Direita latino-americana segue plano temerário de Trump
Se o Itamaraty foi apanhado de surpresa pela decisão de 14 países da América Latina de acompanhar os Estados Unidos na classificação do PCC e de outras quadrilhas como organizações terroristas, chama a atenção menos o conteúdo da declaração -às margens da Assembleia Geral da ONU - e mais o isolamento diplomático do Brasil. Leia mais (09/23/2026 - 22h00)

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Se o Itamaraty foi apanhado de surpresa pela decisão de 14 países da América Latina de acompanhar os Estados Unidos na classificação do PCC e de outras quadrilhas como organizações terroristas, chama a atenção menos o conteúdo da declaração —às margens da Assembleia Geral da ONU — e mais o isolamento diplomático do Brasil.
Não é trivial articular uma negociação entre tantas nações sem que informações vazem para outras partes interessadas.
Entre os participantes do Escudo das Américas, a iniciativa envolvendo governantes latino-americanos simpáticos a Donald Trump , há vizinhos do Brasil, como Argentina , Colômbia e Bolívia . Seus corpos diplomáticos não são estranhos ao Itamaraty.

Teoricamente faz pouco sentido classificar grupos criminosos como terroristas. Ainda que possam recorrer a táticas de terror —instilando, por exemplo, o pânico entre civis—, o que os move é o ganho econômico, não objetivos político-ideológicos. Na prática, o que mais interessa é a efetividade do combate a esses grupos.
Há que monitorar a mudança de nomenclatura para verificar se ajudará ou prejudicará as cooperações internacionais. Nos EUA, o combate a organizações transnacionais cabe ao FBI e outras agências com expertise policial.
Já o enfrentamento de terroristas é dividido entre órgãos policiais e de inteligência, como a CIA , e departamentos militares, que resistem muito mais em compartilhar dados com outros países.

O governo Trump, porém, não se pauta por políticas eficientes em quaisquer áreas em que atue. O que o caracteriza é a retórica hiperbólica, não necessariamente vinculada às evidências. É pena que tantos dirigentes latino-americanos tenham dado prioridade a agradar ao republicano.
A reclassificação oferece pretextos jurídicos para os Estados Unidos e outros países atuarem com mão pesada contra suspeitos de integrar essas quadrilhas. No limite extremo, facilita até a justificativa para ação militar.
São oportunidades de agir de modo arbitrário , o que é sempre algo a evitar no Estado democrático de Direito. Cumpre observar, ademais, que Donald Trump está longe de ser um legalista. Várias intervenções externas já ordenadas por ele estão em desacordo com a lei internacional, o que não foi suficiente para inibi-lo.
Seria por outro lado ingênuo ignorar o interesse eleitoreiro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) em manter um certo nível de atrito com Trump. O republicano, nas suas ofensivas disparatadas contra a população e as empresas do Brasil, tem se portado como cabo eleitoral de luxo do candidato petista à reeleição.
Para o cidadão brasileiro, não importa o nome que as quadrilhas tenham. O que interessa é o combate à chaga do crime organizado ser resolutivo. Se nações ricas querem financiar o esforço local, a atitude de governos pragmáticos deveria ser a de ao menos explicitar o que se perde em recursos ao recusar o apoio.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/direita-latino-americana-segue-plano-temerario-de-trump.shtml.

Reunião de líderes dos países que integram o Escudo das Américas, em Nova York (EUA) - Charly Triballeau - 22.set.26/Pool via REUTERS · Charly Triballeau - 22.set.26/Pool via REUTERS — Foto: Folha de S.Paulo
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