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    Diagnóstico não é salvo-conduto moral

    Numa postagem nas redes sociais, uma usuária que se autodeclarava "esposa atípica", por ser casada com um autista nível 2 de suporte que teria sido diagnosticado havia pouco tempo, afirmou que o marido "entrou em crise, soltou palavrões, deu murro na parede e gritou". Não fica claro se as atitudes foram contra ela. Ela, porém, justifica o destempero dizendo que é preciso compreender a violência, uma vez que o homem havia entrado em crise, algo que seria inerente à condição neurológica dele. Leia mais (08/11/2026 - 16h33)

    Folha de S.Paulo
    11 de agosto de 2026 às 19:33
    Diagnóstico não é salvo-conduto moral
    A imagem mostra um espaço de terapia física com equipamentos variados. Há cordas suspensas, almofadas coloridas em azul e verde, um painel de escalada vermelho e um grande bola azul no chão. O ambiente é iluminado por janelas que permitem a — Foto: Folha de S.Paulo

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    Numa postagem nas redes sociais, uma usuária que se autodeclarava "esposa atípica", por ser casada com um autista nível 2 de suporte que teria sido diagnosticado havia pouco tempo, afirmou que o marido "entrou em crise, soltou palavrões, deu murro na parede e gritou". Não fica claro se as atitudes foram contra ela. Ela, porém, justifica o destempero dizendo que é preciso compreender a violência, uma vez que o homem havia entrado em crise, algo que seria inerente à condição neurológica dele.

    Sala multisensorial do primeiro Centro Municipal de Atendimento para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo, na Avenida Santos Dumont, em Santana (SP) 02.abr.25 - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress
    Sala multisensorial do primeiro Centro Municipal de Atendimento para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo, na Avenida Santos Dumont, em Santana (SP) 02.abr.25 - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    De fato, segundo especialistas , autistas podem ter perda temporária de controle de algumas atitudes diante de sobrecarga sensorial, emocional, comunicacional. Uma desregulação pode envolver gritos, agressão, autoagressão ou destruição de objetos, mas a existência desse fenômeno não permite atribuir automaticamente ao autismo um comportamento violento.

    Daí a importância, principalmente para crianças, das salas de descompressão , que têm ganhado mais espaço em ambientes públicos no Brasil. Nesses locais, autistas e pessoas com outras neurodivergências podem se organizar para fazer interações de forma mais tranquila.

    O problema em tudo isso é quando se começa a misturar características de uma deficiência, seja ela física, intelectual, sensorial, com caráter, com valores morais e éticos. Agredir alguém numa discussão e, em seguida, sacar um laudo médico me parece bem pouco defensável.

    Governo de SP inaugura centro com apoio presencial e online a pessoas com autismo
    Governo de SP inaugura centro com apoio presencial e online a pessoas com autismo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma pessoa com deficiência pode ser, igual a qualquer outro vivente, oportunista, mau-caráter, farsante, violenta, larápia, enganadora, grosseira e demais adjetivos desabonadores. Quem lança mão de sua condição como escudo social para situações que nada têm a ver com aspectos inerentes a ela está praticando o chamado "coitadismo".

    Com um contingente cada vez maior de pessoas tendo reconhecidas suas condições de deficiência, sobretudo nas neurodivergências , é importante que se reforce que, embora a empreitada contra o capacitismo –o preconceito contra pessoas com deficiência— seja tema central de inclusão, nem tudo é discriminação, nem tudo é ação que desconsidera formas de ser e nem tudo é direito.

    Vejo com preocupação autistas sem comprometimentos que justifiquem o uso de vagas reservadas reivindicarem esses espaços apenas por terem, legalmente, uma deficiência. Essas vagas não foram criadas como um benefício genérico, mas para responder a necessidades concretas. Generalizar prejudica quem de fato precisa, inclusive quem é do espectro.

    Defender esse "direito" como algo do grupo e, logo, válido para todos me parece confundir diagnóstico com necessidade. Recursos de acessibilidade existem para eliminar barreiras específicas, não para conceder vantagens indistintamente. Sem bom senso, transforma-se uma política de equidade em privilégio e, pior, coloca-se em risco demandas legítimas e crédito social necessário à construção de uma realidade mais acolhedora, diversa e acessível.

    É espinhoso parecer jogar contra o meu próprio time, mas não dá para defender posturas questionáveis a respeito de um jeito de ser. Labutar pela humanização de pessoas com deficiência, por mudanças na forma como são vistas, aceitas e acolhidas, é também ter liberdade de criticá-las e observar posturas e demandas.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/assim-como-voce/2026/08/diagnostico-nao-e-salvo-conduto-moral.shtml.

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    Sala multisensorial do primeiro Centro Municipal de Atendimento para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo, na Avenida Santos Dumont, em Santana (SP) 02.abr.25 - Rafaela Araújo/Folhapress · Rafaela Araújo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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