Devoção à Nossa Senhora influenciou de Lampião a seleção brasileira, diz Luiz Antonio Simas
A devoção a Nossa Senhora está muito bem servida, obrigada. Em "Tantas Marias", seu novo livro pela Record, o escritor e historiador Luiz Antonio Simas fala dos incontáveis títulos de Maria, as chamadas invocações marianas. Leia mais (10/09/2026 - 08h00)

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A devoção a Nossa Senhora está muito bem servida, obrigada. Em "Tantas Marias", seu novo livro pela Record, o escritor e historiador Luiz Antonio Simas fala dos incontáveis títulos de Maria, as chamadas invocações marianas.

Só para ficar em alguns dos mais populares no Brasil: tem a da Penha, das Dores, do Rosário, do Carmo e Nazinha, figura central no Círio de Nazaré, o maior ato religioso da amazônia.
Todas elas gigantes, mas só uma é a padroeira nacional. O que Nossa Senhora Aparecida tem que outras representações da Virgem Maria não para ganhar tanto destaque no imaginário brasileiro?
Simas já chega lá, mas antes não vai escapar de discutir a celeuma em torno de Aparecida e do feriado desta segunda (12), dedicado a ela. Ele lembra bem qual foi o dia em que acabou de escrever seu livro porque era Dia de São João, 24 de junho. E aí, três meses depois, Aparecida aparece com tudo na campanha eleitoral , após Flávio Bolsonaro ( PL ) ser acusado, sem evidências, de querer ressuscitar um projeto de lei arquivado 18 anos atrás, que propunha revogar da santa o posto de padroeira.

O autor confessa que ficou "um pouco surpreso" com a polêmica requentada, que esbugalhou "a disputa por um certo mercado da fé que está se desenhando há muito tempo no Brasil", contrapondo setores evangélicos e Igreja Católica, diz.
Enquanto grupos pentecostais defendem que não se deve adorar ninguém além de Deus, os católicos sustentam a distinção teológica entre adoração (devida a Deus) e veneração (prestada a Nossa Senhora e santos em geral).
Se o tema ressurge num pleito sem debates maiores sobre projetos para o país, em meio a um "tiroteio para saber quem é que desgasta mais o outro", é justo dizer que movimentos para destituir Aparecida existem, sim, e não é de hoje, afirma Simas.

Ou não teríamos episódios como o chute dado numa imagem da santa por um bispo da Universal, em 1995, ou falas como a de JB Carvalho , líder de uma igreja frequentada por Flávio em Brasília —JB já questionou a legalidade do feriado de 12 de outubro e disse que "Deus odeia o culto à Rainha dos Céus".
Mas por que, afinal, Aparecida é tão popular no país?
O destaque institucional consolidou-se em 1930, quando o papa Pio 11 oficializou Nossa Senhora Aparecida como "rainha e padroeira do Brasil". Antes dela veio São Pedro de Alcântara, também padroeiro nacional, vinculado ao imaginário da monarquia brasileira —dom Pedro 1º e dom Pedro 2º, pai e filho, chamavam-se Pedro de Alcântara justamente por causa da devoção da família real a esse santo.

Não dá para desconsiderar que o culto a Aparecida vai crescendo "num momento em que você está tentando construir uma ideia de identidade nacional muito fincada no imaginário do Sudeste", diz o autor.
Em 1717, três pescadores recolheram do Paraíba do Sul, rio que corta a região no interior de São Paulo, primeiro o corpo e depois a cabeça de uma imagem de madeira de Nossa Senhora da Conceição. Reza a lenda que testemunharam em seguida uma pesca milagrosamente abundante.
Aqui entra o componente racial. Conceição, retratada como branca, emergiu enegrecida na rede de pesca. "Os cientistas debatiam para saber por que ela ficou negra: se foi a fuligem, se foi o lodo do rio."

Seja qual for o motivo, o povo brasileiro a acolheu como uma "mãe preta", identificação fundamental para a construção do seu culto entre a população negra, os trabalhadores escravizados e as classes populares, segundo o historiador.
O cristianismo popular no Brasil colonial, por sinal, não seria o que foi sem irmandades como a de Nossa Senhora da Boa Morte, vinculadas à população escravizada. A Igreja ainda tinha uma estrutura frágil naqueles tempos, o que favoreceu a elaboração de uma fé à margem da hierarquia católica rígida.
Simas já falou de política e já falou de religião, então às favas com o ditado popular que recomenda não discutir esses dois temas aí mais o futebol . Ele lembra como Aparecida foi parar também no gramado.

A final da Copa do Mundo de 1958 ilustra bem esse entroncamento. A seleção brasileira perdeu no sorteio o direito de jogar de amarelo a partidadia.
Como a camisa branca era tida como sinônimo de azar após a derrota de 1950, vieram camisas azuis na véspera. Jogadores foram acalmados com a seguinte justificativa: era a mesma cor do manto de Aparecida, e a santa entraria em campo com eles. O Brasil venceu a Suécia por 5 a 2 para conquistar seu primeiro título mundial.
"Esses encruzilhamentos todos marcam a cultura brasileira de uma forma bastante complexa", afirma Simas, que aponta como o apego a Aparecida no país transcende os ritos católicos. Virou patrimônio brasileiro, tema do cancioneiro popular (como "Romaria", de Renato Teixeira), da poesia modernista (um poema de Oswald de Andrade a compara ao Pão de Açúcar) e de enredos carnavalescos.

Tudo bem que Aparecida é espaçosa, mas onde cabe uma Maria, cabem várias. Pois Simas nutre seu livro com um saboroso apanhado mariano.
A tradicional Festa de Nossa Senhora da Penha, no Rio, unia missas, capoeira e rodas de samba de mães de santo como Tia Ciata. O poeta Olavo Bilac chegou a defender a proibição da festa, que para ele não passava de uma "escandalosa e selvagem romaria".
O autor também evoca Lampião , devoto fervoroso de Nossa Senhora do Carmo. Ele se recusava a fazer rituais de fechamento de corpo com o que um colega de cangaço chamava de "diabos dóceis". Temente a Deus, não queria dever favores a Satanás.
No dia de sua morte, estava sem o escapulário da sua santinha. A literatura de cordel imortalizou o burburinho popular da época: sem essa proteção, Lampião foi impedido de entrar no céu por São Pedro e barrado no inferno pelo diabo.
Há referências anedóticas, como o bispo que, em 1937, mandou retirar de uma igreja de Monte Sião (MG) a imagem de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. Considerou a estátua "excessivamente feminina e sensual", por delinear demais o busto e a cintura de Maria.
Removeram a santa, e uma seca devastadora atingiu a cidade por dois anos. Chovia normalmente nos municípios vizinhos. A população, furiosa, exigiu o retorno da Milagrosa. Um temporal daqueles desabou durante a procissão para trazer de volta a santa. Chuva de bênção.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/devocao-a-nossa-senhora-influenciou-de-lampiao-a-selecao-brasileira-diz-luiz-antonio-simas.shtml.

Fiel segura imagem de Nossa Senhora Aparecida em celebração no Santuário Nacional, no interior de São Paulo - Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress · Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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