Devemos celebrar o recorde de mulheres eleitas pela direita?
A eleição deste ano bateu recordes de presença feminina no Legislativo . A Câmara dos Deputados terá 109 mulheres, mais de 20% das cadeiras pela primeira vez. Para o Senado , foram eleitas 12; o recorde anterior era de 8, em 2002. Mas o avanço tem sido recebido com desconfiança, porque parte dele veio da direita, sobretudo do PL . Esquerda e direita mais centro elegeram praticamente o mesmo número de deputadas. Leia mais (10/12/2026 - 15h30)

Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate
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A eleição deste ano bateu recordes de presença feminina no Legislativo . A Câmara dos Deputados terá 109 mulheres, mais de 20% das cadeiras pela primeira vez. Para o Senado , foram eleitas 12; o recorde anterior era de 8, em 2002. Mas o avanço tem sido recebido com desconfiança, porque parte dele veio da direita, sobretudo do PL . Esquerda e direita mais centro elegeram praticamente o mesmo número de deputadas.
Em conversa comigo, a cientista política Malu Gatto , da University College London, explicou por que esse crescimento divide opiniões. Há temas que ela chama de dogmáticos: direitos reprodutivos, orientação sexual, identidade de gênero. Neles, feministas e mulheres que rejeitam o feminismo estão em lados opostos. Mais deputadas conservadoras significam mais votos para barrar propostas feministas.
Um exemplo é Eduarda Campopiano (PL), deputada estadual mais votada de São Paulo, com quase 2 milhões de votos e o apoio do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Ela se apresenta como antifeminista. Uma de suas propostas é que a polícia investigue e feche clínicas que fazem abortos ilegais .

Mas Malu também aponta temas em que a colaboração é mais provável. Um deles é a própria sub-representação: mulheres de todo o espectro político enfrentam dificuldades para entrar e permanecer na política.
Outro é a violência contra a mulher. Mesmo aí, porém, há divergência sobre o caminho. As parlamentares de direita defendem penas maiores para agressores; as de esquerda desconfiam do punitivismo, a aposta em mais prisão como solução.
Uma bancada feminina maior pode, portanto, fazer alguns temas avançarem e travar outros. Ainda assim, Malu aponta algo interessante no modo como as mulheres de direita chegaram lá.

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A partir de 2022, Michelle Bolsonaro estruturou o PL Mulher, braço feminino do partido: criou processos para recrutar filiadas, lançar candidatas e acompanhar sua atuação. O modelo tem um lado conservador. Reforça estereótipos de gênero ao tratar a mulher como mais preparada para os assuntos ligados ao cuidado.
Mas também inova na forma. Os encontros acontecem em casa, em grupos de 12 a 15 mulheres, num formato que lembra as células das igrejas evangélicas, os pequenos grupos de fiéis que se reúnem durante a semana na casa de um deles para orar e fortalecer seus vínculos.
A política se encaixa na rotina da mulher que trabalha e cuida da família, em vez de exigir que ela vá às reuniões do partido, como fazem os homens. Malu diz que esse modelo ainda precisa ser mais estudado. Mas ele já ajuda a explicar por que mais mulheres se elegeram.
Antes, quem votava na direita, homem ou mulher, encontrava quase só candidatos homens. Agora, as eleitoras conservadoras têm mulheres em quem votar. E a lição do PL Mulher vale para além da direita: uma política que se adapta à vida das mulheres, em vez de exigir que elas se adaptem a ela, pode atrair as que têm menos tempo, de qualquer campo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliano-spyer/2026/10/devemos-celebrar-o-recorde-de-mulheres-eleitas-pela-direita.shtml.

Eduarda Campopiano, a deputada estadual mais votada de São Paulo, registrou em redes sociais o voto em Campinas - Divulgação/Instagram · Divulgação/Instagram — Foto: Folha de S.Paulo
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