Declaração de patrimônio de candidatos mostra desigualdade do país
Se pudéssemos traçar o retrato do candidato típico a deputado em 2026 , ele seria homem, teria 49 anos com cerca de R$ 386 mil em patrimônio. O retrato saiu da análise de mais de 360 mil bens declarados à Justiça Eleitoral , classificados com inteligência artificial por pesquisadores do FGV Cepesp. Os dados deste ano revelam uma disputa mais desigual do que a de quatro anos atrás. Leia mais (09/21/2026 - 17h23)

Esta coluna é uma parceria da Folha com o Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV Cepesp).
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Doutor em ciência política e pós-doutorando do FGV Cepesp
Se pudéssemos traçar o retrato do candidato típico a deputado em 2026 , ele seria homem, teria 49 anos com cerca de R$ 386 mil em patrimônio. O retrato saiu da análise de mais de 360 mil bens declarados à Justiça Eleitoral , classificados com inteligência artificial por pesquisadores do FGV Cepesp. Os dados deste ano revelam uma disputa mais desigual do que a de quatro anos atrás.
Descontada a inflação, a mediana do patrimônio caiu 21,9% entre 2010 e 2022 entre deputados estaduais e 27,3% entre federais. Em 2026, os estaduais já superam o patamar de 2010; os federais seguem 20% abaixo. A concentração no topo seguiu a mesma divisão: os 10% candidatos mais ricos concentram hoje 72,3% do patrimônio declarado pelos estaduais —o maior nível da série—, contra 67,6% entre os federais, ainda abaixo dos 78,6% de 2010.

É bem diferente no caso das candidatas mulheres. Em 2026, elas declararam mediana de R$ 250 mil, contra R$ 470 mil dos homens. Candidatos brancos declararam cerca de três vezes o patrimônio dos autodeclarados pretos.
É importante observar a concentração do patrimônio porque ter dinheiro está fortemente associado ao bom resultado eleitoral. Divididos os candidatos de 2010 a 2022 em dez grupos, do mais pobre ao mais rico, quando se trata do grupo mais rico, a taxa de sucesso é de 33%; caindo para 1,3% no mais pobre; entre os federais, de 32% a 1,8%.
O mandato também acompanha o enriquecimento. Entre os 864 deputados estaduais eleitos em 2022 que tentam a reeleição, o patrimônio mediano cresceu com um ganho de R$ 325 mil. Quem ganhou em 2022 teve alta de 19,5% no patrimônio em 2026, contra 6,6% dos derrotados. Os dados não permitem afirmar que o patrimônio, isoladamente, cause o sucesso eleitoral. Ainda assim, a regularidade da associação mostra que dinheiro e eleição caminham juntos .
Medimos também a distância entre os candidatos e a população. A renda domiciliar per capita foi de R$ 2.316 mensais em 2025 (Pnad Contínua). Guardando um quarto disso todo mês, sem falhar, levaria 56 anos para juntar os R$ 386 mil do candidato mediano ou 30 anos se guardasse na poupança; três décadas de disciplina para chegar ao ponto de partida de quem já está na urna.
A essência da democracia é o vínculo de representação autêntica entre quem é eleito e o seu povo. Mas o filtro do dinheiro decide quem tem patrimônio para arriscar uma candidatura, favorece quem já chega mais rico à disputa, e ainda enriquece mais quem vence o mandato. O resultado, repetido a cada eleição, é uma distância cada vez maior entre representantes e representados. A política deixa de ser um retrato da sociedade para se consolidar como um clube restrito a quem pode pagar pela entrada .
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/voto-a-voto/2026/09/declaracao-de-patrimonio-de-candidatos-mostra-desigualdade-do-pais.shtml.

Urna eletrônica é exibida no Tribunal Superior Eleitoral durante a cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas eleitorais em Brasília - Adriano Machado - 4.set.26/Reuters · Adriano Machado - 4.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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