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    Da casa de taipa no sertão do Ceará ao cume do Everest

    O documentário "O Engraxate que Escalou o Everest", que conta a história de Rosier Alexandre, 58, estreia nesta quinta-feira (10) no Canal OFF. A obra levou o prêmio de Melhor Longa-Metragem Nacional no Festival Internacional YVY, em Teresópolis (RJ) e o Troféu Corcovado de Melhor Filme pelo júri popular no Rio Mountain Festival. O documentário narra a trajetória de um menino que nasceu e cresceu numa casa de taipa no sertão cearense, e se tornou o primeiro nordestino a alcançar o cume da montanha mais alta do mundo. Leia mais (09/09/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de setembro de 2026 às 02:00
    Da casa de taipa no sertão do Ceará ao cume do Everest
    Foto: Folha de S.Paulo

    Para quem gosta de caminhar, trilhar, escalaminhar e bater perna por aí. Por Luiza Pastor

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    O cearense Rosier Alexandre - Divulgação · Divulgação
    O cearense Rosier Alexandre - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O documentário "O Engraxate que Escalou o Everest", que conta a história de Rosier Alexandre, 58, estreia nesta quinta-feira (10) no Canal OFF. A obra levou o prêmio de Melhor Longa-Metragem Nacional no Festival Internacional YVY, em Teresópolis (RJ) e o Troféu Corcovado de Melhor Filme pelo júri popular no Rio Mountain Festival. O documentário narra a trajetória de um menino que nasceu e cresceu numa casa de taipa no sertão cearense, e se tornou o primeiro nordestino a alcançar o cume da montanha mais alta do mundo.

    Filmado em quatro países e três continentes, o filme combina depoimentos de nomes do montanhismo mundial com imagens de expedições realizadas em condições extremas.

    "Nasci em meio à escassez, na caatinga sertaneja, acreditando que o trabalho poderia me levar para uma vida diferente", diz Alexandre. "Mas nunca imaginei que chegaria tão longe a ponto de minha história virar um filme".

    O Engraxate que Escalou o Everest
    O Engraxate que Escalou o Everest — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    E, como a história é boa, a coluna foi ouvir o que Alexandre tem a contar.

    O que levou o menino de Monsenhor Tabosa, no Ceará, a decidir ir para o Everest?

    Eu tinha 9 anos de idade, morava num lugar longe, seco, com muita miséria. Um dia, um médico da cidade que tinha morado na Europa levou um alemão para visitar minha cidade. Aquele momento foi como ver um extraterrestre. Eu sou indígena, minha mãe é indígena, todos eram assim por lá. Aí apareceu na minha frente aquele cara branquinho, de olho azul, cabelo encaracoladinho, só podia ser um extraterrestre. Eu o ouvia conversando com o médico e perguntei por que ele não sabia falar...

    Homem de meia-idade com cabelo grisalho e óculos de armação escura sorri para a câmera. Ele veste camisa preta de botão e está em ambiente interno com fundo desfocado.
    Homem de meia-idade com cabelo grisalho e óculos de armação escura sorri para a câmera. Ele veste camisa preta de botão e está em ambiente interno com fundo desfocado. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não, o médico me explicou que o que ele falava era outro idioma. Eu não sabia o que era idioma. Explicou que era o que pessoas de outros países falavam. Eu não sabia o que eram países. Aí explicou que a Terra, redonda como uma bola de futebol, tinha vários países. Aquilo foi uma pancada na minha cabeça, eu acreditava que a Terra era plana, imagine, era um terraplanista de 9 anos no interior do nordeste, para quem o sol girava ao redor de Monsenhor Tabosa. Quando o médico foi me dando aquela aula de geografia, eu ainda duvidei, me perguntava como as pessoas não caíam da parte de baixo da bola. Aquela chave que virou e me fez entender o tal mundo redondo, fez nascer minha paixão. Em todos os meus escritórios e cômodos da minha casa, hoje, tenho um globo terrestre. E mesmo sem saber o que era um propósito, naquele dia eu estabeleci um propósito para minha vida: viajar para conhecer tudo aquilo.

    Como foi pular do terraplanismo ao cume do Everest?

    Então... Aos 16 anos, fui estudar em Fortaleza, no curso de técnico agrícola. Até entrei na faculdade, mas tive que parar para trabalhar. Só com mais de 30 anos fiz faculdade de administração. Mas, aos 28, eu estava quebrado, devendo um monte de dinheiro, emocionalmente acabado e tirei da manga aquele projeto do menininho de 9 anos que queria viajar o mundo inteiro. Resolvi que realizaria o sonho maluco de escalar os sete cumes mais altos, um de cada continente. Passei mais de cinco anos estudando, lendo, aprendendo a escalar, até que, em 2002, chamei a imprensa cearense para anunciar que os escalaria. O jornalista duvidou, achou que era maluquice, nenhum nordestino tinha feito isso... mas eu não queria desistir de meu sonho e não queria um sonho pequeno.

    Não, nem vou fazer, a prioridade agora é a família. Eu trabalhava dois turnos e, no terceiro turno, procurava embaixada, licença de escalada, parceiro para dividir o custo da expedição , enfim, tempo para família eu não tinha. Então, não, não vou fazer os sete cumes. Mas o Everest eu subi.

    A montanha não me quis nem na primeira, nem na segunda tentativa de chegar ao cume. A primeira foi em 2014, quando uma geleira se rompeu e matou 16 pessoas, incluindo três colegas meus. O governo nepalês fechou a montanha e mandou todo mundo de volta para casa. Na segunda, em 2015, houve o maior terremoto em 85 anos, que deixou mais de 12 mil mortos no Nepal, 19 deles só no campo-base do Everest.

    Pois é, voltei mais uma vez para o Brasil com essa frustração no coração. E aí, toda reportagem que saía comigo o pessoal se perguntava: será que esse maluco vai ter coragem de voltar? Acabei ficando recluso um bom tempo, me recusava a falar com jornalistas, havia comentários bem cruéis. Mas insisti no meu projeto e, em 2016, viabilizei uma nova expedição e cheguei ao cume no dia 21 de maio daquele ano.

    Fazer o filme foi muito mais difícil, foi um novo Everest. Depois que voltei de lá, algumas empresas me procuraram para fazer um filme, mas todos queriam fazer ficção, o que eu não queria. Aquela era a minha história! O tempo foi passando e um dia, vendo um filme do diretor Ian Ruas sobre o Oswaldo Montenegro, achei legal a forma como ele contava a história e mandei uma mensagem para ele. Conversamos, ele gostou da proposta e me mandou um orçamento que eu não tinha como bancar. Ele gostou tanto do projeto que disse que tiraria o custo de todo o equipamento, que só precisaria pagar os custos diretos de equipe. Aí começamos a filmar, fomos à Bolívia, aos Estados Unidos, ao Nepal, entrevistamos alguns dos melhores montanhistas da atualidade, colegas de escola, professora da minha infância, enfim, acabou ficando muito melhor do que eu tinha imaginado.

    Pois é, fomos selecionados para quatro festivais vencemos dois, sendo o Rio Mountain Festival e o Festival de Teresópolis, 100% bancado do meu bolso, até agora estou pagando para cada exibição, pela divulgação, tudo. Mas ficou muito bonito.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/e-logo-ali/2026/09/da-casa-de-taipa-no-sertao-do-ceara-ao-cume-do-everest.shtml.

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    O cearense Rosier Alexandre - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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