Dá para imaginar o que podemos ganhar depois da eleição?
Ainda que várias candidaturas à Presidência falem em educação, saúde, investimentos e relevância internacional, não vejo essas propostas articuladas numa visão coerente de como produzir mais, tornar a vida mais barata e melhorar os serviços públicos. As campanhas parecem mais focadas em derrotar o adversário do que em explicar o que seria construído após a eleição ou como governar para os eleitores opositores. Leia mais (09/29/2026 - 08h00)

Economista pela UFPE e especialista em gestão pública no Insper. Estudou economia comportamental na Warwick University (Reino Unido) e é associada do Livres
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Ainda que várias candidaturas à Presidência falem em educação, saúde, investimentos e relevância internacional, não vejo essas propostas articuladas numa visão coerente de como produzir mais, tornar a vida mais barata e melhorar os serviços públicos. As campanhas parecem mais focadas em derrotar o adversário do que em explicar o que seria construído após a eleição ou como governar para os eleitores opositores.
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Claro que confrontar adversários é legítimo e, inclusive, necessário para avançar agendas e disputar o pleito. Porém, se há um foco excessivo em inimigos, como se eliminá-los fosse resolver os problemas do país, isso pode alimentar uma visão de "soma zero": a ideia de que criar oportunidades para um grupo sempre exige tirá-las de outro.

Assim, quando essa mentalidade alcança os eleitores, até mesmo melhorias que poderiam beneficiar todos sofrem forte resistência. O que, por sua vez, pode custar oportunidades mesmo quando a cooperação oferece benefícios concretos. Em um experimento com 599 moradores do Reino Unido, cada participante recebeu 100 bilhetes para concorrer a um prêmio de £100. Podia enviar parte deles a outro jogador, que os recebia no triplo e podia devolvê-los parcialmente. Se alguém enviasse 40 bilhetes, por exemplo, o parceiro receberia 120 e poderia devolver 60: ambos terminariam com mais bilhetes do que teriam sem a troca.
Aqueles que tinham crenças de soma zero mais fortes enviaram cerca de 17 bilhetes a menos já na primeira rodada e terminaram com mediana 21% menor do que a de quem acreditava na cooperação. Esses participantes céticos também demonstraram maior preocupação em ganhar mais do que o parceiro, segundo Patricia Andrews Fearon e Friedrich Götz . Embora pudessem melhorar o próprio resultado ao cooperarem, aproveitaram menos essa possibilidade.
Na política, construir apoio para mudanças também exige convencer as pessoas de que cooperar pode melhorar suas vidas e as dos demais. Esse esforço torna-se mais difícil quando as dificuldades são apresentadas como resultado do avanço de outro grupo. No comércio internacional, por exemplo, um experimento com americanos mostrou que as mesmas demissões geravam mais apoio ao protecionismo quando atribuídas à transferência da produção para o exterior do que a mudanças tecnológicas ou à queda na demanda. Ou seja, a explicação da causa das demissões alterava a posição defendida.
Ainda nessa ilustração, sabemos que as barreiras erguidas para proteger um setor encarecem produtos e insumos para consumidores e empresas cujos interesses transcendem as divisões partidárias. Reuni-los em torno da abertura exigiria reconhecer os benefícios e amparar os trabalhadores que precisariam de recolocação.
Esse desafio permeia as reformas de outras agendas. Rever uma isenção fiscal setorial retira uma vantagem de empresas, mas libera recursos e investimentos para serem alocados em negócios mais rentáveis, gerando emprego ou produtos mais baratos. Também permitir que novas empresas operem linhas de ônibus interestaduais pode tirar passageiros das viações que já atendem esses trajetos e oferecer mais horários e a possibilidade de passagens mais baratas. Quem perderia a vantagem ou a receita tem motivos imediatos para resistir; os possíveis beneficiários estão dispersos e dependem de uma política bem executada. É preciso mostrar o que podem ganhar para mobilizar apoio à mudança, independentemente da ideologia ou do candidato favorito.
Talvez parte do desânimo com esta eleição venha da impressão de que as candidaturas atuais tratam as oportunidades do país como já dadas e só nos convidam a disputar quem ficará com elas, num jogo de soma zero. Por isso, me resta a esperança de que, em 2030, alguma candidatura nos faça sonhar com o que ainda podemos criar juntos e nos mostre como dar o primeiro passo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/deborah-bizarria/2026/09/da-para-imaginar-o-que-podemos-ganhar-depois-da-eleicao.shtml.

Lula (PT) e FLávio Bolsonaro (PL), os dois candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisas - Adriano Machado - 8.ago.26 e 5.ago.26/Reuters · Adriano Machado - 8.ago.26 e 5.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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