Esportes

    De capitão do Palmeiras à terceira divisão da Polônia: a vida real de um brasileiro longe dos grandes centros

    Gabriel Afonso atua no futebol polonês. W. Fryt / Sleza Wroclaw Dez anos após liderar o Palmeiras na final do Mundial de Clubes Sub-17 contra o Real Madrid, o mineiro Gabriel Afonso, hoje com 27 anos, reconstrói sua carreira no Ślęza Wrocław, da terceira divisão da Polônia. Longe dos holofotes dos grandes centros do futebol, o ex-capitão alviverde, natural de Manhuaçu (MG), enfrenta a dura realidade das divisões inferiores europeias e relata ao ge os desafios de se consolidar no exterior após ver o sonho do topo do futebol tomar caminhos inesperados. Ainda hoje, Gabriel se lembra em detalhes d

    GE Esportes
    15 de setembro de 2026 às 15:05
    De capitão do Palmeiras à terceira divisão da Polônia: a vida real de um brasileiro longe dos grandes centros
    Foto: GE Esportes

    Gabriel Afonso atua no futebol polonês. — Foto: W. Fryt / Sleza Wroclaw

    Dez anos após liderar o Palmeiras na final do Mundial de Clubes Sub-17 contra o Real Madrid, o mineiro Gabriel Afonso, hoje com 27 anos, reconstrói sua carreira no Ślęza Wrocław, da terceira divisão da Polônia. Longe dos holofotes dos grandes centros do futebol, o ex-capitão alviverde, natural de Manhuaçu (MG), enfrenta a dura realidade das divisões inferiores europeias e relata ao ge os desafios de se consolidar no exterior após ver o sonho do topo do futebol tomar caminhos inesperados.

    Ainda hoje, Gabriel se lembra em detalhes daquela tarde de 1º de junho de 2016, na Espanha. O Palmeiras estava a três minutos de conquistar o inédito título mundial da categoria. Diante do Real Madrid, o time brasileiro buscou a virada por 2 a 1 aos 26 minutos do segundo tempo, justamente com um gol de cabeça de Gabriel.

    A taça parecia garantida, até o clube espanhol empatar aos 37 e, posteriormente, vencer por 5 a 4 nos pênaltis. O capitão palmeirense acabou desperdiçando uma das cobranças .

    Desolados, jogadores do Palmeiras lamentam derrota para o Real Madrid nos pênaltis em 2016 — Foto: Ivan Raupp

    Aquela decisão marcou a carreira do defensor e ajuda a explicar uma trajetória que tomou rumos bem diferentes dos imaginados por um garoto que cresceu sonhando em jogar no Atlético-MG. Hoje, Gabriel já acumula cinco temporadas pelo Ślęza Wrocław.

    Entre o vice-campeonato mundial e a Polônia, houve passagens por Avaí e São Bernardo, uma grave lesão, a pandemia, transferências frustradas para os EUA e, finalmente, a mudança para um país quase desconhecido.

    Gabriel começou a jogar bola ainda criança, aos três anos. O sonho de se tornar profissional era compartilhado por toda a família, especialmente pelo pai, Luciano Cláudio.

    — O sonho era me tornar um atleta profissional para dar suporte à minha família, que é o objetivo de todo brasileiro que nasce na periferia — conta Gabriel.

    O destino, contudo, o levou para São Paulo. No Palmeiras, Gabriel encontrou uma das melhores estruturas da base brasileira. Atuando como lateral-direito e volante, foi capitão no Sub-17 e no Sub-19, enfrentando gigantes como Inter de Milão e Real Madrid. O destaque na base quase o levou à Seleção Brasileira.

    Palmeiras x Real Madrid — Foto: Divulgação

    — Fui contatado pelo João Paulo Sampaio (coordenador da base do Palmeiras), que me disse que eu provavelmente seria convocado para a seleção Sub-17. Era a primeira convocação da geração 99, mas, quando saiu a lista, meu nome não estava. Isso me deu um baque — relembra.

    Naquela geração do Palmeiras, estavam atletas que depois alcançaram o topo do futebol nacional, como Vitão, Wesley, Gabriel Menino, Fernando e Patrick de Paula. Gabriel, por sua vez, precisou trilhar outro caminho.

    Do Palmeiras à realidade do futebol brasileiro

    Após deixar o Palmeiras, Gabriel transferiu-se para o Avaí com o plano de ganhar experiência profissional e migrar para a Europa. No entanto, deparou-se com o lado mais duro do futebol nacional.

    — Eu vinha de uma estrutura excelente no Palmeiras e, de repente, fui para uma realidade muito abaixo daquela a que estava acostumado. Foi quando comecei a entender como funciona o futebol brasileiro fora dos grandes clubes.

    Vieram salários atrasados, poucas oportunidades e uma pubalgia crônica que o afastou dos gramados por oito meses no São Bernardo, em plena pandemia. Sem jogar, ele cogitou abandonar a carreira. Foi quando surgiu o contato de Pawel, um empresário polonês. Na mesma época, Gabriel havia conseguido uma bolsa de estudos integral nos Estados Unidos, mas as fronteiras fechadas pela Covid-19 inviabilizaram o visto americano.

    — Olhando para trás, parece que foi Deus dizendo: "Vai para a Polônia. Tenta a vida lá". E eu fui.

    Gabriel Afonso — Foto: W. Fryt/Sleza Wroclaw

    A vida real na terceira divisão europeia

    Gabriel chegou a Breslávia, quarta maior cidade da Polônia, em 2021. O Ślęza Wrocław é um clube tradicional local, mas sem a projeção de gigantes como Legia Varsóvia ou Lech Poznań. Na última temporada, a equipe terminou em 10º lugar na III Liga (a quarta divisão nacional na hierarquia, equivalente ao terceiro nível de grupos).

    A adaptação ao país e ao idioma foi um desafio à parte. Com o tempo, Gabriel compreendeu que o futebol periférico da Europa passa longe do glamour das grandes ligas.

    — A partir da segunda divisão, e principalmente na terceira e na quarta, a vida dos jogadores é muito parecida com a de pessoas que têm empregos comuns. Muitos conciliam o futebol com estudos ou outros trabalhos. Os salários são modestos e há restrições rígidas para atletas estrangeiros.

    Gabriel chegou a realizar testes em um clube da primeira divisão polonesa e agradou à comissão técnica, mas a transferência não ocorreu devido ao limite de atletas sem passaporte europeu.

    Em campo, os poloneses esperavam encontrar o estereótipo do brasileiro habilidoso e driblador. Gabriel, contudo, destaca-se pela disciplina tática, força física e poder de marcação.

    — Eles começaram a brincar comigo, dizendo que eu era um "fake brasileiro" porque não driblava como o Neymar — diverte-se o jogador, que prefere referências como Thiago Silva e Filipe Luís. — Meu estilo é aguerrido, competitivo, de brigar por cada bola. Às vezes eles esquecem que brasileiro também sabe ser guerreiro.

    'Meu estilo é aguerrido, competitivo, de brigar por cada bola ', diz Gabriel Afonso — Foto: W. Fryt/Sleza Wroclaw

    A regularidade do defensor é comprovada pelos números: desde que chegou ao Ślęza Wrocław, Gabriel soma 168 partidas, mais de 13 mil minutos jogados, 25 gols e 23 assistências entre a liga nacional e a Copa da Polônia.

    A maior transformação de Gabriel ocorreu fora das quatro linhas. Ele admite que precisou lidar com a frustração de não ter atingido o estrelato que muitos previam em 2016.

    — Quando as coisas não acontecem como o planejado, dói. Mas a Polônia me ensinou que a vida não termina quando a carreira que você imaginou não se concretiza.

    O jogador está de casamento marcado para o próximo ano com Dominika, uma polonesa que também o auxilia em sua preparação física.

    — Por ela, eu poderia parar de jogar amanhã e sei que ela continuaria me amando da mesma maneira.

    Gabriel Afonso está de casamento marcado com a polonesa Dominika — Foto: Arquivo pessoal

    Aos 17 anos, Gabriel media seu valor pelo tamanho dos clubes em que jogava. Hoje, aos 27, embora ainda busque crescer profissionalmente, ele tem uma visão muito mais madura sobre a vida.

    — A vida é muito mais do que uma carreira, um título ou aquilo que as pessoas esperam que você seja.

    Dez anos após aquela tarde em Madrid, Gabriel continua correndo — não mais para alcançar projeções irreais, mas para desfrutar do caminho que o futebol lhe proporcionou.

    ⚽ Confira outras notícias de esporte em Grande Minas e Vales !

    Publicado originalmente por GE Esportes. Leia a matéria completa em https://ge.globo.com/mg/grande-minas-vales/noticia/2026/09/15/de-capitao-do-palmeiras-a-terceira-divisao-da-polonia-a-vida-real-de-um-brasileiro-longe-dos-grandes-centros.ghtml.

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)