Defesa da democracia precisa estar no cotidiano de quem financia o bem comum
Pela primeira vez em mais de duas décadas, há no mundo mais governos autocráticos do que democráticos, conforme o Relatório Global de Democracia 2026 do V-Dem Institute (Varieties of Democracy Institute). No Brasil, os riscos de autocratização e ataque às instituições têm sido frequentes nos últimos anos: um alerta de que a democracia não pode ser tratada como fato consolidado. Leia mais (10/02/2026 - 15h13)

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Cientista político e secretário-geral do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas)
Coordenador de Relações Internacionais e Políticas Públicas do Gife
Pela primeira vez em mais de duas décadas, há no mundo mais governos autocráticos do que democráticos, conforme o Relatório Global de Democracia 2026 do V-Dem Institute (Varieties of Democracy Institute). No Brasil, os riscos de autocratização e ataque às instituições têm sido frequentes nos últimos anos: um alerta de que a democracia não pode ser tratada como fato consolidado.

Nesse contexto, o campo da filantropia institucionalizada no país precisa se perguntar qual é o seu lugar. A resposta repousa na história: o ISP (Investimento Social Privado) brasileiro é fruto da própria redemocratização.
A reabertura política e a Constituição de 1988 permitiram vicejar iniciativas de fortalecimento da sociedade civil e ações coordenadas para a redução de desigualdades no país.
Nossa filantropia floresceu e amadureceu nesse mesmo ambiente. Em outras palavras, a filantropia brasileira nasceu com o DNA democrático.

É no regime democrático que estão assegurados a liberdade de associação e de expressão , a liberalidade de defesa de causas, a participação social e o controle cidadão sobre as políticas públicas.
Um instituto que apoia a educação, uma fundação que financia pesquisa em saúde, uma empresa que investe em desenvolvimento territorial: todos dependem desse ambiente para operar.
Organizações filantrópicas e lideranças sociais são profundamente impactadas pelo avanço antidemocrático . Quando dados públicos deixam de existir ou o espaço da sociedade civil se estreita, não é uma causa que perde força, são todas.
A democracia não deve, então, ser apenas uma pausa isolada, facultativa ou acessória no cotidiano da filantropia —ela é a própria infraestrutura sobre a qual todas as demais agendas do investimento social se apoiam e prosperam.
Desigualdades sociais, regionais, raciais e de gênero ainda limitam a participação de amplas parcelas da população na vida democrática. Uma sociedade civil viva, forte, plural e representada em toda a sua diversidade nos espaços institucionais é parte inseparável de uma democracia saudável.
E uma sociedade civil plural é também mais resiliente. Ela distribui, entre os muitos atores, a capacidade de responder a crises. Cabe à filantropia sustentar e fortalecer essa pluralidade, apoiando organizações de diferentes regiões, agendas e portes.
Assim, a busca por mais justiça social —condição indispensável para uma democracia sólida— é a centralidade da atuação do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) junto às instituições que compõem o campo filantrópico e de ISP no Brasil, em causas e territórios diversos e plurais.
Essa é uma das mensagens centrais da publicação "Filantropia e Democracia – Reflexão-Ação", que o Gife lançará nos próximos dias. Tal compromisso democrático não deve se confundir com uma disputa partidária, simplesmente.
Defender a democracia é defender que a divergência de visões para o país aconteça, mas sempre dentro das regras, com respeito às instituições e sem violência.
Passa também por comunicar seus efeitos concretos, entendendo-a como a única forma possível de garantia de liberdade e acesso à informação, de melhoria na qualidade dos serviços públicos e de espaço para a formulação de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades.
A filantropia, portanto, só pode exercer seu potencial de catalisar iniciativas , conectar setores e fortalecer agendas e territórios em um ambiente democrático. Isso exige visão de longo prazo. Confiança, participação, informação de qualidade e educação cidadã levam anos para serem construídas e se desgastam quando deixam de receber atenção.
Para a filantropia, ser pró-democracia é muito mais do que levantar esta bandeira de quatro em quatro anos, é considerar essa máxima como parte inegociável de um projeto de país.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/10/defesa-da-democracia-precisa-estar-no-cotidiano-de-quem-financia-o-bem-comum.shtml.

Colagem de um lambe na rua da Consolação sobre o Pacto pela Democracia em referência aos 60 anos do golpe militar - Ronny Santos - 30.mar.2024/Folhapress · Ronny Santos - 30.mar.2024/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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