Brasil

    Datação de sítio que mudou ideia sobre presença de humanos nas Américas volta ao debate

    Pesquisadores defendem que Monte Verde, no Chile, já abrigava nossa espécie há 14,5 mil anos

    UOL
    2 de setembro de 2026 às 10:00
    Datação de sítio que mudou ideia sobre presença de humanos nas Américas volta ao debate
    Todd Surovell — Foto: UOL

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    O sítio arqueológico de Monte Verde, considerado uma das peças centrais na história da presença da nossa espécie nas Américas, voltou ao debate. Pesquisadores contestaram um estudo de março que sugeriu uma ocupação mais recente do local e tornaram a defender que humanos estavam ali há aproximadamente 14.500 anos.

    O sítio arqueológico de Monte Verde, no Chile - Todd Surovell/via Reuters · Todd Surovell/via Reuters
    O sítio arqueológico de Monte Verde, no Chile - Todd Surovell/via Reuters · Todd Surovell/via Reuters — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Monte Verde fica no sul do Chile , a 58 km da costa do Pacífico. O sítio foi descoberto na década de 1970. Mais tarde, em 1997, pesquisadores anunciaram que o local abrigava humanos cerca de 14,5 mil anos atrás.

    Porém, em março deste ano, um outro grupo científico sugeriu a presença da nossa espécie no local entre 4.200 e 8.200 anos atrás. Essa hipótese foi descrita na revista Science .

    Agora, duas equipes apontaram, em análises publicadas em agosto na revista PaleoAmerica, o que dizem ser falhas fundamentais no estudo de março.

    Estudo sugere idade mais recente para o sítio arqueológico de Monte Verde
    Estudo sugere idade mais recente para o sítio arqueológico de Monte Verde — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Eles não demonstraram que a interpretação geológica original do sítio estava equivocada", afirmou o antropólogo Tom Dillehay, da Universidade Vanderbilt, que estuda Monte Verde desde a década de 1970 e liderou uma das análises (a outra pode ser acessada aqui ).

    "Continuo confiante em nossa metodologia e em nossos resultados", defendeu o arqueólogo Todd Surovell, da Universidade de Wyoming, autor da pesquisa que sugeriu uma idade mais recente para o sítio —uma conclusão que, se correta, tornaria Monte Verde irrelevante para a investigação de quando os seres humanos se espalharam pela primeira vez pelas Américas.

    A datação mais antiga situaria Monte Verde mais de 1.500 anos antes dos mais antigos sítios de ocupação humana até então conhecidos ao sul das camadas de gelo continentais que cobriam partes da América do Norte naquela época. Esses sítios da Era Glacial estavam associados à cultura Clóvis da América do Norte, conhecida por suas ferramentas de pedra características e assim denominada em referência a uma localidade no Novo México.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Como Monte Verde é considerado mais antigo e fica milhares de quilômetros ao sul dos sítios Clóvis, cientistas veem o local como evidência de que os humanos chegaram às Américas vindos da Eurásia muito antes do que indicavam os sítios Clóvis.

    Dillehay criticou as evidências apresentadas por Surovell e pelos colegas dele por não se basearem em observações feitas diretamente no sítio onde foram encontrados os vestígios arqueológicos, mas sim na geologia de áreas externas a ele.

    Um elemento importante do artigo publicado na revista Science foi a descrição de uma camada de cinzas vulcânicas depositada há cerca de 11 mil anos, situada abaixo dos vestígios arqueológicos de ocupação, o que indicaria que a presença humana em Monte Verde é posterior a essa data.

    Surfista Ítalo Ferreira durante eclipse solar em praia entre as cidades de Natal e Baía Formosa, no Rio Grande do Norte - (Foto: Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool)
    Surfista Ítalo Ferreira durante eclipse solar em praia entre as cidades de Natal e Baía Formosa, no Rio Grande do Norte - (Foto: Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool) — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Isso nunca foi observado por nenhum dos pesquisadores que trabalham em Monte Verde desde 1977", disse Dillehay sobre uma camada de cinzas. Ele também contestou outros aspectos do artigo publicado na Science e afirmou acreditar que os autores do trabalho selecionaram a dedo evidências geológicas para "se adequar a uma conclusão predeterminada".

    Surovell disse receber com satisfação a continuidade do debate científico sobre a idade de Monte Verde e os processos responsáveis por sua formação. Segundo ele, a melhor maneira de esclarecer essas questões é por meio de estudos adicionais conduzidos por pesquisadores independentes.

    "Nosso trabalho foi submetido a um alto grau de escrutínio, que é exatamente o que deve acontecer diante de uma alegação tão importante. Se houvesse problemas graves em nossos métodos, dados ou raciocínio, eu esperaria que eles viessem à tona durante esse processo. Até agora, não vi críticas que, a meu ver, comprometam as principais conclusões do nosso estudo", afirmou o arqueólogo.

    Dillehay ressaltou a importância arqueológica do sítio.

    "A preservação excepcional de Monte Verde possibilitou a recuperação de materiais raramente encontrados no registro arqueológico, incluindo madeira trabalhada, vestígios de estruturas, plantas, algas marinhas e outros materiais orgânicos, oferecendo uma janela extraordinária para a vida e o conhecimento das comunidades humanas que habitavam o sul do Chile durante o Pleistoceno Superior", disse o antropólogo, referindo-se ao período geológico que abrange a última Era Glacial.

    Também foram encontradas no sítio pegadas humanas associadas a uma fogueira, vestígios de queimadas, ferramentas e estacas de madeira, além de restos de batatas, ossos e carne de animais.

    "Monte Verde está bem selado por uma camada anaeróbica de turfa que preservou os materiais orgânicos no sítio, por isso temos uma compreensão muito mais aprofundada da tecnologia e, sobretudo, da economia das pessoas daquela época. Eram consumidores de amplo espectro, que se alimentavam tanto de plantas quanto de animais e buscavam recursos desde a costa do Pacífico até a Cordilheira dos Andes", afirmou Dillehay.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2026/09/datacao-de-sitio-que-mudou-ideia-sobre-presenca-de-humanos-nas-americas-volta-ao-debate.shtml.

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    O sítio arqueológico de Monte Verde, no Chile - Todd Surovell/via Reuters · Todd Surovell/via Reuters — Foto: UOL

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