Diretor de 'A Hora do Mal' encara zumbis dentro e fora das telas com 'Resident Evil'
Zach Cregger vive uma situação próxima à do protagonista de seu novo filme, uma releitura de " Resident Evil ". É que, assim como o entregador que entra na mira de zumbis, o diretor de "A Hora do Mal" tem sido perseguido por fãs que o acusam de distorcer os jogos. Leia mais (09/17/2026 - 04h00)

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Zach Cregger vive uma situação próxima à do protagonista de seu novo filme, uma releitura de " Resident Evil ". É que, assim como o entregador que entra na mira de zumbis, o diretor de "A Hora do Mal" tem sido perseguido por fãs que o acusam de distorcer os jogos.

Eles dizem que a falta de personagens famosos, como o soldado Chris Redfield e o policial Leon Kennedy, levará o título ao fracasso, ainda que especialistas prevejam um sucesso de bilheteria. Entre opiniões que circulam desde os trailers, há também quem argumente que a Sony se aproveitou do nome da saga para vender algo distante dos games.
Embora admita ter se afastado das narrativas que popularizaram a franquia, Cregger afirma ter mantido a essência desse universo distópico, em que um vírus foge ao controle de uma empresa farmacêutica. Na produção recém-lançada, um entregador leva um recipiente médico até uma cidade isolada, onde encontra infectados furiosos e faz de tudo para sobreviver.
O filme se interessa mais pelo frenesi, com pouquíssimas cenas de respiro, do que por aprofundar aquela mitologia —as poucas cenas que citam a Umbrella Corporation , por exemplo, tiram sarro da multinacional responsável pelo desastre biológico.

"Não entendo por que alguns querem ver sempre a mesma história. As liberdades que tomei não mudaram a atmosfera dos jogos. A impressão é de se estar jogando um deles", afirma o diretor, que atraiu grandes estúdios com o terror independente " Noites Brutais ". No longa de 2022, uma mulher investiga corredores escuros ao descobrir que um monstro assombra um Airbnb.
Na época, o projeto de US$ 5 milhões —quase 15 vezes menos que "Resident Evil"— foi comparado à série de jogos, em que casas abandonadas guardam incontáveis segredos e nenhuma munição pode ser desperdiçada.
"Copiar os games sempre me pareceu uma ideia fadada ao fracasso. Só um filme de doze horas daria conta de segui-los à risca. Muitos cortes seriam necessários, e muitos ficariam enfurecidos."

De fato, desde que foi criada pela empresa japonesa Capcom, em 1996, "Resident Evil" se desdobrou numa franquia com dezenas de jogos, entre sequências e remakes, e várias adaptações, com longas, desenhos e uma série da Netflix , cancelada na primeira temporada —parte das críticas disse que o streaming pesou a mão em tramas adolescentes, e o excesso de referências pop virou motivo de piada.
Os filmes que antecederam esse seriado dividiram a crítica, mas arrecadaram o necessário para emplacar sequências. Entre eles, os mais lembrados são os de Paul W.S. Anderson . Embora tenham cativado alguns defensores, foram rechaçados por priorizar cenas de ação mirabolantes.
Agora, os ataques a Cregger espelham um grupo carente por uma adaptação fiel, mesmo que as jogatinas também tenham mudado com o tempo. Os três primeiros games da saga ajudaram a emplacar o " survival horror ", subgênero que faz o jogador organizar recursos escassos frente a ameaças terríveis.

A partir do quarto capítulo, com o público já habituado ao terror, a desenvolvedora escolheu priorizar a ação, e submeteu heróis implacáveis, quase sobre-humanos, a batalhas que desagradaram diversos fãs.
A volta às raízes, dessa vez com tecnologias e visuais mais convincentes, veio em 2017, com "Biohazard". Ambientado no interior dos Estados Unidos, o jogo trocou cidades destruídas por um pântano misterioso. É lá que Ethan Winters, um homem como qualquer outro, investiga o sumiço da namorada.
Não foi a primeira vez que a Capcom apostou num protagonista mundano —já no segundo "Resident Evil", Claire Redfield surgiu como uma mera estudante em busca do irmão desaparecido.

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A ideia de retratar um mundo em colapso pela visão de uma figura ordinária, explica Cregger, foi o que moldou seu protagonista, papel de Austin Abrams. Embora seja guiado pelo desejo de fazer o melhor, o personagem se desespera ao encontrar mutantes, sofre para manusear armas de fogo e revê a ideia do herói tradicional com seu jeito atrapalhado.
"Isso deixa os personagens mais interessantes e dá margem à comédia", afirma Abrams. "Certos filmes exigem figuras imbatíveis, no estilo ' John Wick '. Mas personagens como o meu ajudam o público a se sentir parte do filme —eles estão de igual para igual, e ninguém faz ideia do que está acontecendo."

De algum modo, a abordagem lembra a de " A Hora do Mal ", terror da Warner e o maior sucesso de Cregger até agora. No longa, o sumiço de crianças atormenta pessoas de uma mesma cidade. Pouco a pouco, as várias perspectivas revelam um mal-estar por trás do subúrbio aparentemente normal.
O sucesso foi tanto que, uma vez integrado a uma franquia enorme, Cregger teve liberdade para retomar temas recorrentes, como seu medo pela paternidade —em "Resident Evil", o entregador tenta fazer as pazes com a gravidez da namorada.
Ainda é cedo para saber que resultado essas escolhas terão, mas Cregger não parece preocupado. "Escrevi um roteiro aprovado por executivos e o corte final é meu. Deu tudo certo", afirma ao ser questionado sobre a dificuldade de manter uma voz autoral.
Ele ainda diz desconhecer as falas que alegam que seus filmes seriam etaristas. Isso porque, em "Noites Brutais" e "A Hora do Mal", quem pratica a violência são mulheres mais velhas, retratadas grotescamente. Cregger diz que a protagonista do primeiro tem só 42 anos e que essa visão nunca passou pela cabeça.
Mesmo assim, "Resident Evil" é uma resposta acidental a esses comentários, já que o vírus maligno não discrimina nenhum corpo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/diretor-de-a-hora-do-mal-encara-zumbis-dentro-e-fora-das-telas-com-resident-evil.shtml.

Austin Abrams em cena de 'Resident Evil', do diretor Zach Cregger - Dusan Martincek/Divulgação · Dusan Martincek/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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