Brasil

    Defesa da democracia precisa estar no cotidiano de quem financia o bem comum

    Pela primeira vez em mais de duas décadas, há no mundo mais governos autocráticos do que democráticos, conforme o Relatório Global de Democracia 2026 do V-Dem Institute (Varieties of Democracy Institute). No Brasil, os riscos de autocratização e ataque às instituições têm sido frequentes nos últimos anos: um alerta de que a democracia não pode ser tratada como fato consolidado. Leia mais (10/02/2026 - 15h13)

    Folha de S.Paulo
    2 de outubro de 2026 às 18:13
    Defesa da democracia precisa estar no cotidiano de quem financia o bem comum
    Mural verde com texto em branco e amarelo que diz 'Sem memória não há futuro. Faça a democracia forte'. Imagem em azul mostra pessoas usando capacetes e interagindo com outra pessoa. Duas pessoas caminham à direita do mural, uma com chapéu — Foto: Folha de S.Paulo

    Espaço de debate para temas emergentes da agenda socioambiental

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Colagem de um lambe na rua da Consolação sobre o Pacto pela Democracia em referência aos 60 anos do golpe militar - Ronny Santos - 30.mar.2024/Folhapress · Ronny Santos - 30.mar.2024/Folhapress
    Colagem de um lambe na rua da Consolação sobre o Pacto pela Democracia em referência aos 60 anos do golpe militar - Ronny Santos - 30.mar.2024/Folhapress · Ronny Santos - 30.mar.2024/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Cientista político e secretário-geral do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas)

    Coordenador de Relações Internacionais e Políticas Públicas do Gife

    Pela primeira vez em mais de duas décadas, há no mundo mais governos autocráticos do que democráticos, conforme o Relatório Global de Democracia 2026 do V-Dem Institute (Varieties of Democracy Institute). No Brasil, os riscos de autocratização e ataque às instituições têm sido frequentes nos últimos anos: um alerta de que a democracia não pode ser tratada como fato consolidado.

    Veja imagens da exposição 'Sobre Nós - 60 anos de Democracia no Brasil'
    Veja imagens da exposição 'Sobre Nós - 60 anos de Democracia no Brasil' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nesse contexto, o campo da filantropia institucionalizada no país precisa se perguntar qual é o seu lugar. A resposta repousa na história: o ISP (Investimento Social Privado) brasileiro é fruto da própria redemocratização.

    A reabertura política e a Constituição de 1988 permitiram vicejar iniciativas de fortalecimento da sociedade civil e ações coordenadas para a redução de desigualdades no país.

    Nossa filantropia floresceu e amadureceu nesse mesmo ambiente. Em outras palavras, a filantropia brasileira nasceu com o DNA democrático.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É no regime democrático que estão assegurados a liberdade de associação e de expressão , a liberalidade de defesa de causas, a participação social e o controle cidadão sobre as políticas públicas.

    Um instituto que apoia a educação, uma fundação que financia pesquisa em saúde, uma empresa que investe em desenvolvimento territorial: todos dependem desse ambiente para operar.

    Organizações filantrópicas e lideranças sociais são profundamente impactadas pelo avanço antidemocrático . Quando dados públicos deixam de existir ou o espaço da sociedade civil se estreita, não é uma causa que perde força, são todas.

    A democracia não deve, então, ser apenas uma pausa isolada, facultativa ou acessória no cotidiano da filantropia —ela é a própria infraestrutura sobre a qual todas as demais agendas do investimento social se apoiam e prosperam.

    Desigualdades sociais, regionais, raciais e de gênero ainda limitam a participação de amplas parcelas da população na vida democrática. Uma sociedade civil viva, forte, plural e representada em toda a sua diversidade nos espaços institucionais é parte inseparável de uma democracia saudável.

    E uma sociedade civil plural é também mais resiliente. Ela distribui, entre os muitos atores, a capacidade de responder a crises. Cabe à filantropia sustentar e fortalecer essa pluralidade, apoiando organizações de diferentes regiões, agendas e portes.

    Assim, a busca por mais justiça social —condição indispensável para uma democracia sólida— é a centralidade da atuação do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) junto às instituições que compõem o campo filantrópico e de ISP no Brasil, em causas e territórios diversos e plurais.

    Essa é uma das mensagens centrais da publicação "Filantropia e Democracia – Reflexão-Ação", que o Gife lançará nos próximos dias. Tal compromisso democrático não deve se confundir com uma disputa partidária, simplesmente.

    Defender a democracia é defender que a divergência de visões para o país aconteça, mas sempre dentro das regras, com respeito às instituições e sem violência.

    Passa também por comunicar seus efeitos concretos, entendendo-a como a única forma possível de garantia de liberdade e acesso à informação, de melhoria na qualidade dos serviços públicos e de espaço para a formulação de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades.

    A filantropia, portanto, só pode exercer seu potencial de catalisar iniciativas , conectar setores e fortalecer agendas e territórios em um ambiente democrático. Isso exige visão de longo prazo. Confiança, participação, informação de qualidade e educação cidadã levam anos para serem construídas e se desgastam quando deixam de receber atenção.

    Para a filantropia, ser pró-democracia é muito mais do que levantar esta bandeira de quatro em quatro anos, é considerar essa máxima como parte inegociável de um projeto de país.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/10/defesa-da-democracia-precisa-estar-no-cotidiano-de-quem-financia-o-bem-comum.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Colagem de um lambe na rua da Consolação sobre o Pacto pela Democracia em referência aos 60 anos do golpe militar - Ronny Santos - 30.mar.2024/Folhapress · Ronny Santos - 30.mar.2024/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)