Brasil

    Direita incluiu mulheres em projeto de poder, mas não produziu onda de eleitas, dizem pesquisadoras

    A direita incorporou as mulheres a seu projeto de poder, mas a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita, afirmam pesquisadoras ouvidas pela Folha . Leia mais (10/06/2026 - 12h00)

    Folha de S.Paulo
    6 de outubro de 2026 às 15:00
    Direita incluiu mulheres em projeto de poder, mas não produziu onda de eleitas, dizem pesquisadoras
    Quinze mulheres reunidas em plenário, algumas com camisetas brancas com texto vermelho 'FIM DA ESCALA 6X1', celebram com braços erguidos e sorrisos. Ao fundo, duas bandeiras do Brasil estão posicionadas. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    A direita incorporou as mulheres a seu projeto de poder, mas a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita, afirmam pesquisadoras ouvidas pela Folha .

    Mulheres da base governista do PT em sessão de votação da PEC que dá fim à escala 6x1 - Gabriela Biló - 27.mai.2026/Folhapress · Gabriela Biló - 27.mai.2026/Folhapress
    Mulheres da base governista do PT em sessão de votação da PEC que dá fim à escala 6x1 - Gabriela Biló - 27.mai.2026/Folhapress · Gabriela Biló - 27.mai.2026/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O resultado das urnas deste domingo (4) combina dois movimentos que podem parecer contraditórios: de um lado, partidos conservadores passaram a investir em lideranças femininas, oferecendo recursos, estrutura partidária e alcance digital; de outro, as bancadas femininas da Câmara e do Senado saíram menos à direita que o conjunto de parlamentares .

    Na Câmara, onde 59% dos parlamentares eleitos são de partidos de direita, de acordo com o GPS Ideológico da Folha , as deputadas do mesmo espectro ideológico serão 48% da bancada feminina. À esquerda, elas serão 43%, enquanto o total de parlamentares desse campo é de apenas 24% quando consideradas todas as 513 cadeiras.

    Das 12 senadoras eleitas nesta semana , apenas quatro são da esquerda. A bancada feminina na Casa a partir de 2027 será composta por 18 parlamentares, será 55,5% à direita e 33,4% à esquerda, com o centro espremido em apenas 11,1% —duas vagas. Ainda assim, está à esquerda da composição total da Casa, onde o bolsonarismo teve uma estrondosa vitória .

    Lideranças femininas da direita
    Lideranças femininas da direita — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A partir de 2027, 64,2% dos senadores estarão alinhados à direita, 18,5% à esquerda e 16% ao centro. O senador Romário está atualmente sem partido.

    Para Carolina Althaller, diretora-executiva do Instituto Update, o crescimento de mulheres de direita precisa ser entendido como parte de uma disputa mais ampla pelo poder. "A direita passou a investir em lideranças femininas, e a esquerda precisa olhar para as condições que oferece para as mulheres competirem", afirma.

    No caso do PL , que abriga o bolsonarismo, diz ela, há uma combinação de estrutura eleitoral, recursos e comunicação digital que cria condições para que essas candidaturas prosperem.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A estratégia, segundo Althaller, vai além da simples ampliação da representação feminina. A direita teria percebido que mulheres podem ocupar um lugar próprio em seu projeto político, inclusive defendendo posições contrárias à agenda feminista .

    A oposição entre feministas e antifeministas e a presença de um centro desidratado nas bancadas femininas pode diminuir também as possibilidades de convergência dentro das bancadas femininas, explica a cientista política Débora Thomé.

    Coautora do livro "Candidatas: os primeiros passos das mulheres na política", ela diz que os dados de que as mulheres eleitas são menos conservadoras que o Congresso em geral demonstram que não houve uma onda feminina de direita. "Houve uma força da própria direita", afirma. Ou seja, com o crescimento da direita, mulheres deste campo também chegaram em maior número a Brasília.

    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ela diz que há um evidente empenho da direita nesse segmento, mas que a proporção das bancadas femininas aponta para uma disputa relevante entre esquerda e direita pelo domínio desses espaços.

    Embora nomes fortes do campo, como Michelle Bolsonaro (PL-DF), Bia Kicis (PL-DF) e Caroline de Toni (PL-SC), tenham conseguido votações expressivas e chegado ao Senado, a esquerda também teve vitórias, como a eleição de Erika Hilton ( PSOL -SP) como a deputada federal mais votada da história e das senadoras Marília Campos ( PT -MG) e Marília Arraes (PDT-PE).

    Thomé considera que a presença de mulheres pode levar determinados temas a ganhar relevância no Congresso. "Não acho que uma mulher vá ser intrinsecamente melhor do que um homem, nem à direita nem à esquerda", diz. Mas elas tendem a ser mais suscetíveis a agendas relacionadas à própria experiência feminina, como questões de cuidados, envelhecimento, casamento infantil e a própria paridade de gênero na política. "Esse é um tema que interessa a mulheres de direita e de esquerda."

    Outro exemplo é a violência contra a mulher , pauta que, segundo Thomé, foi incorporada pela direita, embora frequentemente associada a respostas punitivistas. "O fato de ter mais mulheres lá faz com que o tema da violência contra a mulher se torne sobressalente", afirma.

    O problema é que a própria identidade política dessas parlamentares pode dificultar acordos. Para Thomé, as parlamentares de direita frequentemente se apresentam em oposição às de esquerda e ao feminismo . "A mulher da direita, uma das formas de ela se posicionar na agenda é dizer que briga com a da esquerda", afirma.

    Althaller cita como exemplo o discurso antifeminista de jovens lideranças conservadoras . Nesse caso, a rejeição ao feminismo funcionaria simultaneamente como identidade e como instrumento de mobilização. "A rejeição ao feminismo vira uma marca que representa diferentes insatisfações", diz.

    Projetos sobre saúde sexual e reprodutiva, por exemplo, devem ter pouquíssima chance de avançar, principalmente no Senado .

    Para Althaller, será preciso observar não apenas quantas mulheres chegam, mas quais projetos representam e quanto poder efetivo terão. "Mais mulheres eleitas não significam avanço da agenda de igualdade", afirma.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    As principais notícias da semana sobre o cenário jurídico e conteúdos exclusivos

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/direita-incluiu-mulheres-em-projeto-de-poder-mas-nao-produziu-onda-de-eleitas-dizem-pesquisadoras.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Mulheres da base governista do PT em sessão de votação da PEC que dá fim à escala 6x1 - Gabriela Biló - 27.mai.2026/Folhapress · Gabriela Biló - 27.mai.2026/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)