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    Desastre no Nepal expõe perigo crescente no Himalaia

    Especialista analisa o que a tragédia no Nepal revela sobre os efeitos do aquecimento das montanhas e das mudanças climáticas O post Desastre no Nepal expõe perigo crescente no Himalaia apareceu primeiro em Olhar Digital .

    Olhar Digital
    27 de agosto de 2026 às 15:02
    Desastre no Nepal expõe perigo crescente no Himalaia
    Foto: Olhar Digital

    Uma inundação repentina atingiu vilas próximas à fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China , nesta quarta-feira (26), conforme noticiado pelo Olhar Digital . A força da água destruiu casas, arrastou veículos e derrubou uma ponte sobre o rio Bhote Koshi.

    De acordo com a agência de notícias Reuters , as autoridades mobilizaram policiais, militares e helicópteros para as operações de busca e resgate. Mais de 350 corpos já foram retirados das áreas atingidas, mas a destruição de estradas e pontes, somada ao acúmulo de lama e detritos, dificulta o trabalho, e cerca de mil pessoas seguem desaparecidas.

    O distrito montanhoso de Rasuwa está entre as regiões mais afetadas. Segundo testemunhas, a água destruiu assentamentos inteiros em questão de minutos. Imagens exibidas pela televisão e na internet mostram casas danificadas, carros levados pela correnteza e uma ponte metálica sendo arrastada pelo rio.

    Flavia Correia
    Flavia Correia — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    Além dos moradores locais, centenas de turistas e peregrinos estrangeiros continuam sendo procurados pelas equipes de salvamento que atuam de forma incansável na região afetada.

    Os primeiros relatos de autoridades nepalesas e do Serviço Geológico Americano indicaram a possibilidade de um terremoto de magnitude 4.4 ter provocado o colapso do gelo. No entanto, os órgãos de monitoramento retificaram a informação. O registro sísmico não foi um terremoto tradicional, mas sim a vibração provocada pelo próprio impacto do desprendimento da geleira contra o solo.

    Em participação no programa Olhar Digital News , Waldemir Lima dos Santos, professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), explicou que o deslocamento do gelo gerou uma dissipação de onda sísmica e desencadeou um movimento violento de detritos. “Foi mesmo em razão de um deslocamento de geleiras, o que, nessa região do Himalaia, hoje está sendo bastante comum”. Essa grande massa de lama, pedras e água desceu velozmente pelas vertentes das montanhas, engolindo tudo ao seu redor.

    Enchente destruiu vilas, arrastou carros e uma ponte no Nepal. Autoridades fazem buscas enquanto a causa do desastre é investigada. Região já havia sido afetada em 2025 por outra inundação (foto). – Crédito: AP Tolang/Shutterstock
    Enchente destruiu vilas, arrastou carros e uma ponte no Nepal. Autoridades fazem buscas enquanto a causa do desastre é investigada. Região já havia sido afetada em 2025 por outra inundação (foto). – Crédito: AP Tolang/Shutterstock — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    A ocorrência desses fenômenos extremos relaciona-se diretamente com o aquecimento acelerado das montanhas e com fatores climáticos globais. O aumento progressivo da temperatura global derrete as estruturas congeladas da região, formando acumuladores de água sobre o gelo. Esse volume infiltra-se na estrutura do relevo, desestabilizando o terreno e provocando o deslizamento gradual das encostas, processo que costuma ser fortemente intensificado pela atuação do fenômeno climático El Niño .

    Segundo Santos, a influência do El Niño altera o padrão normal dos ventos conhecidos como monções e reduz o volume de chuvas do verão. Esse cenário favorece o acúmulo perigoso de reservatórios hídricos no topo da superfície congelada. “Já sabemos que a região do Nepal e a região do Himalaia, em geral, estão aquecendo rapidamente. A região abriga milhares de geleiras que estão derretendo e se desestabilizando”.

    O professor destacou que a dinâmica observada no território asiático apresenta semelhanças com catástrofes registradas frequentemente no Brasil, especialmente nas regiões serranas do Sudeste. A combinação natural entre um relevo inclinado e a presença de assentamentos humanos em locais desfavoráveis cria um cenário perfeito para graves perdas materiais e humanas. Quando as enchentes descem com força total, as moradias situadas em fundos de vale recebem todo o impacto do fluxo acumulado.

    Uma inundação repentina deixou destruição no Nepal e dificultou o trabalho das equipes de resgate nas áreas atingidas. – Crédito: Reprodução/YouTube
    Uma inundação repentina deixou destruição no Nepal e dificultou o trabalho das equipes de resgate nas áreas atingidas. – Crédito: Reprodução/YouTube — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    Ele ressaltou que a presença de populações em moradias vulneráveis é o fator chave para transformar um evento da natureza em uma grande tragédia social. “A própria configuração do relevo dá suporte para que isso aconteça: temos um relevo bastante acidentado, uma combinação de declividade muito forte e a presença das pessoas, que é a configuração necessária para que haja desastre. Só há desastre onde há população”.

    A vulnerabilidade das famílias do Nepal é consideravelmente agravada pelas difíceis condições socioeconômicas enfrentadas pelo país. Sendo um dos países menos desenvolvidos de todo o continente asiático, grande parte de seus moradores sobrevive da agricultura informal ou vive abaixo da linha da pobreza. Essa grave limitação financeira obriga milhares de cidadãos a habitar encostas íngremes e áreas inóspitas, ampliando brutalmente os riscos durante a ocorrência de enchentes repentinas nas montanhas.

    Diante do risco iminente de novos episódios de deslizamento e enchentes nas próximas horas, autoridades locais orientaram moradores próximos ao rio Bhote Koshi a abandonar suas casas imediatamente e procurar áreas mais elevadas. Especialistas defendem a criação urgente de sistemas de monitoramento e alerta para salvar vidas, além de políticas públicas de habitação que permitam a realocação definitiva e segura dessas populações para longe dos canais de escoamento.

    O geógrafo Waldemir Lima dos Santos, professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), explicou ao Olhar Digital News o que aconteceu no Nepal – Crédito: Olhar Digital/YouTube
    O geógrafo Waldemir Lima dos Santos, professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), explicou ao Olhar Digital News o que aconteceu no Nepal – Crédito: Olhar Digital/YouTube — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    Santos lembra que o Brasil já adotou iniciativas preventivas semelhantes e bem-sucedidas em estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais após episódios de forte destruição ambiental.

    Para o especialista, a criação de alertas e a mudança de endereço das comunidades mais expostas são passos indispensáveis. “Infelizmente, é preciso retirar as pessoas das áreas com maior probabilidade de serem atingidas e levá-las para as áreas mais altas”.

    Ele reconhece, porém, que executar essa remoção esbarra na extrema vulnerabilidade socioeconômica e na informalidade em que vive a população nepalesa. “Isso é muito difícil, porque a gente está falando de um país em que as condições de moradia não são muito boas. Uma população que vive, em sua grande maioria, na informalidade.”

    vista de paisagem mostrando as consequências da inundação de Bhotekoshi em Rasuwa, Nepal
    vista de paisagem mostrando as consequências da inundação de Bhotekoshi em Rasuwa, Nepal — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    Essa tragédia reforça que o monitoramento de geleiras e a implantação de redes de alerta precoce são urgências operacionais na região do Himalaia. Enquanto governos locais e órgãos internacionais contabilizam os danos socioeconômicos e buscam os desaparecidos, o evento consolida a necessidade de integrar dados geológicos a planos urbanos eficazes para impedir que o avanço da ocupação sobre leitos fluviais continue multiplicando o saldo de vítimas.

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    inundação fronteira entre Nepal e Tibet
    inundação fronteira entre Nepal e Tibet — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital
    waldemir lima
    waldemir lima — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    Publicado originalmente por Olhar Digital. Leia a matéria completa em https://olhardigital.com.br/2026/08/27/ciencia-e-espaco/desastre-no-nepal-expoe-perigo-crescente-no-himalaia/.

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