Política

    Diabetes longa afeta mais a recuperação de quem tem covid longa

    Estudo aponta que pacientes com a doença apresentam maior risco de complicações e queda na qualidade de vida

    Poder360
    14 de setembro de 2026 às 08:30
    Diabetes longa afeta mais a recuperação de quem tem covid longa
    Foto: Poder360

    Estudo aponta que pacientes com a doença apresentam maior risco de complicações e queda na qualidade de vida

    Pessoas com diabetes que tiveram covid-19 apresentam recuperação mais lenta, tendem a ter mais complicações associadas à covid longa, pior qualidade de vida e, por isso, precisam de acompanhamento médico mais atento e prolongado. Foi o que mostrou um estudo conduzido na Universidade de São Paulo, que envolveu 870 pessoas acompanhadas por até sete meses após a internação.

    “O diabetes não é apenas um fator de risco para a fase aguda da covid-19, mas também um elemento que prolonga o tempo de recuperação e degrada a qualidade de vida no longo prazo. O estudo deixa evidente a necessidade de uma estrutura de saúde para atender a essa população com diabetes que foi infectada pelo vírus SARS-CoV-2, de modo a evitar que esses sobreviventes fiquem presos em um ciclo de reinternações” , afirma Maria Elizabeth Rossi da Silva, chefe da Unidade de Diabetes do HC-FM-USP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e uma das autoras do estudo publicado na revista Scientific Reports .

    Pessoas com diabetes que tiveram covid-19 apresentam recuperação mais lenta e maior incidência de complicações
    Pessoas com diabetes que tiveram covid-19 apresentam recuperação mais lenta e maior incidência de complicações — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

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    Além de comprovar que pessoas com diabetes demoraram mais tempo para se recuperar da covid-19, a pesquisa constatou um risco maior de complicações cardiovasculares, como infarto e angina, em comparação aos não diabéticos. Além disso, sete meses após a alta hospitalar, o grupo com diabetes demonstrou níveis elevados de fragilidade, maior incidência de quedas e pior qualidade de vida, com dificuldades de mobilidade, incapacidade para atividades diárias e desempenho inferior nos domínios físico e cognitivo.

    O trabalho, que comparou 320 pacientes com diabetes e 550 sem a doença, integra um projeto maior, apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que recrutou mais de 3 mil indivíduos internados no Hospital das Clínicas, entre março e setembro de 2020, período que corresponde à primeira fase da pandemia no Brasil, quando ainda não havia vacinas disponíveis.

    Os participantes passaram por uma avaliação presencial extensa (incluindo exame físico e laboratorial) cerca de sete meses após a alta hospitalar.

    Enquanto 94,3% dos pacientes sem diabetes relataram recuperação plena, esse número caiu para 89,8% entre aqueles com diabetes. “É uma diferença considerável” , diz Silva.

    Como explica a pesquisadora, a infecção pelo SARS-CoV-2 coloca o sistema cardiovascular dos diabéticos sob grande estresse. “A inflamação sistêmica provocada pelo diabetes se soma à toxicidade direta do vírus, criando um cenário em que o coração se torna um dos principais alvos de complicações graves. E o risco aumenta conforme o número de comorbidades do paciente” , afirma.

    Os reflexos desse efeito cascata são amplos. No grupo com diabetes, o vírus comprometeu a mobilidade de forma severa, sendo que 21,1% desses pacientes relataram quedas após a alta, quase o dobro do observado no grupo sem a doença (11,1%).

    “Essa combinação de metabolismo alterado e tempo de internação, que foi maior entre os indivíduos com diabetes [16 dias contra 13], gera um ciclo de perda de massa muscular e vulnerabilidade que dificulta o retorno à autonomia diária” , conta Silva à Agência FAPESP.

    Para a pesquisadora, é preciso compreender essas particularidades metabólicas, bem como as dificuldades socioeconômicas associadas ao diabetes, no atendimento clínico. “O estado inflamatório crônico associado ao diabetes e à obesidade, somado à progressão acelerada de danos cardíacos e funcionais, torna esse grupo mais suscetível a complicações graves. Além disso, o vírus pode afetar diretamente células do pâncreas ou desencadear resistência à insulina, agravando o quadro” , explica.

    Ela também destaca que desigualdades sociais influenciam os desfechos da doença, como baixo acesso a cuidados médicos, estresse, alimentação não saudável e falta de tempo para a prática de atividade física. “As políticas de saúde devem considerar essas particularidades, oferecendo acompanhamento específico para pacientes com diabetes no pós-covid” , defende a cientista.

    Outro achado relevante foi que 7,3% dos participantes não diabéticos desenvolveram a doença após a infecção pelo SARS-CoV-2. Para a pesquisadora, no entanto, embora não se possa descartar o papel direto do vírus na destruição de células do pâncreas, é provável que a covid-19 tenha desmascarado casos preexistentes ou que o quadro inflamatório grave tenha servido como gatilho em pessoas já predispostas.

    “É preciso ter cuidado com essa informação, pois, embora a infecção possa catalisar o surgimento do diabetes, também é possível que a própria situação de pandemia e o isolamento social tenham influenciado em fatores como estresse, má alimentação, sedentarismo e obesidade, que podem desencadear o diabetes” , diz.

    O estudo com os pacientes internados no HC na primeira fase da pandemia continua e os pesquisadores estão analisando os dados coletados três anos após a infecção. “É importante ter esse entendimento de como a covid-19 impacta o diabetes ao longo do tempo” , conclui Silva.

    Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 9 de setembro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

    Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-saude/diabetes-longa-afeta-mais-a-recuperacao-de-quem-tem-covid-longa/.

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    Pessoas com diabetes que tiveram covid-19 apresentam recuperação mais lenta e maior incidência de complicações — Foto: Poder360

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