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    De Chico a Martinho da Vila, livro conta como artistas driblaram a censura militar

    O homem encarregado de proibir peças, filmes e canções em defesa das tradições cristãs e da família brasileira escondia um passado pouco compatível com a função. Leia mais (08/13/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    13 de agosto de 2026 às 18:00
    De Chico a Martinho da Vila, livro conta como artistas driblaram a censura militar
    Foto: Folha de S.Paulo

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    O homem encarregado de proibir peças, filmes e canções em defesa das tradições cristãs e da família brasileira escondia um passado pouco compatível com a função.

    Chico Buarque no início dos anos 1970, quando foi um dos artistas mais visados pela censura no Brasil - Arquivo Nacional · Arquivo Nacional
    Chico Buarque no início dos anos 1970, quando foi um dos artistas mais visados pela censura no Brasil - Arquivo Nacional · Arquivo Nacional — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Antônio Romero Lago, chefe do Serviço de Censura e Diversões Públicas durante a ditadura militar , era na verdade Hermelindo Ramírez Godoy, um assassino foragido . Em 1944, matou duas pessoas no interior do Rio Grande do Sul. Depois mudou de nome, obteve documentos falsos e fez carreira no serviço público até chegar ao comando da censura.

    A história é uma das reunidas pelo escritor e cineasta Miguel de Almeida em "Chame o Ladrão", livro em que percorre os anos da ditadura em busca das maneiras encontradas por artistas para enfrentar ou contornar os censores.

    Almeida diz ter começado a pesquisa de três anos ao perceber que os relatos sobre o período privilegiavam um tipo específico de enfrentamento. "A história da censura sempre tinha um tom muito guerreiro e amargo", afirma. "Mas havia uma resistência que não tinha sido contada, que se dava às costas dos generais, na barba da censura."

    O jornalista Miguel de Almeida, autor de 'Chame o Ladrão' - Mathilde Missioneiro/Folhapress · Mathilde Missioneiro/Folhapress
    O jornalista Miguel de Almeida, autor de 'Chame o Ladrão' - Mathilde Missioneiro/Folhapress · Mathilde Missioneiro/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Eram truques e espertezas, muitas vezes bem-humorados, mas que envolviam risco real para quem desafiava as forças de repressão.

    A censura estava longe de funcionar como um bloco uniforme. Nos anos 1980, Solange Hernandez comandava um departamento com 279 funcionários, 87 deles em Brasília e os demais distribuídos por escritórios regionais. De 1981 a 1984, cerca de 2.500 canções foram interditadas na sua gestão.

    Uma das histórias levantadas por Almeida envolve "Pra Frente, Brasil", filme de Roberto Farias lançado em 1982, época em que Solange reinava na censura. O longa acompanha um homem comum preso por engano, torturado e morto por agentes da repressão.

    Cartaz do filme 'Pra Frente, Brasil', com cenas de tortura do personagem de Reginaldo Faria - Reprodução · Reprodução
    Cartaz do filme 'Pra Frente, Brasil', com cenas de tortura do personagem de Reginaldo Faria - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A obra havia sido financiada pela Embrafilme, estatal de incentivo ao cinema. Quando ficou pronta, porém, Solange proibiu sua exibição. Uma parte do Estado financiava o filme enquanto outra tentava impedir que chegasse ao público.

    Farias procurou Coriolano Fagundes, funcionário da censura que conhecia desde a época em que presidira a Embrafilme. Ao examinar o processo, Fagundes descobriu que Solange havia retirado da pasta os pareceres favoráveis à liberação do filme e deixado apenas uma manifestação contrária.

    O filme acabou liberado sem cortes e Solange jamais foi punida pela manobra. Almeida diz que esses bastidores eram desconhecidos até por pessoas que haviam trabalhado no filme.

    A Máquina da Censura
    A Máquina da Censura — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Coriolano Fagundes acabou se tornando o próximo chefe da censura. Almeida, que o entrevistou quando ocupava o cargo, o descreve como mais preparado e liberal que outros funcionários. "Ele não concordava com esse tipo de censura que era feita por idiossincrasia pessoal."

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    As decisões variavam tanto de um funcionário para outro que os artistas aprenderam a explorar isso, como ilustra uma história que ficou de fora do livro.

    De Chico Buarque a Caetano Veloso, quem foram os artistas censurados pela ditadura militar
    De Chico Buarque a Caetano Veloso, quem foram os artistas censurados pela ditadura militar — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Martinho da Vila teve "Disritmia" vetada porque a letra continha a palavra "porre". Foi a Brasília discutir a decisão e ouviu de um censor que o governo não permitiria canções que incentivassem o consumo de álcool.

    O funcionário mostrou ao compositor uma lista de palavras proibidas. Martinho leu a relação e percebeu que "porre" não estava nela. "Disse: 'Fulano, aí não tem a palavra porre'. O cara olhou de novo e falou: 'É mesmo'. E a música foi liberada", conta Almeida.

    Outros artistas desenvolveram métodos próprios. Chico Buarque já estava tão marcado pelos censores que criou o compositor fictício Julinho da Adelaide e passou a apresentar músicas sob o pseudônimo.

    Odair José na Virada Cultural 2026
    Odair José na Virada Cultural 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma delas foi "Acorda Amor", gravada em 1974. Diante da chegada da polícia, o eu lírico prefere que sejam criminosos comuns invadindo sua casa e grita no refrão: ‘Chame o ladrão’. Daí vem o título do livro.

    Odair José encontrou outra saída. Quando uma composição era proibida, alterava o título, a primeira frase ou algumas palavras e a apresentava novamente. Como a nova versão quase sempre caía nas mãos de outro censor, muitas vezes conseguia a liberação.

    Para Almeida, Odair também mostra que nem todo artista que driblava a censura praticava uma resistência política. "Ele era convicto da defesa da obra dele. Claro que era contra a ditadura, mas não tinha uma posição ideologicamente clara como a do Chico ou do Taiguara, do Vandré."

    Capa de 'Chame o Ladrão', livro de Miguel de Almeida - Divulgação · Divulgação
    Capa de 'Chame o Ladrão', livro de Miguel de Almeida - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Eu Vou Tirar Você desse Lugar", por exemplo, conta a história de um homem apaixonado por uma prostituta. Odair foi chamado para explicar quem pretendia "tirar daquele lugar" e perguntaram se seria o presidente da República. "Ele falou: 'Não, é uma puta'. Opa, aí piorou."

    Na literatura , um dos dribles nasceu de uma dificuldade mais elementar. Proibir um livro era mais fácil do que recolhê-lo. Ignácio de Loyola Brandão contou a Almeida que via exemplares interditados nas livrarias, porque o governo não dispunha nem de veículos suficientes para buscá-los. "O carro que eles tinham era para prender gente", resumiu o escritor.

    Escritores como Brandão, Antônio Torres e João Antonio passaram a viajar pelo país para participar de encontros literários. Segundo Almeida, algumas reuniões atraíam até 3.000 pessoas e saíam das universidades para igrejas e estacionamentos.

    Na exibição do filme 'Je Vous Salue, Marie', no auditório da Folha, em 30 de janeiro de 1986 (da esq. à dir.): Caio Túlio Costa, secretário de Redação da Folha de S.Paulo, o secretário do Governo do Estado, Luiz Carlos Bresser-Pereira, o se
    Na exibição do filme 'Je Vous Salue, Marie', no auditório da Folha, em 30 de janeiro de 1986 (da esq. à dir.): Caio Túlio Costa, secretário de Redação da Folha de S.Paulo, o secretário do Governo do Estado, Luiz Carlos Bresser-Pereira, o se — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Eles não falavam apenas de literatura: levavam informações que haviam sido censuradas nos jornais. "Ficavam dando notícia", diz Almeida. "Eram como aqueles cantadores medievais que andavam de aldeia em aldeia" contando o que acontecia.

    "Chame o Ladrão" chega ao fim da ditadura, mas não ao fim das proibições. Em 1986, já durante o governo civil de José Sarney, o presidente proibiu "Je Vous Salue, Marie", de Jean-Luc Godard .

    Segundo a história recuperada por Almeida, a mãe de Sarney pressionara o filho contra a liberação. "Zé, se você liberar esse filme, você não entra mais aqui em casa", teria dito.

    Homem de meia-idade com camisa vermelha de colarinho observa algo fora do quadro, com expressão neutra. Fundo desfocado com parede de textura rústica e parte de objeto azul à direita.
    Homem de meia-idade com camisa vermelha de colarinho observa algo fora do quadro, com expressão neutra. Fundo desfocado com parede de textura rústica e parte de objeto azul à direita. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O presidente apresentou a proibição como se tivesse sido pedida pela Igreja Católica, mas, segundo Almeida, os bispos não haviam pedido a censura. "Dom Paulo Evaristo Arns declarou que quem quisesse assistir ao filme deveria fazê-lo e quem não quisesse não deveria."

    Àquela altura, cópias piratas já circulavam pelo país. Na redação da Ilustrada, da Folha , surgiu a ideia de exibir publicamente o filme dentro do próprio jornal . Almeida trabalhava na Ilustrada e afirma que a iniciativa recebeu apoio total da direção, "a começar pelo seu [Octavio] Frias, depois pelo Otavio [Frias Filho]".

    O então editor telefonou para artistas e intelectuais, entre eles Maria Bonomi e Júlio Medaglia, convidando-os a comparecer. Ninguém sabia se a polícia apareceria para impedir a sessão. Não apareceu.

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    "Houve até uma certa frustração", diverte-se Almeida. "Imagina a foto maravilhosa que ia ser essas personalidades incríveis entrando no camburão."

    Para ele, a sessão tinha um significado particular depois de duas décadas em que a imprensa havia sido censurada e jornalistas, perseguidos e presos. "Foi o grande troco da imprensa em cima dos militares", afirma.

    A proibição de Sarney permaneceu de pé por dois anos e meio. O país, porém, já havia reaprendido a desobedecer.

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    SÃO PAULO, SP, BRASIL, 30.01.1986: Da esq. para dir. Caio Túlio Costa, secretário de redação, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, secretário do governo estadual, Jorge Cunha Lima, secretário de cultura, Dácio Nitrini, coordenados da A
    SÃO PAULO, SP, BRASIL, 30.01.1986: Da esq. para dir. Caio Túlio Costa, secretário de redação, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, secretário do governo estadual, Jorge Cunha Lima, secretário de cultura, Dácio Nitrini, coordenados da A — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
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    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/de-chico-a-martinho-da-vila-livro-conta-como-artistas-driblaram-a-censura-militar.shtml.

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    Chico Buarque no início dos anos 1970, quando foi um dos artistas mais visados pela censura no Brasil - Arquivo Nacional · Arquivo Nacional — Foto: Folha de S.Paulo

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