De quem é o interesse nacional?
Estamos, mais uma vez, diante da escolha entre dois projetos de país. Leia mais (10/04/2026 - 23h00)

Doutora em ciência da informação, mestra em educação e jornalista. Autora de "Quando me Descobri Negra"
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Estamos, mais uma vez, diante da escolha entre dois projetos de país.
Na noite de sábado (3), horas antes de votar, conversei em São Paulo com Irene Vida Gala , embaixadora do Brasil em Ruanda e diplomata desde 1985. Falávamos de política externa quando ela perguntou: "O interesse nacional é interesse de quem?".
A pergunta desmonta a ideia de que a política externa estaria acima das disputas partidárias. Governos passariam, presidentes seriam substituídos, mas haveria um interesse nacional permanente, conduzido por uma diplomacia profissional capaz de identificá-lo e defendê-lo. O problema, argumenta Irene, é que alguém sempre definiu esse interesse.

O Itamaraty nasceu no século 19 em um país escravocrata. A política externa daquele período defendeu internacionalmente escolhas de proprietários —de terras e de pessoas. E dizia defender interesses nacionais. Em boa parte dos dois séculos seguintes, os mesmos grupos continuaram com muito mais condições de dizer quem era o Brasil e o que o Brasil queria no mundo.
A chegada de Lula à Presidência, em 2003, teria produzido uma ruptura importante justamente porque grupos historicamente afastados do poder passaram a disputar também a definição do interesse nacional. A aproximação com países africanos é um exemplo. O movimento negro brasileiro pôde, finalmente, fazer da relação com a África uma questão de Estado.
Quando entrou no Itamaraty, em 1985, a embaixadora diz ter encontrado uma instituição marcada pelo que chama, citando o cientista político Dawisson Belém Lopes , de tradição oligárquica. Não significa que todos os diplomatas pertencessem às oligarquias. Mas que a instituição havia consolidado códigos, referências e maneiras de ser e compreender o país produzidos a partir delas.

Um governo pode investir nas relações Sul-Sul ou se concentrar em servir aos interesses do Norte. Pode reconhecer a crise climática como eixo das negociações internacionais ou negá-la. Pode denunciar o genocídio do Estado de Israel em Gaza ou aplaudi-lo. Cada uma dessas decisões carrega uma interpretação sobre o Brasil e sobre os brasileiros cujos interesses devem ser projetados para fora.
A burocracia diplomática brasileira, reconhecida por sua solidez, vai garantir que o Brasil continue tendo relações com países governados por forças políticas distintas da que estiver no Planalto. Mas a partidarização da política externa, explica Irene, é uma consequência da democracia.
O profissionalismo do Itamaraty é exercido a partir de escolhas políticas.
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Política externa, para Irene Gala, deve ser compreendida como política pública. Ela cita o artigo 4º da Constituição, que estabelece princípios como independência nacional, prevalência dos direitos humanos, defesa da paz e integração latino-americana.
E também o artigo 3º, que estabelece entre os objetivos fundamentais da República garantir o desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades e promover o bem de todos. "Como é que a política externa não se associa a isso?", pergunta Irene.
Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao segundo turno com projetos distintos para a presença do Brasil no mundo. É ainda mais urgente perguntar, quando dizemos "interesse nacional", de quem estamos falando?
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bianca-santana/2026/10/de-quem-e-o-interesse-nacional.shtml.

Eleitor deixa a cabina de votação em zona eleitoral do Rio de Janeiro - Mauro Pimentel - 4.out.26/AFP · Mauro Pimentel - 4.out.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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