Brasil

    Diagnóstico de HPV na gravidez assusta, mas riscos para bebê são baixos

    Exames de rotina permitiram à empresária Andressa Brognoli, 39, encontrar e retirar um tumor benigno no ovário. Mas foi só no acompanhamento da cirurgia que ela descobriu, ao mesmo tempo, um câncer de colo de útero e a gravidez do segundo filho. Leia mais (09/21/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    22 de setembro de 2026 às 02:00
    Diagnóstico de HPV na gravidez assusta, mas riscos para bebê são baixos
    Mulher grávida em primeiro plano com vestido bordado bege, mãos entrelaçadas sobre a barriga. Ao fundo, várias pessoas sentadas em cadeiras em ambiente interno, possivelmente sala de espera. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Exames de rotina permitiram à empresária Andressa Brognoli, 39, encontrar e retirar um tumor benigno no ovário. Mas foi só no acompanhamento da cirurgia que ela descobriu, ao mesmo tempo, um câncer de colo de útero e a gravidez do segundo filho.

    Sala de espera de gestantes no Hospital das Clínicas, em São Paulo - Eduardo Knapp - 27.abr.06/Folhapress · Eduardo Knapp - 27.abr.06/Folhapress
    Sala de espera de gestantes no Hospital das Clínicas, em São Paulo - Eduardo Knapp - 27.abr.06/Folhapress · Eduardo Knapp - 27.abr.06/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A infecção por HPV (papilomavírus humano) está associada a mais de 99% dos casos desse tipo de câncer , também chamado cervical, segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer) . A forma mais eficaz de prevenção é a vacina contra o vírus.

    "Não foi por falta de informação", diz Brognoli, relembrando o diagnóstico, recebido em 2022. Quando a vacina ficou disponível na rede privada, em 2006, ela pesquisou sobre o imunizante. Como era caro , acabou deixando a ideia de lado.

    Em 2014, a vacina entrou no calendário do SUS (Sistema Único de Saúde) . "Para mim já era tarde", diz Brognoli. Ela tinha 27 anos, fora do público-alvo inicial, meninas de 11 a 13 anos.

    Em casos raros, pode haver transmissão vertical de HPV; na foto, recém-nascido em leito no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre - Carlos Macedo - 23.abr.25/Folhapress · Carlos Macedo - 23.abr.25/Folhapress
    Em casos raros, pode haver transmissão vertical de HPV; na foto, recém-nascido em leito no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre - Carlos Macedo - 23.abr.25/Folhapress · Carlos Macedo - 23.abr.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A descoberta do câncer na gravidez a abalou. "Você automaticamente já pensa na finitude."

    O cenário não é incomum, segundo Márcia Terra, ginecologista e presidente da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia. "O diagnóstico nunca é fácil para nossa paciente. Não dá para saber de quem contraiu, há quanto tempo, de forma alguma. Na gestação, diminuindo a imunidade, o vírus aparece."

    Projeto da 11ª turma do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha discute desafios para prevenir, detectar e tratar doenças causadas pelo vírus

    A imagem mostra uma mão adulta segurando o pé de um bebê. O bebê está envolto em um cobertor branco e parece estar em uma incubadora. O foco está na mão e no pé do bebê, que está com uma bandagem. O fundo é desfocado, sugerindo um ambiente
    A imagem mostra uma mão adulta segurando o pé de um bebê. O bebê está envolto em um cobertor branco e parece estar em uma incubadora. O foco está na mão e no pé do bebê, que está com uma bandagem. O fundo é desfocado, sugerindo um ambiente — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Brognoli ouviu a recomendação de interromper a gravidez, mas procurou novos profissionais dispostos a conduzir o tratamento mantendo a gestação.

    Nem sempre é possível seguir a vontade da paciente. O estágio da doença, o tamanho do tumor, o tempo de gestação podem levar à decisão médica de interromper a gravidez, segundo Pilar Estevez Diz, oncologista e diretora de corpo clínico do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) .

    Existem mais de 200 tipos de HPV, a maioria de baixo risco, que são combatidos pelo organismo ou causam lesões menos graves, como verrugas. Entre os tipos de alto risco, os mais comuns são o 16 e 18, que não causam verrugas e respondem por 70% dos casos de câncer cervical.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A detecção do HPV, contudo, não é ameaça para a gravidez; o risco do desenvolvimento da doença é medido por meio de exames como a colposcopia e a biópsia. O primeiro permite ver e localizar lesões no colo do útero, e o segundo é a análise do tecido das lesões.

    A mera presença do vírus tampouco altera o pré-natal . "Só se discute com a paciente o que fazer se for câncer. Dependendo da lesão, a gente espera a gestação acontecer e depois trata", explica Terra.

    O câncer de Brognoli não admitia espera. A metástase nos linfonodos, mais grave, foi identificada antes da lesão primária no colo do útero. Ela fez quimioterapia na gestação, seguida de radioterapia depois do parto.

    Segundo a oncologista Pilar Estevez, o tipo de tratamento depende do estágio do câncer cervical quando detectado. Se for muito inicial, o tratamento é cirúrgico. Se mais avançado, pode ser radioterapia ou quimioterapia.

    Mas em casos de gestação, a radioterapia não pode ser feita, e a quimioterapia, só depois do primeiro trimestre. A ginecologista Márcia Terra acrescenta que o tratamento quimioterápico deve ser interrompido cerca de três semanas antes da data do parto, minimizando possíveis complicações para a criança.

    A ideia de que HPV na gravidez determine uma cesárea é um mito. "O que indica o tipo de parto é a condição obstétrica", explica Terra. Segundo a ginecologista, o crescimento de verrugas genitais causadas pelo vírus pode impedir a descida do bebê pelo canal de parto.

    No caso de Brognoli, a cesariana foi necessária. Segundo Estevez, o tecido comprometido pelo câncer não consegue se dilatar de maneira eficaz. A rigidez pode levar à ruptura do colo uterino.

    Uma das dúvidas de Brognoli era se o vírus poderia afetar o bebê. "Eu tinha indícios de que não era possível a transmissão vertical. Mas a gente quer ter certeza de tudo."

    Em alguns casos, pode haver transmissão durante o parto normal, quando o bebê entra em contato com o trato genital da mãe.

    Ainda assim, segundo a ginecologista e obstetra Silvana Quintana, coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, na maioria dos casos em que o vírus é identificado no recém-nascido, ele se torna indetectável até o sexto mês de vida.

    Em raras ocorrências, a transmissão pode originar papilomatose respiratória recorrente, condição em que lesões semelhantes a verrugas se formam nas vias aéreas da criança.

    Os sintomas podem levar meses ou anos para se manifestar. A doença está associada principalmente aos tipos 6 e 11 do HPV, considerados de baixo risco.

    O pediatra pode fazer a avaliação inicial dos sintomas, devendo encaminhar a criança para um otorrinolaringologista ou especialista em cabeça e pescoço. As lesões podem ser pequenas e restritas à garganta, mas também podem crescer, dificultar a respiração e exigir cirurgias. "É uma doença muito rara, mas relativamente grave", reforça Terra.

    Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar

    Desde 2024, o Ministério da Saúde recomenda que pessoas com papilomatose respiratória recorrente recebam, a partir dos dois anos, três doses da vacina contra o HPV como tratamento complementar às cirurgias.

    Não é possível saber quantas gestantes recebem o diagnóstico de HPV no Brasil. A infecção não integra a lista nacional de notificação compulsória, o que significa que os serviços de saúde não precisam comunicar os casos ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.

    O Ministério da Saúde afirma que essa lacuna deverá começar a ser reduzida com a implementação da Rede de Biologia Molecular para Detecção de HPV. Segundo a pasta, a estrutura permitirá sistematizar os resultados laboratoriais e padronizar a produção de informações.

    Outra ação do ministério envolvendo a infecção é o resgate vacinal de adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que não receberam a vacina contra o HPV na idade recomendada ou que não têm registro da imunização. Iniciada em 2025, a estratégia foi prorrogada até 31 de dezembro de 2026 .

    Os especialistas reforçam que a vacinação, principalmente nos mais jovens, é a melhor forma de prevenção contra o HPV e as doenças associadas ao vírus. "Se uma mulher observar lesões genitais, ela deve procurar um profissional de saúde. É possível tratar essas lesões e dificultar o encontro do bebê com esse vírus", afirma a obstetra Silvana Quintana.

    Hoje, Andressa Brognoli vive com os dois filhos e é acompanhada pelos médicos da sua segunda gestação, que lhe deu Gabriel, 4. Às mulheres que enfrentam situação semelhante, ela aconselha ter uma boa equipe profissional e acreditar na medicina .

    Esta reportagem foi produzida durante o 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha , que teve apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/diagnostico-de-hpv-na-gravidez-assusta-mas-riscos-para-bebe-sao-baixos.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Sala de espera de gestantes no Hospital das Clínicas, em São Paulo - Eduardo Knapp - 27.abr.06/Folhapress · Eduardo Knapp - 27.abr.06/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)