Divergências do programa de governo de Flávio Bolsonaro
É difícil entender a extrema direita. No 7 de Setembro, na avenida Paulista, uma ativista antivacina, que endossava Eduardo Bolsonaro, criticava a vacinação contra o sarampo. Leia mais (09/16/2026 - 17h23)

Escritor, é autor de 'Feliz Ano Velho', 'Ainda Estou Aqui' e 'O Novo Agora'
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É difícil entender a extrema direita. No 7 de Setembro, na avenida Paulista, uma ativista antivacina, que endossava Eduardo Bolsonaro, criticava a vacinação contra o sarampo.
Questionada se não acreditava que vacinas protegem contra doenças como a pólio, respondeu, com um ar blasé, que não existe mais pólio porque nos vacinamos no passado.
Fico me perguntando que champignon comem aqueles que defendem que Lula morreu e somos governados por um sósia; que vivemos numa ditadura; e, meu favorito, que Trump deveria fazer no Brasil o que fez na Venezuela .

Até um boneco inflável do presidente americano levando Lula embora foi confeccionado para o comício de Flávio Bolsonaro no feriado da pátria.
A Operation Absolute Resolve, realizada na madrugada de 3 de janeiro de 2026, em Caracas, na qual Nicolás Maduro foi capturado com a mulher, Cilia Flores, levou meses de preparação.
A CIA o monitorava havia tempo. Os americanos construíram uma réplica de seu esconderijo para que soldados da Delta Force ensaiassem a invasão. Os Estados Unidos concentraram mais de 150 aeronaves, que partiram de cerca de 20 bases no Caribe.

Tinha caças F-35, F-22 e F/A-18, bombardeiros B-1, drones, aviões de inteligência e helicópteros, além do porta-aviões USS Gerald Ford e do navio de assalto USS Iwo Jima.
Para realizar o sonho de sequestrar Lula e Janja, inspirado na operação venezuelana, o primeiro objetivo não seria bombardear seus esconderijos, mas neutralizar as defesas brasilienses e abrir um corredor seguro para os helicópteros que levariam as forças especiais até o casal.
Os americanos teriam de enviar uma frota ao Brasil e tomar Natal, Recife ou Salvador. Brasília seria atacada na madrugada: explosões em instalações militares e sistemas de defesa antiaérea.

Ao mesmo tempo, os americanos empregariam guerra eletrônica, inteligência e aeronaves especializadas para reduzir a capacidade brasileira de detectar e reagir à incursão. A força de captura voaria baixo. Chegaria ao bunker lulista. O casal seria colocado nos helicópteros e levado ao USS Iwo Jima, na costa brasileira.
Fui procurar no programa político de 76 páginas de Flávio Bolsonaro, "Para o Brasil Vencer o Atraso", se tal missão é bandeira ou fantasia —e tentar entender, nas entrelinhas, o que ele pretende fazer se for eleito.
A linguagem é de fácil acesso e despojada, como o TCC de um aluno do ensino médio. Os capítulos se chamam "Terrorista Vai Ser Tratado Como Terrorista", "Crime do Menor Não É Menor", "Luz, Câmera, Prisão", "Ganha, Ganha".
Sobre relações internacionais, diz o programa: "Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos".
Países do Brics —US$ 200 bilhões em comércio com o Brasil—, da União Europeia —US$ 100 bilhões—, do Mercosul —US$ 40 bilhões—, da Aliança do Pacífico —US$ 30 bilhões— e da Associação de Nações do Sudeste Asiático —US$ 40 bilhões— são propensos ao terror?
Segundo o programa, "nos últimos anos, as relações com países como Argentina , Estados Unidos e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil".
Rompimento? Os Estados Unidos nos taxam e ainda são nosso segundo maior parceiro comercial. A Argentina, apesar dos surtos de Milei, é o terceiro.
Sobre alfabetização: "Vamos priorizar o método fônico, que é o de melhor resultado comprovado pela ciência, ensinando a criança a ligar cada som à sua letra, em vez das abordagens que fracassaram por décadas".
Ou seja: continua a criminalização de Paulo Freire.
Quando alguém diz que algo foi comprovado por Harvard, por um artigo da Nature ou por um Prêmio Nobel , a gente bota fé. Quando diz simplesmente "comprovado pela ciência", é uma premissa conhecida como Argumento Cloroquina.
O programa sugere castração química para condenados por estupro e abuso sexual de crianças, redução da maioridade penal para 16 anos e encarceramento em massa: o Complexo TREVA abriria 500 mil vagas no sistema prisional.
"Vamos ainda ampliar o acesso a exames preventivos e manter a imunização e o incentivo à produção nacional de vacinas, porque prevenir é sempre mais barato e mais humano do que tratar tarde."
Sobre cultura, um dado contraditório. O programa dedica apenas dois parágrafos ao mercado que emprega seis milhões de profissionais, segundo o IBGE , e afirma que preservará uma "cultura que defenda nossas raízes".
"Com isso, alcançaremos os artistas de grande mérito artístico, porém de pouca projeção, hoje esquecidos pelo modelo atual."
Então " Dark Horse " deveria se chamar "Cabra da Peste", com protagonista, diretor e doleiros do Vale do Ribeira. A não ser que as raízes a serem defendidas sejam as do Texas.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelo-rubens-paiva/2026/09/divergencias-do-programa-de-governo-de-flavio-bolsonaro.shtml.

Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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