam mais caros, enquanto produtos com mais substitutos ou considerados menos essenciais são mais sensíveis ao preço.

    Também importa o número de etapas entre a produção e o consumidor. Indústria, transporte, distribuição e varejo podem absorver temporariamente parte das oscilações da matéria-prima. Além disso, quanto menor for a participação do produto agrícola no custo final, menor tende a ser o impacto de uma mudança na cotação da origem sobre o preço na prateleira.

    Preço do feijão segue em movimento de alta gradual, diz Cepea
    Preço do feijão segue em movimento de alta gradual, diz Cepea — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A diferenciação também conta. Produtos com diferentes níveis de qualidade, marcas e segmentos premium têm maior possibilidade de formar preços distintos ao longo da cadeia. E há ainda a exposição ao mercado externo: quando uma commodity pode ser exportada, a produção doméstica não necessariamente fica disponível integralmente para abastecer o mercado brasileiro.

    É o caso do arroz. Em 2020, o preço do arroz em casca passou de R$ 64,67 para R$ 105,38 por saca entre o início do ano e julho-outubro, alta de 63%. No mesmo período, o preço ao consumidor em São Paulo subiu de R$ 3,25 para R$ 4,60 por quilo, avanço de 42%. Já entre 2023 e 2024, o preço ao produtor voltou a subir, de R$ 81,92 para R$ 127,36 por saca, enquanto o preço ao consumidor avançou de R$ 4,13 para R$ 4,94 por quilo.

    O movimento inverso também é importante. Em 2025, o preço ao produtor caiu de R$ 99,72 para R$ 53,06 por saca, recuo de cerca de 47%. No varejo, porém, a queda foi bem menor: de R$ 5,30 para R$ 4,55 por quilo.

    Mandioca vive fase de ajuste no Brasil com produção maior e preços voláteis
    Mandioca vive fase de ajuste no Brasil com produção maior e preços voláteis — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Para André Braz, economista da FGV IBRE, há uma particularidade importante no caso do arroz: ele é uma commodity que também faz parte da pauta de exportação brasileira . Assim, uma safra maior pode pressionar a cotação recebida pelo produtor sem que toda essa produção adicional fique disponível no mercado doméstico.

    “Se a safra foi boa, o preço pode cair ao produtor pelo excesso, mas uma parte dessa produção é exportada. Então, na gôndola, a oferta doméstica fica mais estável e o preço cai pouco”, explica Braz.

    O frete é outro componente relevante. Quanto mais distante o consumidor estiver das regiões produtoras, maior o peso do transporte na formação do preço final . E, em períodos de alta do diesel, esse custo pode aumentar ainda mais.

    Preço do feijão segue em movimento de alta gradual, diz Cepea
    Preço do feijão segue em movimento de alta gradual, diz Cepea — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Há ainda uma característica própria do arroz: o peso na alimentação do brasileiro. “Arroz com feijão está no prato do brasileiro praticamente no almoço e no jantar”, afirma Braz. Como é um item básico, consumido em todo o país, a demanda tende a ser mais resistente às oscilações de preço . Isso pode dar maior rigidez ao valor na gôndola, mesmo quando a cotação recebida pelo produtor recua.

    A análise mostra que não basta olhar apenas para o preço recebido pelo produtor para antecipar o comportamento dos alimentos no supermercado. É preciso considerar a velocidade do repasse, o tamanho da variação, o peso da matéria-prima no produto final, a existência de substitutos, os custos de transporte e processamento e a possibilidade de exportação ou importação.

    Em termos de impacto sobre o orçamento das famílias , a carne bovina tem peso maior, seguida pelo leite, café e arroz . O café, por sua vez, merece atenção quando há choques fortes de oferta porque combina grande variação de preços com elevado grau de transmissão. O leite se destaca pela velocidade com que as mudanças chegam ao consumidor. Já a carne tem um efeito mais estrutural, associado ao peso no orçamento, ao ciclo pecuário e às condições do mercado externo.

    IPCA: alimentos ficam mais baratos em agosto, mas leite e carnes pressionam | CNN AGRO MONEY
    IPCA: alimentos ficam mais baratos em agosto, mas leite e carnes pressionam | CNN AGRO MONEY — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A principal conclusão é que não existe uma “regra de três” entre o preço no campo e o preço no supermercado . Cada cadeia tem mecanismos próprios de absorção e transmissão. Uma queda de 40% na matéria-prima, portanto, não significa que o consumidor verá necessariamente uma queda de 40% na gôndola — assim como uma disparada na origem não precisa chegar integralmente ao varejo.

    IPCA: alimentos ficam mais baratos em agosto, mas leite e carnes pressionam | CNN AGRO MONEY

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/agro/do-campo-a-gondola-por-que-o-preco-dos-alimentos-muda-tanto/.

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