Delegados da PF assumem protagonismo em altos escalões da Justiça
No último dia 3, o ministro Gilmar Mendes propôs ao colega Edson Fachin , presidente do Supremo Tribunal Federal ( STF ), a proibição de que delegados da Polícia Federal atuassem em gabinetes dos magistrados da corte. Leia mais (09/08/2026 - 12h37)

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Cientista político e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP
No último dia 3, o ministro Gilmar Mendes propôs ao colega Edson Fachin , presidente do Supremo Tribunal Federal ( STF ), a proibição de que delegados da Polícia Federal atuassem em gabinetes dos magistrados da corte.
A normativa foi sugerida no contexto do escândalo do Banco Master e da composição do grupo de assessores de Alexandre de Moraes e André Mendonça , ambos com delegados federais lotados em seus gabinetes. Dois dias depois, Gilmar chegou a formalizar uma proposta, incluindo na proibição, além de membros da PF, integrantes das Forças Armadas e de outras forças policiais.

Mas por que delegados da Polícia Federal estão sendo chamados para atuarem como assessores em gabinetes de ministros?
Dados levantados em minha tese de doutorado evidenciam que pelo menos desde 2013 esses profissionais vêm assumindo diversas funções em diferentes instâncias do Poder Judiciário —nos Tribunais Regionais Federais, no Conselho da Justiça Federal, no Conselho Nacional de Justiça, no Tribunal Superior Eleitoral, no Superior Tribunal de Justiça e, é claro, no Supremo Tribunal Federal.
O estudo captou 51 empréstimos de delegados federais ao Poder Judiciário no período de dez anos (2013-22). Em 2013, somente dois delegados foram emprestados a esses órgãos. Em 2016, há uma inflexão, com um incremento para nove empréstimos, o que se manteve nos anos seguintes até uma leve queda em 2022, último ano da análise.

No entanto, a principal mudança não vem dos números, mas sim dos cargos que esses delegados passaram a ocupar nos tribunais: se por um longo período eles se dedicaram às funções de secretários, assessores e coordenadores da segurança dos tribunais, foi a partir de 2018 que passaram a ser emprestados para assumir funções de assessores em gabinetes de ministros —primeiro no STJ e, a partir de 2020, no STF. Essa transformação ocorreu no mesmo período em que novos arranjos se consolidaram na política nacional, entre eles o novo protagonismo da PF em operações anticorrupção após sua atuação na Lava Jato bem como o aumento de incursões de policiais na política burocrática e eleitoral.
Além desses fatores mais conjunturais, a presença de delegados federais em gabinetes de ministros talvez esteja relacionada ao seu "know-how" da linguagem policialesca e investigativa, tão marcante no funcionamento da Justiça brasileira e cada vez mais persuasiva nas negociações políticas do alto escalão.
O seu conhecimento sobre a burocracia interna da corporação e as interlocuções que, possivelmente, possui junto à sua classe de origem, são outros fatores que também podem ser considerados. O que resta saber, e somente o tempo dirá, é se essa expertise dos delegados, baseada em lógica investigativa e persecutória, atuará como reforço da Constituição Federal e, em última instância, da democracia brasileira, ou como mais um instrumento a serviço das lutas palacianas.
O afastamento nas últimas horas do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues , por decisão do ministro André Mendonça, reforça essa percepção de que tanto no caso Master quanto no cotidiano da política nacional, a PF e seus delegados já não são mais atores coadjuvantes e sim protagonistas.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/delegados-da-pf-assumem-protagonismo-em-altos-escaloes-da-justica.shtml.

O delegado Andrei Rodrigues, que foi afastado do cargo de diretor-geral da Polícia Federal - Adriano Machado - 3.jun.2026/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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