Brasil

    Diálogos com o tempo

    Há algo de revolucionário quando uma família negra consegue produzir tempo

    UOL
    3 de setembro de 2026 às 21:00
    Diálogos com o tempo
    Ao centro da ilustração de fundo amarelo ocre está uma árvore com um grande laço branco em seu tronco. Assim como em muitas religiões de matrizes africanas, que materializam a relação com o Orixá Tempo através da árvore gameleira, que assim — Foto: UOL

    Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Aline Bispo/Folhapress · Aline Bispo/Folhapress
    Aline Bispo/Folhapress · Aline Bispo/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Faz algum tempo que venho refletindo sobre a importância do tempo. Tempo para pensar, elaborar outras formas de ver o mundo, de simplesmente poder dar um tempo.

    Não tem sido um processo fácil. Quem precisou lutar para sobreviver acredita que o tempo precisa ser utilizado de modo a seguir garantindo a sobrevivência. De tal modo que, mesmo quando a realidade se apresenta menos desfavorável, a gente não acredita que pode "perder tempo", tamanha a naturalização da pressa.

    Passei um ano lecionando no MIT ( Massachusetts Institute of Technology ), fui a primeira brasileira convidada para o programa Martin Luther King daquela instituição. Tive um semestre sabático e, pela primeira vez na vida, experimentei algo quase inacreditável para mulheres negras: tempo.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Nunca eu havia tido sequer finais de semana verdadeiramente sabáticos, então vi esse tempo como uma quebra geracional. Confesso que na primeira semana do sabático fiquei totalmente perdida, demorei a compreender que a instituição me pagaria para que eu pudesse estudar e pesquisar. Eu simplesmente não sabia o que fazer nos primeiros dias até internalizar a oportunidade que se abria.

    Reflito o quanto essa oportunidade, além de me curar, cura meu pai e minha mãe. Cura as mulheres que vieram antes de mim e foram colocadas cedo demais no forno da sobrevivência. Quando penso na história da minha família, não penso apenas nas tristezas, penso também em continuidade. Minha mãe e meu pai, com muita luta, empurraram nossa família alguns centímetros mais perto da dignidade, do estudo e da possibilidade de sonhar. E compreender esses fenômenos nos aproxima da cura, quando o sofrimento de uma geração não termina nela, mas se transforma lentamente em outras possibilidades de existência para as próximas.

    Hoje compreendo que há algo revolucionário em uma família negra conseguir produzir tempo. Tempo para estudar, para descansar e pensar a própria vida para além da sobrevivência imediata. No país último das Américas a abolir a escravidão, e que naturalizou esse lugar de sofrimento para a população negra, é revolucionário conquistar o direito ao tempo.

    Durante séculos, nossas gerações viveram como quem corre segurando brasas nas mãos, correndo, morrendo de trabalhar, tendo a vida ceifada precocemente. Minha mãe e meu pai correram assim, minha avó Antônia correu assim. E eu também corri durante tantos anos sem perceber o quanto meu corpo já estava habituado à urgência.

    Talvez por isso esse semestre sabático tenha me atravessado de maneira tão profunda. Não se tratava apenas de descanso, mas também de um estranhamento espiritual. Acordar sem desespero, poder ler sem culpa, escrever sem estar esmagada por múltiplas demandas, caminhar observando o céu sem a sensação de que o mundo desabaria caso eu parasse por um instante.

    Às vezes me pego emocionada com coisas pequenas: um café tomado lentamente, uma tarde silenciosa, um final de semana inteiro desfrutando de coisas que me fazem bem. E então penso em meus pais novamente e no quanto, de alguma forma, esse descanso também pertenceu a eles. Porque foram eles que construíram os primeiros tijolos dessa estrutura, mesmo sem enxergar onde ela terminaria, e acreditaram na educação como quem planta árvore sem expectativa de sentar-se a sua sombra.

    E acredito que esse seja um dos gestos mais generosos que alguém pode fazer pelas próximas gerações.

    Hoje eu entendo que estudar nunca foi apenas um projeto individual na nossa família, mas uma tentativa coletiva de escapar do destino que o mundo reservava para nós. E nós escapamos, não completamente, porque o racismo continua existindo, subindo o sarrafo para mulheres negras, se incomodando quando elas saltam mais alto e batem recordes, enfim, as desigualdades continuam moldando o mundo.

    Porém, às vezes, imagino meus pais me observando em silêncio.

    Meu pai talvez tentando entender direito o que significa MIT. Minha mãe provavelmente preocupada se estou me alimentando bem, se estou descansando, se estou me agasalhando no frio. E sorrio sozinha pensando nisso.

    Meu pai me ensinou presença, me olhava com orgulho. E há algo muito poderoso no olhar orgulhoso de um pai negro sobre a filha em um mundo que tenta diminuir mulheres negras. Minha mãe me ensinou resistência e coragem, a andar de cabeça erguida. Sim, eu sei que o descanso é privilégio racial e social. Há pessoas que herdam patrimônio, nós herdamos cansaço, medo e faro para a sobrevivência.

    Há famílias nas quais o futuro já nasce escolhido, na nossa ele precisou ser arrancado da terra com as mãos. E é justamente por isso que valorizo o tempo.

    Faz algum tempo que venho refletindo sobre o tempo.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/djamila-ribeiro/2026/09/dialogos-com-o-tempo.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Aline Bispo/Folhapress · Aline Bispo/Folhapress — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)