Desistência de Flávio serviu de pretexto para Globo cancelar debate
Todo mundo sempre disse que os debates são um instrumento de esclarecimento do eleitor e uma ferramenta essencial do sistema democrático. Não é bem assim, e todos nós ?jornalistas, analistas políticos, donos de veículos de comunicação e instituições que garantem as bases da República, como o STF e o TSE ? sabemos disso. Leia mais (10/02/2026 - 19h49)

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Jornalista e crítico de TV, é mestre em sociologia pela USP e autor dos livros 'Topa Tudo por Dinheiro' e 'O Homem do Sapato Branco'
Todo mundo sempre disse que os debates são um instrumento de esclarecimento do eleitor e uma ferramenta essencial do sistema democrático. Não é bem assim, e todos nós –jornalistas, analistas políticos, donos de veículos de comunicação e instituições que garantem as bases da República, como o STF e o TSE – sabemos disso.
A verdade é que, desde 1989, ano da primeira eleição presidencial depois de 21 anos de ditadura militar , temos consciência de que debates eleitorais são antes de tudo parte do armamento utilizado como estratégia eleitoral dos candidatos.

O resumo histórico que se segue é bem conhecido, mas vale a pena lembrar.
Em 1989, Collor não compareceu a nenhum dos seis encontros antes do primeiro turno e foi ajudado escandalosamente pela Globo no segundo debate de que participou, dias antes da eleição, tanto na preparação para o evento quanto na edição exibida pela emissora.
Fernando Henrique Cardoso foi apenas a um dos três debates realizados em 1994, abrindo mão dos demais após assumir a liderança das pesquisas. Venceu a eleição no primeiro turno. Em 1998, FHC não participou de debates e, novamente, venceu a eleição no primeiro turno.

Favorito em 2002, Lula participou de dois debates no primeiro turno e aceitou debater apenas uma vez com José Serra no segundo turno, abrindo mão de outros dois convites para eventos do gênero.
Em 2006, com folga nas pesquisas, Lula não compareceu a três debates no primeiro turno. No da Globo, a cadeira vazia do candidato à reeleição foi exibida durante o encontro. Lula debateu com Alckmin no segundo turno na Band e na Globo.
Em 2010, possivelmente buscando tornar mais conhecida sua imagem, Dilma Rousseff participou de seis debates no primeiro turno e de quatro no segundo. Em 2014, novamente, Dilma apareceu fartamente em debates –cinco no primeiro turno, quatro no segundo.

Jair Bolsonaro , em 2018, participou de dois debates no primeiro turno. Após a facada que sofreu, em 6 de setembro, não participou mais de nenhum. Favorito nas pesquisas do segundo turno, cancelou sua participação no debate da Globo e deu, no mesmo horário, uma entrevista à Record. Na ocasião, as campanhas de Fernando Haddad , Henrique Meirelles e Guilherme Boulos acionaram o TSE, sem sucesso, pedindo que a entrevista não fosse ao ar.
Em 2022, na acirradíssima disputa entre Lula e Bolsonaro, os dois candidatos estimularam a realização de debates em pool no primeiro turno –foram apenas três. No segundo turno, com vantagens nas pesquisas, Lula não participou de dois dos quatro debates organizados; Bolsonaro esteve em todos.
O que aconteceu em 2026 não difere muito do cenário resumido acima. Candidato à reeleição, confrontado por cinco candidatos de oposição no espectro da direita e da extrema direita, Lula não viu vantagens em participar de debates e não foi a nenhum. Flávio Bolsonaro ( PL ) também não foi.

Ao desistir de participar do debate da Globo, na noite de 1º de outubro, Flávio perdeu a oportunidade de solar num evento no horário nobre da maior emissora do país. O candidato do PL desistiu poucas horas antes do início do evento sob a justificativa de que a Justiça impôs restrições ao debate. E a desistência de Flávio serviu de pretexto para que a Globo cancelasse o evento.
A decisão do ministro Gilmar Mendes de exigir que a Globo convidasse Renan Santos (Missão) pode ser questionada, mas não me parece que tenha sido a razão que levou Flávio a desistir. Diversos analistas políticos, da direita à esquerda, afirmaram que ele temia o confronto com Santos no debate.
Já a decisão da ministra Estela Aranha , do TSE, de proibir a Globo de exibir o púlpito vazio reservado a Lula, bem como perguntas dirigidas ao candidato ausente, também é questionável, mas não é unanimidade entre os juristas. Ninguém é obrigado a participar de debates eleitorais nem deveria ser punido por causa disso.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/desistencia-de-flavio-serviu-de-pretexto-para-globo-cancelar-debate.shtml.

Púlpito em estúdio da TV Globo, no Rio de Janeiro, onde seria realizado o debate dos candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026 - Eduardo Anizelli - 1º.out.26/Folhapress · Eduardo Anizelli - 1º.out.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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