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    Depois do 11 de Setembro, Washington confundiu o desejável com o possível

    Nos 25 anos dos ataques terroristas às Torres Gêmeas , decidi visitar a Acrópole, em Atenas . Escolha bizarra? Claro que é. Mas há algo nas ruínas que fala conosco sobre as nossas ruínas. Leia mais (09/11/2026 - 14h30)

    Folha de S.Paulo
    11 de setembro de 2026 às 17:30
    Depois do 11 de Setembro, Washington confundiu o desejável com o possível
    Foto: Folha de S.Paulo

    Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa

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    O ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001 - Sean Adair/Reuters · Sean Adair/Reuters
    O ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001 - Sean Adair/Reuters · Sean Adair/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nos 25 anos dos ataques terroristas às Torres Gêmeas , decidi visitar a Acrópole, em Atenas . Escolha bizarra? Claro que é. Mas há algo nas ruínas que fala conosco sobre as nossas ruínas.

    A Acrópole, com o seu Partenon , é o testemunho da glória de Atenas depois da vitória sobre os persas. Glória militar, mas também cultural e política. Ainda hoje o melhor lugar para contemplar a Acrópole é o Pnyx, onde a "ekklesia" ateniense se reunia para discutir e votar os assuntos da cidade —um pedaço de pedra nua, sem sombra nem bilheteria, para onde quase ninguém sobe. Só masoquistas como eu.

    Mas o triunfo de Atenas rapidamente se converteu em hegemonia. A Liga de Delos, criada originalmente contra a ameaça persa, permitiu a Atenas expandir a sua influência "unipolar" por toda a Grécia. Essa ambição, segundo Tucídides, levaria a uma nova guerra —contra Esparta— da qual Atenas saiu derrotada. Para uma testemunha do 11 de Setembro , a história é familiar porque a sequência é familiar: vitória, confiança, excesso. Resta saber se será ruína também.

    25 anos dos atentados de 11 de Setembro
    25 anos dos atentados de 11 de Setembro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Tal como Atenas no século 5º a.C., os Estados Unidos emergiram da última década do século 20 como os vencedores da história. O comunismo tinha sido derrotado e o "espírito do tempo" apontava no mesmo sentido: o triunfo da democracia liberal e da economia de mercado nos quatro cantos do globo.

    Esse otimismo não esmoreceu com os atentados terroristas. Pelo contrário: foram o pretexto para uma cruzada democrática no Oriente Médio —primeiro o Afeganistão, depois o Iraque.

    Mas não só: 2001 não foi apenas o ano do "horrorismo", como lhe chamou Martin Amis . Foi também o momento em que a China entrou formalmente na Organização Mundial do Comércio, porque o mesmo otimismo delirante acreditava que a prosperidade de um país autocrático traria, mais cedo ou mais tarde, a abertura política. Bastava esperar, o dinheiro faria o resto.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Hoje sabemos o preço dessa espera. O Talibã está de volta ao comando no Afeganistão —e, segundo o The New York Times, a al-Qaeda continua a encontrar ali abrigo . A China, sob Xi Jinping, enriqueceu, sim. A liberdade, essa, não acompanhou a subida do PIB.

    Atenas acreditou que a sua glória e influência deveriam ser o modelo de todo o mundo grego, para horror da oligarquia espartana. Os Estados Unidos, sobre as ruínas da União Soviética, acreditaram, com a mesma inocência armada, que a democracia liberal e o capitalismo eram a única resposta para todos os males do mundo.

    Nos dois casos, o sucesso diluiu a distinção entre o que é desejável e o que é possível. É a confusão mais cara que um império pode cometer.

    Caminho pelos vestígios da antiga assembleia ateniense e, do lugar do orador, que ainda hoje está lá, lanço um último olhar ao Partenon que se ergue à distância, dourado pela luz do fim da tarde.

    E, para não ceder de todo ao pessimismo, recordo que a história de Atenas não acabou com a derrota diante de Esparta. Depois de um curto período tirânico, a democracia foi restaurada e a vitalidade cultural da cidade —com Platão e Aristóteles como cabeças-de-cartaz— conheceu um novo século prodigioso. Atenas era, afinal, maior do que a sua própria cegueira imperial.

    Talvez essa seja a grande lição da história: depois do 11 de Setembro , o Oriente Médio não foi democratizado. A China também não. A ambição liberal mostrou os seus limites.

    Só me resta esperar que, perdidas as ilusões e passada esta ansiedade pós-imperial, os Estados Unidos encontrem o caminho de volta a Ítaca. Se é que ainda sabem onde ela fica.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2026/09/depois-do-11-de-setembro-washington-confundiu-o-desejavel-com-o-possivel.shtml.

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    O ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001 - Sean Adair/Reuters · Sean Adair/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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